No universo corporativo, poucas coisas são tão simbólicas quanto o momento em que uma subsidiária ultrapassa o valor de sua própria controladora. É como se a filha, antes vista como um braço de um império, de repente se tornasse a matriarca. Foi exatamente o que aconteceu com a Vivo e a Telefónica, um evento que vai muito além dos gráficos da bolsa de valores e nos convida a uma reflexão profunda sobre o que realmente constitui valor no mercado atual.
À primeira vista, os números são claros: enquanto a Telefónica, gigante espanhola, viu suas ações recuarem 13% em doze meses, a Vivo, sua operação brasileira, disparou 40% no mesmo período. O resultado foi um marco histórico: a Vivo, com seus R$ 118 bilhões em valor de mercado, superou os R$ 117,7 bilhões de sua controladora. Mas o que essa inversão de papéis realmente nos diz?
No fim, tudo gira em torno de confiança. O mercado, com sua lógica própria, não está apenas reagindo a balanços financeiros. Ele está precificando o futuro. A visão dos investidores em relação à Telefónica foi construída a partir de decisões como o corte de dividendos e a revisão de projeções, movimentos que chamam a atenção. Em um mundo de incertezas, a previsibilidade e a solidez se tornam ativos valiosíssimos. A percepção de que a estratégia de longo prazo da matriz está menos sólida influencia sua imagem, um ativo intangível que, quando maculado, é dificíl de recuperar.
Enquanto isso, a Vivo se consolidava como a joia da coroa, não apenas pelo seu desempenho, mas pela sua importância estratégica no segundo maior mercado do grupo. A subsidiária brasileira deixou de ser apenas uma fonte de receita para se tornar um pilar de estabilidade e crescimento, uma âncora em meio à tempestade que a matriz enfrenta na Europa. O desempenho superior ao do próprio índice de telecomunicações europeu reforça que a história aqui não é sobre um setor em crise, mas sobre uma empresa específica que soube o que fazer.
O clímax de uma narrativa que os principais índices de valor de marca, como o Kantar BrandZ e o Brand Finance, já vinham sinalizando nas entrelinhas. O valor de uma marca é um dos ativos intangíveis mais poderosos de uma companhia, um termômetro da sua relevância e da sua conexão com os consumidores. E aqui, o contraste entre as duas empresas se torna ainda mais nítido. De um lado, temos a Movistar, principal marca da Telefónica na Espanha, que, segundo o Kantar BrandZ, se mantém como a segunda marca mais valiosa do país, avaliada em cerca de 13 bilhões de dólares. Um colosso, sem dúvida, mas que parece se apoiar na força de seu legado. Do outro lado, a Vivo pulsa com a energia do crescimento.
No Brasil, a marca não só figura como a sétima mais valiosa no mesmo ranking, como viu seu valor saltar 27% em um único ano, atingindo 3,3 bilhões de dólares. Esse crescimento é mais que o dobro da média do setor de telecomunicações. O que esses índices nos mostram é que, enquanto a marca-mãe administra sua relevância, a marca-filha a expande de forma exponencial.
Este episódio é uma lição poderosa sobre a dinâmica do capital e da percepção de valor. É um fato que demonstra que, no tabuleiro global, a força de uma marca não está apenas em seu legado ou em seu tamanho, mas em sua capacidade de inspirar confiança e apresentar uma visão de futuro crível. A troca de coroas entre Vivo e Telefónica não é apenas uma curiosidade estatística. É um sintoma de uma nova era, onde o valor real reside na resiliência, na estratégia clara e na confiança que se consegue construir, um tijolo de cada vez, na mente de cada investidor.
• Por: Rodrigo Cerveira, sócio e CMO da Vórtx e co-fundador do Strategy Studio. Com 30 anos de experiência em estratégia, liderança e desenvolvimento de negócios globais e locais, é especializado em construção de marca e estratégia criativa. É formado em Publicidade e Marketing pela Faculdade Cásper Líbero, com Extensão em Gestão pelo Instituto Europeu de Administração de Negócios (Insead).
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