Questionários consolidam indicadores-chave setoriais para avaliação de desempenho, riscos e oportunidades climáticas e socioambientais

A incorporação de critérios ambientais, sociais e climáticos nas decisões econômicas ainda esbarra em um problema estrutural: a ausência de métricas específicas para diferentes setores da economia. Foi a partir dessa lacuna que a associação Soluções Inclusivas Sustentáveis (SIS) lançou, nesta segunda-feira (30/03), dois novos questionários voltados à avaliação de desempenho, riscos e oportunidades nos setores de construção civil e de abastecimento de água e esgotamento sanitário.

O lançamento ocorreu durante o 17º BIS – Bate-papo Inclusivo e Sustentável, evento online que reuniu especialistas da construção civil, do saneamento, do terceiro setor e do sistema financeiro para discutir como transformar a agenda ASG (Ambiental, Social e Governança) em um instrumento mais concreto e aplicável à realidade brasileira. O documento está disponível para download.

Os questionários foram desenvolvidos com base em referências nacionais e internacionais de sustentabilidade, incluindo padrões como os da International Finance Corporation (grupo Banco Mundial), Global Reporting Initiative (GRI), SASB, IFRS S1 e S2, TNFD, Science-based Targets Initiative (SBTi) e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), além de indicadores brasileiros, como os do ISE da B3. A iniciativa também incorporou tecnologias previstas em taxonomias sustentáveis de países e regiões que incluíram esses setores – entre eles União Europeia, África do Sul, China, Colômbia, Chile, México e Brasil.

A proposta é integrar esse conjunto de referências em uma ferramenta consistente e operacional, capaz de orientar tanto a análise de riscos por instituições financeiras quanto a gestão e a melhoria de desempenho socioambiental e climático pelas empresas do setor.

Padronização das métricas setoriais 

Apesar do avanço da agenda ASG (Ambiental, Social e Governança) no Brasil e no mundo, ainda predomina uma abordagem genérica, pouco aderente às especificidades de cada atividade econômica.

Segundo a Diretora Executiva e Técnica da SIS e coordenadora da iniciativa, Luciane Moessa, quando falamos em gestão socioambiental e climática, é fundamental conhecer bem as características de cada setor. “Ao elaborar esses questionários com indicadores setoriais a gente está buscando suprir uma lacuna que identificamos no setor financeiro, que é essa necessidade de conhecer os indicadores-chave de cada setor. No caso da construção civil, por exemplo, entram variáveis como uso de materiais, impactos sobre a biodiversidade e gestão de resíduos. Já no saneamento, indicadores como perdas na distribuição de água ou eficiência no tratamento de esgoto são determinantes”,  destacou.

Construção civil: entre soluções viáveis e o desafio de escala

Ao apresentar exemplos práticos da aplicação desses critérios, a engenheira civil e diretora-geral da Ecoconstruct, Cristiane Lacerda – que colaborou na elaboração do questionário para a construção civil – destacou que muitas das soluções já estão disponíveis, mas ainda enfrentam o desafio de ganhar escala e superar paradigmas históricos do setor.

Ela demonstrou como decisões de projeto podem reduzir impactos ambientais, preservar elementos naturais e melhorar o desempenho energético e hídrico das edificações. Desde a manutenção de árvores até sistemas de reaproveitamento de água, telhados verdes, reaproveitamento de resíduos sólidos das obras, uso dos telhados para geração de energia solar, entre tantos outros exemplos, apontam para uma mudança possível, ainda que não plenamente disseminada.

“É preciso mitigar os impactos para implantação, usar estrategicamente os recursos existentes e realizar os investimentos com foco em valor ecológico. E isso vale para tudo, em todos os sentidos: o que quer que você tenha no terreno, você precisa fazer uma avaliação olhando para esse valor ecológico”, ressaltou.

A consultora em Gestão Empresarial e Ambiental do Sinduscon-SP, Lilian Sarrouf, destacou que a sustentabilidade deixou de ser apenas um diferencial. “Quem não tá jogando dentro das normas e padrões sustentáveis, não vai conseguir ser competitivo”, afirmou. Por outro lado, sustenta ela, é necessário abordar a sustentabilidade como um todo e levar em conta a realidade de cada local.

Ela mencionou exemplos de iniciativas inovadoras em sustentabilidade no setor da construção civil e destacou o uso de ferramentas, como a calculadora de emissões (cecarbon.com.br), que já incorpora o impacto dos materiais de construção, e o projeto-piloto da calculadora de pegada hídrica (cehidrica.com.br), voltada à mensuração do consumo e da escassez de água ao longo do ciclo das obras.

Saneamento: universalização sob pressão climática e social

Os questionários dialogam diretamente com um dos maiores desafios estruturais do país: universalizar o acesso à água e ao esgotamento sanitário em um cenário de desigualdade territorial e intensificação da crise climática.

Para Paula Pollini, do Instituto Água e Saneamento, o questionário traz uma grande contribuição para o setor. “São todos critérios muito importantes e eu acho que eles estão presentes aqui no questionário, que é bastante extenso”. Paula chama a atenção para a necessidade de enfrentar o problema da disponibilidade hídrica, que torna necessário reduzir o consumo e reduzir perdas na distribuição de água.

Ela defende que avanço do setor precisa ser acompanhado de uma abordagem mais sensível às realidades locais e às populações historicamente excluídas. “Você tem que buscar novas soluções, o que necessariamente não é de uma grande estação de tratamento – são soluções descentralizadas ou alternativas”, afirma. Além disso, ela recorda que existe o desafio da sustentabilidade econômica (tarifa social e custos de manutenção).

O Diretor Executivo da Associação Brasileira das Empresas Estaduais de Saneamento (AESBE), Sérgio Gonçalves,  destacou que o saneamento exige abordagens diferenciadas, considerando as particularidades territoriais e sociais de cada contexto. “O que eu penso como solução no saneamento para São Paulo não pode ser a mesma que eu penso para outro lugar. E mesmo dentro de São Paulo, tenho que pensar nas outras populações que não estão dentro de uma área que já conta com abastecimento, considerando a vulnerabilidade socioeconômica”. Além disso, o setor enfrenta desafios inclusive quanto à disponibilidade de equipamentos e insumos, que nem sempre existem em quantidade suficiente no Brasil.

Sistema financeiro: da análise de risco à indução de mudanças

Os questionários trazem importantes contribuições para as instituições financeiras, como ferramenta para qualificar e fortalecer a análise de riscos socioambientais e climáticos nos setores avaliados.

“A iniciativa de construir esses questionários e trazer para o setor financeiro esses subsídios é muito enriquecedor. Eles trabalham temas com profundidade e estão bem estruturados. São uma iniciativa importante”, afirmou o Gerente de Risco Socioambiental e Climático da Caixa Econômica Federal, Juan Carlo Silva Abad.

Juan destacou ainda que o sistema financeiro ainda precisa avançar na avaliação de empreendimentos de menor porte. “A gente tem uma estrutura muito forte para gestão de projetos de alto risco, mas estamos desenvolvendo um ferramental para ampliar esse olhar de risco socioambiental e climático também para projetos de menor potencial de risco. Dependendo da localização geográfica, ele pode estar suscetível a alagamento, a ventos acima de 100 km/h. Então, é necessário pensar também a adaptação às mudanças climáticas para o empreendimento.” 

Na prática, essa abordagem amplia o papel do setor financeiro, que deixa de atuar apenas como avaliador de riscos e passa a induzir melhores práticas, ao condicionar financiamento a critérios mais robustos de sustentabilidade.

Ele fez algumas sugestões importantes de temas a serem incluídos na fase de construção de obras do setor de água e esgoto, como eventuais reassentamentos involuntários de grupos vulneráveis e impactos em patrimônio cultural ou arqueológico.

Setores econômicos contemplados

Com os novos lançamentos, a SIS amplia um portfólio que já contempla os setores de agricultura, pecuária, florestas, mineração e indústrias siderúrgicas, de cimento, têxtil e de madeira. Os próximos setores contemplados serão os de energia (incluindo eletricidade e combustíveis), destinação de resíduos, transportes terrestres, pesca e aquicultura. Acesse todos os questionários em sis.org.br/questionarios-setoriais.

Assista à íntegra do evento de lançamento dos questionários pelo canal da SIS no YouTube.

Daniella Fernandes
contato@manguecomunica.com.br
(21) 98779-6594

Deixe um comentário

×