A descarbonização da indústria, agora, mais do que uma pauta ambiental, passou a ocupar também um espaço cada vez mais central nas decisões estratégicas de governos, investidores e empresas em todo o mundo. No caso da siderurgia, essa discussão se torna ainda mais direta, porque o aço continuará sendo indispensável para o desenvolvimento de infraestrutura, energia, mobilidade e construção, ao mesmo tempo em que cresce a atenção de mercados, financiadores e clientes sobre a forma como esse material é produzido.
Falar em siderurgia de baixo carbono significa necessariamente falar em investimento. A transição não se resume a ajustes pontuais nos processos produtivos, mas envolve mudanças tecnológicas relevantes, reorganização de cadeias de produção, novas soluções energéticas e ganhos contínuos de eficiência. Tudo isso exige projetos estruturados, intensivos em capital e com ciclos de maturação longos, características típicas da indústria pesada e que tornam a discussão sobre financiamento parte central dessa agenda.
É justamente nesse ponto que, na minha visão, está uma das questões mais importantes para o futuro da indústria. O debate sobre descarbonização precisa avançar para uma discussão mais objetiva sobre as condições que tornam essa transformação viável do ponto de vista econômico, porque, sem estruturas financeiras adequadas, o risco é que a transição permaneça mais no campo das intenções do que realmente da implementação em si.
Projetos industriais dessa natureza dificilmente se viabilizam com soluções financeiras de curto prazo, já que dependem de capital paciente, previsibilidade e instrumentos capazes de acompanhar o ciclo completo de investimento e maturação dos ativos. Essa lógica vale não apenas para a siderurgia, mas também para mineração, infraestrutura e diversos setores que formam a base produtiva da economia e que operam com horizontes de planejamento necessariamente mais longos.
No Brasil, existem algumas condições relevantes que podem favorecer esse caminho, isso porque o país possui uma matriz energética predominantemente renovável, um setor industrial com experiência acumulada em inovação e instituições financeiras que historicamente desempenharam papel importante no financiamento de projetos estruturantes. Esses fatores criam uma base importante para que a agenda de descarbonização da indústria avance de maneira consistente e com potencial de competitividade internacional.
Nos últimos anos, também observamos o crescimento de instrumentos financeiros associados à agenda climática, como títulos vinculados a metas ambientais, estruturas de financiamento conectadas a indicadores de sustentabilidade e outras soluções que buscam direcionar capital para projetos com menor intensidade de carbono. Esse movimento é positivo e tende a ganhar escala, mas, por si só, ainda não resolve o desafio mais amplo de financiar a transformação produtiva da indústria.
Esse debate ganha ainda mais relevância quando observamos que a evolução de tecnologias modernas, muitas delas centrais para a transição energética e digital, já começa a enfrentar limitações relacionadas às suas cadeias de suprimento. Em grande medida, essas cadeias dependem de matérias-primas da indústria mínero-metalúrgica, incluindo insumos considerados críticos, com oferta limitada e sujeitos a riscos ambientais e geopolíticos. Nesse contexto, o desafio de expandir a oferta, seja por meio de novos projetos ou pela transformação de ativos já existentes, passa a enfrentar o mesmo nível de exigência, complexidade e escrutínio associados à agenda de sustentabilidade e financiamento.
Na minha avaliação, o ponto central está em tratar a transição industrial como uma agenda de competitividade e desenvolvimento econômico. A descarbonização não pode ser vista só como uma resposta a pressões regulatórias ou ambientais, mas como uma oportunidade concreta de reposicionar a indústria brasileira em cadeias produtivas globais que estão passando por mudanças profundas.
Para que isso aconteça, é fundamental que exista um ambiente institucional capaz de estimular investimento produtivo de longo prazo. Segurança regulatória, políticas públicas previsíveis, instrumentos de crédito adequados e um mercado de capitais disposto a financiar projetos industriais são elementos que precisam caminhar de forma coordenada. Quando essa equação funciona, o capital encontra caminhos para financiar a transformação. Quando não funciona, mesmo projetos tecnicamente viáveis acabam enfrentando dificuldades para sair do papel.
No caso da siderurgia, essa discussão se torna ainda mais relevante porque a indústria está no início de um ciclo global de transformação impulsionado por novas tecnologias, mudanças na matriz energética e maior exigência por cadeias produtivas com menor intensidade de carbono. Países que conseguirem alinhar estratégia industrial, financiamento e inovação terão condições de construir vantagens competitivas importantes nesse novo cenário.
O Brasil reúne características que podem permitir uma participação relevante nesse processo, mas isso dependerá da capacidade de construir um ambiente em que investimentos industriais de grande escala possam ser estruturados com segurança e horizonte de longo prazo. No fim das contas, a pergunta que precisamos responder não é apenas como reduzir emissões na indústria, mas como estruturar os mecanismos financeiros e institucionais que permitam que essa transformação aconteça de forma consistente, competitiva e sustentável para o país.
• Por: Gustavo Bcheche, diretor de Finanças e Relações com Investidores da Aço Verde do Brasil.
