Sérgio Augusto Costa

Sérgio Augusto Costa

CEO at VILCO | EMD Brasil | ABHIC

🏛️ 🧭 O Plano Decenal de Expansão de Energia (PDE) funciona como uma bússola para o setor energético brasileiro. Elaborado anualmente pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE), sob a diretriz do Ministério de Minas e Energia (MME), ele projeta a evolução da oferta e demanda de energia para os próximos dez anos.

O PDE busca equilibrar três pilares principais (o chamado “trilema energético“):

É importante notar que o planejamento brasileiro de expansão de geração e transmissão é indicativo e não determinístico.

Para comparamos, na China 🇨🇳, o modelo predominante é o Planejamento Determinativo (ou de Comando). Assim, o governo chinês utiliza os seus Planos Quinquenais para estabelecer metas obrigatórias e quantitativas. Órgãos centrais, como a Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma (NDRC), definem exatamente quanto de cada fonte de energia deve ser adicionado à rede. Coordenando diretamente as grandes empresas estatais para executar essas obras.

É um sistema “Top-Down” (de cima para baixo), onde o planejamento energético está profundamente atrelado às metas de crescimento econômico e segurança nacional dos chineses.

Mas voltando ao PDE, ele sinaliza caminhos e tendências para investidores e governo, mas não garante que todos os projetos listados sairão do papel exatamente como planejado. Pois o governo não é o “dono” de todas as obras; ele apenas aponta para onde o país precisa ir para que o sistema não colapse. E as três razões principais para essa “folga” entre o que está no papel e o que vira realidade são:

💰 Decisão do Investidor Privado

Diferente de uma ordem estatal, o PDE funciona como um sinal de mercado. Se o governo planeja uma usina hidrelétrica em um local, mas os investidores acham que o risco é alto ou o lucro é baixo, eles simplesmente não dão lances nos leilões. Sem investimento privado, o projeto não sai do papel.

🌳 Barreiras de Licenciamento

Muitas vezes, uma usina é planejada no papel, mas ao chegar no mundo real, enfrenta desafios ambientais, arqueológicos ou sociais que não foram totalmente mapeados. Isso pode atrasar o projeto em anos ou torná-lo inviável economicamente.

⚡ A Velocidade da Tecnologia

Quando a tecnologia muda mais rápido que o plano.

É muito interessante observar como o planejamento de longo prazo lida com a imprevisibilidade da tecnologia e da economia. O PDE 2024 (que cobria até 2024 e foi o grande balizador dessa década) e as revisões que levaram ao PDE 2025 projetavam um Brasil que ainda apostava em grandes hidrelétricas na Amazônia, mas que foi atropelado por uma revolução solar que quase ninguém previu com precisão.

O PDE 2035, que entrou em consulta pública em 12/fev/2026, com 30 dias para contribuições, projeta um cenário de crescimento robusto e transformações profundas na nossa matriz energética. O plano estima um investimento total de R$ 3,5 trilhões ao longo da década. As principais metas e projeções são:

⚡ Expansão do Setor Elétrico

O Brasil deve adicionar cerca de 100 GW de capacidade instalada nos próximos 10 anos, saindo de 249 GW para 359 GW:

⛽ Combustíveis e Transição

Embora o foco seja a transição, o setor de petróleo ainda concentra a maior fatia dos investimentos (cerca de 80%).

💲 Investimentos por Segmento

As estimativas de investimentos são

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Tabela 1 – PDE 2035 – Estimativas de Investimentos

A tabela abaixo demonstra a evolução e metas da matriz elétrica brasileira, considerando o PDE 2015 com suas respectivas metas quando ele foi publicado em 2016, e comparando com a capacidade instalada monitorada pela Agência Nacional de Energia Elétrica – ANEEL atualizada para fevereiro/2026. Encontra-se também as metas do PDE 2035:

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Tabela 2 – Evolução Matriz Elétrica – PDE 2025 x Realidade Fev/2026 e Meta 20235 (PDE 2035)

Vamos analisar cada uma das fontes da nossa tabela, comparando o que aconteceu até agora com o que o PDE 2035 projeta para o futuro. Essa análise ajuda a entender por que o planejamento precisa ser constantemente ajustado:

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Tabela 3 – Avaliação da Realidade da Matriz Elétrica Brasileira em 2026 e Tendência para 2035

Tabela 3 – Avaliação Realidade da Matriz Elétrica Brasileira em 2026, e Tendência para 2035

Chama atenção alguns pontos importantes, a serem discutidos na sequência.

❓Por que acredito que os 6 GW para BESS estão subestimados?

Deve ser um dos grandes pontos de debate na consulta pública sobre o PDE. Acredito que a ideia de que os “6 GW estejam subestimados” deve ganhar força justamente porque o planejamento centralizado (PDE) foca muito no que o “governo contrata” (BESS “Front-of-the-Meter” – Nota [1]), mas pode estar “comendo poeira” em relação ao que as empresas estão fazendo por conta própria, no segmento de Comércio & Indústria (BESS “Behind-the-Meter”).

Os três motivos principais pelos quais, na minha visão, esse número ficará pequeno rapidamente:

🏢 O fenômeno “Atrás do Medidor” (Behind-the-Meter)

O PDE foca nos leilões de grande porte (frente do medidor). No entanto, o setor Comércio & Indústria (C&I) está instalando baterias dentro das fábricas e comércios por decisão econômica direta:

🏭 Substituição do Diesel 🏭

Existem milhares de geradores a diesel em shoppings, hospitais e indústrias que são ligados todos os dias no horário de ponta apenas para economizar na conta de luz.

Com o custo das baterias caindo para menos de R$ 2.000/kWh (meta que estamos atingindo agora em 2026), a bateria torna-se financeiramente superior ao diesel, além de ser silenciosa e limpa. Esse mercado de substituição é gigantesco e difícil de ser totalmente mapeado pelo governo.

☀️+🔋 A “Bateria como Seguro” para a Geração Distribuída

O Brasil já tem mais de 44 GW de energia solar nos telhados, conforme dados de fevereiro/2026 da ANEEL. Muitas empresas de C&I que já têm solar estão percebendo que “perdem” dinheiro ao injetar o excedente na rede sob as novas regras (Lei 14.300). A bateria permite que elas guardem esse excedente para usar à noite, aumentando a lucratividade do sistema solar.

Um dado curioso é que os estudos da EPE indicam que, se o mercado residencial e comercial adotar baterias com a mesma velocidade que adotou a energia solar, o investimento poderia ultrapassar R$ 200 bilhões até 2035. Isso considerando que as baterias estão seguindo a mesma curva de queda de preço que a energia solar seguiu anos atrás. E aqui está o ponto de disrupção em que o Governo pode revisar o planejamento nos próximos anos considerando um aumento da meta oficial no PDE para mercado regulado via Leilão de Reserva de Capacidade na Forma de Potência (LRCAP). Além disso, o mercado privado pode “resolver” essa expansão por conta própria. Neste caso, a economia direta (redução da conta de luz), o livre mercado, impulsionaria a tecnologia sem ajuda estatal.

❓Por que há divergência na estimativa de PCHs e CGHs (~12 GW x  ~8,5 GW)?

Para Pequenas e Mini Centrais Hidrelétricas (PCHs e CGHs – Nota [2]), há uma divergência entre o cenário de referência do PDE 2035 (~ 8,5 GW) e a meta de 12 GW defendida por associações como a ABRAPCH – Associação Brasileira de PCHs e CGHs . Ela reflete o potencial total inventariado (projetos que já têm um estudo de rio pronto), mas que ainda não possuem contrato. Já o PDE da EPE (Empresa de Pesquisa Energética) trabalha com uma visão indicativa conservadora, baseada em:

No PDE 2035, também acredito que o governo “segure” a projeção das PCHs e CGHs em 8,5 GW porque entende que, sem um incentivo específico (como reservas de mercado nos leilões), elas crescerão de forma mais lenta do que o sol e o vento.

Esse é outro debate que deve ser acalorado na consulta pública, em que o setor de PCHs e CGHs defendem a fonte considerando os benefícios de:

Gerarem energia perto do consumo (menos perdas).

✅ Têm uma vida útil muito maior (até 50 anos) que painéis solares (~25 a 30 anos).

✅ Ajudam na segurança do sistema porque não param de gerar quando o sol se põe.

E pensando nessa disputa por espaço, caso o governo decidir subir a meta de PCHs para 12 GW, ele precisará “tirar” esse espaço de outra fonte ou prever um consumo maior de energia.

❓E quanto as usinas hidrelétricas reversíveis? Não foi considerado no PDE 2035?

As Usinas Hidrelétricas Reversíveis (UHRs), que funcionam como “baterias gigantes” usando água, estão sim no radar do planejamento. Mas o tratamento que elas recebem no PDE 2035 é diferente das baterias químicas.

Diferente das baterias, que já têm meta de 6 GW para o horizonte de dez anos, as reversíveis aparecem de forma mais expressiva no PNE 2055 (Plano Nacional de Energia) – Nota [3], que olha para os próximos 30 anos.

❓Por que as Reversíveis não têm uma meta tão alta para 2035?

Embora o Brasil tenha um potencial mapeado de mais de 5.500 locais viáveis para essas usinas, o PDE 2035 é mais cauteloso por alguns motivos:

🏗️ Tempo de Construção: Enquanto um sistema de baterias (BESS) pode ser instalado em meses, uma UHR leva de 5 a 10 anos entre licenciamento e obras.

🔄 Regulação em Aberto: O governo ainda está definindo como remunerar quem “bombeia” água. Hoje, o sistema paga por quem gera, mas não havia uma regra clara para quem “consome para estocar” .

🔋Foco em Baterias no Curto Prazo: O Leilão de Reserva de Capacidade (LRCAP) de 2026 priorizou as baterias justamente pela rapidez em atender aos gargalos da rede que já existem hoje.

💡💧 O “Despertar” das Reversíveis no Planejamento

Apesar de não terem a mesma meta numérica imediata das baterias, elas aparecem no novo ciclo de planejamento em dois formatos:

💧Reversíveis vs. 🔋Baterias: O Duelo do Armazenamento

Para entendermos melhor por que o Governo está equilibrando essas duas tecnologias, vamos comparar as funções delas:

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Tabela 4 – Características BESS vs Reversíveis

O planejamento indica que usaremos as baterias para picos rápidos de consumo (final da tarde) e as reversíveis no futuro para guardar energia por dias inteiros.

🎯💧 A Meta no PNE 2055

Diferente do plano decenal (PDE), que foca em obras que já devem começar, o plano para 2055 trabalha com potenciais estratégicos:

🧐 Por que esse número de UHRs é tão alto (72 GW)?

O Governo entende que não precisamos necessariamente construir dezenas de novas barragens gigantes. O caminho traçado no PNE 2055 envolve:

⚖️ O Próximo Passo: Regulamentação

Para que esses 72 GW potenciais (ou parte deles) saiam do papel, o grande debate agora, inclusive dentro da consulta pública do PDE 2035 e PNE 2055, é a remuneração. O mercado precisa saber como será pago o serviço de “guardar energia”.

Se as reversíveis duram muito mais tempo mas levam anos para serem construídas, fica o questionamento:

❓“O Governo deveria dar algum tipo de “vantagem” para elas nos leilões, em comparação com as baterias de lítio que ficam prontas em meses?”

As respostas, e alguns argumentos, são:

❓“Além disso, o Governo deveria começar a licitá-las agora, mesmo que elas só fiquem prontas depois de 2030?”

As respostas, e alguns argumentos, são:

Conclusão

O PDE 2035 e o PNE 2055 não são apenas documentos técnicos; são o mapa de uma transformação sem precedentes. Ao analisarmos os dados, três pilares ficam claros:

O recado é claro: estamos trocando a segurança dos grandes reservatórios do passado pela inteligência tecnológica do futuro. O Brasil tem o recurso e o plano; o desafio agora é a execução.

❓Qual desses pilares você acredita que será o maior desafio para o setor nos próximos 10 anos? Deixe sua opinião nos comentários! 👇

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Notas:

Nota 1 – A principal diferença entre os Sistemas de Armazenamento de Energia em Baterias (Battery Energy Storage Systems – BESS) reside na sua localização física e lógica em relação ao medidor de energia da concessionária, o que determina quem controla o ativo e quais serviços ele presta.

BESS Front-of-the-Meter (FTM)

Sistemas instalados antes do medidor (no lado da rede elétrica). São ativos de grande escala, geralmente operados por concessionárias ou operadores de rede.

BESS Behind-the-Meter (BTM)

Sistemas instalados atrás do medidor (no lado do cliente), seja em residências, comércios ou indústrias.

Nota 2Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs) e Mini Centrais Geradoras Hidrelétricas (CGHs) são categorias de usinas hidrelétricas de pequeno porte que geram energia renovável com baixo impacto ambiental. A principal diferença entre elas reside na potência instalada e nos requisitos regulatórios definidos pela ANEEL.

CGH (Mini Central Geradora Hidrelétrica)

PCH (Pequena Central Hidrelétrica)

Embora tecnicamente a ANEEL ainda classifique como PCH apenas usinas até 30 MW para fins de regulação padrão, a Lei nº 14.182/2021 (Lei da Privatização da Eletrobras), para incentivar a expansão de pequenas hidrelétricas, através de novos leilões criou um “guarda-chuva” de incentivos que trata usinas de 30,1 MW a 50 MW (que seriam UHEs) com as mesmas vantagens competitivas e obrigatoriedade de contratação das PCHs nos leilões.

Esta medida foi desenhada para garantir que fontes hidrelétricas de menor porte consigam competir com fontes como solar e eólica, que possuem custos de instalação atualmente mais baixos, mas não oferecem a mesma estabilidade de geração contínua (despachabilidade).

Nota [3] – O Plano Nacional de Energia (PNE) 2055 é o principal documento de planejamento estratégico de longo prazo para o setor energético brasileiro, elaborado pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE) sob diretrizes do Ministério de Minas e Energia (MME). Lançado recentemente em seus primeiros cadernos (janeiro de 2025), ele substitui e atualiza as diretrizes do antigo PNE 2050.

Principais Objetivos e Pilares:

Destaques e Projeções (Dados de 2026)

O PNE 2055 funciona como um “mapa” para investidores e tomadores de decisão, indicando quais rotas tecnológicas e de infraestrutura o Brasil deve seguir para manter sua matriz renovável e competitiva.

Sérgio Augusto Costa

Sérgio Augusto Costa

CEO at VILCO | EMD Brasil | ABHIC

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