Presidente da Be8, Erasmo Battistella fez estreia como expositor na Feira de Hannover

Presidente da Be8, Erasmo Battistella fez estreia como expositor na Feira de Hannover

Guilherme Kolling/Especial/JC

Guilherme Kolling

Guilherme Kolling

De Hannover, Alemanha

Dez empresários brasileiros e dez empresários alemães participaram de um jantar fechado em Hannover, com os chefes de governo do Brasil e da Alemanha. O presidente da Be8, Erasmo Battistella, foi um dos convidados do encontro e conta que, na oportunidade, no domingo (19) à noite, explicou pessoalmente ao chanceler alemão, Friedrich Merz, o funcionamento do biodiesel brasileiro testado em caminhões alemães, bem como as vantagens ambientais do produto.

Em um cenário de crise energética na Alemanha, a defesa dos biocombustíveis esteve na pauta dos primeiros dias da Feira de Hannover, no ano em que o Brasil é o país parceiro do evento.

A Be8 testou o uso de biodiesel produzido em Passo Fundo em caminhões Mercedes-Benz na Alemanha. O resultado mostrou performance equivalente ao diesel fóssil utilizado no mercado europeu, com redução das emissões atmosféricas. O projeto está sendo apresentado em Hannover.

Nesta entrevista ao Jornal do Comércio, concedida no estande da Be8 – um dos maiores entre as empresas brasileiras em Hannover –, Battistella reforça que o Brasil já sabe produzir biocombustível, mas ainda precisa abrir novos mercados. O acordo União Europeia-Mercosul e a exposição na Feira de Hannover podem ajudar a liberar entraves regulatórios ao produto brasileiro na Europa.

Jornal do Comércio – Como surgiu a oportunidade de ser expositor na Feira de Hannover e quando a Be8 tomou a decisão de estrear no evento?

Erasmo Battistella – Já tínhamos sido convidados pela Apex (Agência Brasileira de Promoção de Investimentos) para estar em algumas feiras, mas não tínhamos encontrado o momento certo para ter essa estreia em feiras tão grandes e internacionais. No ano passado, quando fomos à COP-30 (Conferência Mundial sobre Mudança do Clima, realizada em Belém em 2025) e mostramos o Bevant (biodiesel produzido pela Be8) junto com a Mercedes-Benz em Brasília para o presidente Lula, ele lançou o desafio de testarmos o Bevant na Alemanha para demonstrarmos os resultados. E aí imediatamente a Apex nos convidou para expor esses resultados aqui (em Hannover). Então, criamos um plano de trabalho – Mercedes-Benz, Be8 e Apex –, e foi isso que construímos nos últimos seis meses. Exportamos o Bevant para cá, a Mercedes gentilmente fez os testes e estamos aqui para divulgar esse resultado, que é muito bom para o Brasil.

JC – A parceria com a Mercedes é anterior à COP-30…

Battistella – A parceria da Mercedes vem de muito tempo, sempre testou nosso biodiesel. E foi uma das primeiras montadoras a testar e aprovar o Bevant, no início do ano passado, em preparativo para a COP.

JC – E qual é a importância de estar na maior feira de tecnologia industrial do mundo?

Battistella – É muito grande, principalmente pela visibilidade na nossa estreia, com a presença do governo brasileiro, com o governo alemão acompanhando o nosso trabalho. Eu tive a oportunidade de conversar com o primeiro-ministro alemão (Friedrich Merz), explicar o nosso produto no jantar depois da cerimônia de abertura. Foi um jantar para dez empresários alemães e dez brasileiros. Tive a oportunidade de explicar o produto e, principalmente, defender os biocombustíveis brasileiros. Dizer que, no Brasil, produzimos biocombustível e aumentamos a oferta de alimentos.

JC – Nos discursos públicos, tanto o presidente Lula quanto o chanceler Merz citaram o caminhão da Mercedes usando biocombustível brasileiro…

Battistella – Para uma empresa que chega pela primeira vez em Hannover, ser citada pelo presidente do Brasil e pelo primeiro-ministro alemão nos seus discursos, é começar bem. Posso dizer que começamos com o pé direito.

JC – Os discursos do lado brasileiro defenderam que a produção de biocombustíveis não concorre com a produção de alimentos nem prejudicam o meio ambiente. Há entraves ambientais ou relacionados à produção de alimentos na Europa?

Battistella – Primeiro, já estamos na Europa, temos escritório de trade em Genebra (Suíça) e uma pequena fábrica de biodiesel em Domdidier, na Suíça. Segundo, somos um exportador de biocombustível para a Europa desde 2012, certificados para exportação à Europa. E, terceiro, sim, hoje tem alguns entraves (para exportar) porque a Europa prioriza matérias-primas residuais, como algumas categorias de gorduras, óleos reciclados. E, para 2030, tem uma luz vermelha, que é provavelmente a Europa não comprar mais biocombustíveis de algumas matérias-primas, como, por exemplo, a soja.

JC – De matérias-primas que podem ser usadas para alimentação, que não poderiam mais ser usadas para biocombustíveis…

Battistella – Isso. Então, nosso trabalho é muito grande, para que se possa, em Bruxelas (na Bélgica, capital administrativa da União Europeia), resolver isso de outra forma. E o fato de estarmos aqui em Hannover, com empresas alemãs, demonstrando o biocombustível e a cadeia de produção, é um movimento muito importante para levar esse movimento a Bruxelas e poder dizer “olha, a forma como produzimos biocombustível no Brasil precisa ser analisada, é diferente. Nós temos duas, três safras por ano, o uso da terra no Brasil é diferente e temos como certificar isso para que vocês fiquem tranquilos e possam abrir esse mercado de forma estruturada para que possamos fornecer biocombustível a vocês”.

JC – E qual é a matéria-prima do Bevant exposto aqui em Hannover?

Battistella – Temos a facilidade de fazer o Bevant com múltiplas matérias-primas. Podemos usar óleos reciclados, gorduras recicladas, óleos vegetais. A tecnologia nos dá flexibilidade de atender ao mercado brasileiro, americano e europeu. Mas é óbvio que se pudermos aumentar o leque de matérias-primas, vamos ficar mais competitivos e vamos conseguir produzir mais volume.

JC – O Bevant vem do Rio Grande do Sul, isso? Não é fabricado na Suíça?

Battistella – É do Rio Grande do Sul. Na Suíça estamos agora estudando a possível fabricação do Bevant. É uma tecnologia nossa, patente nossa. Então, podemos fabricar em qualquer lugar do mundo. O que precisamos é abrir mercado. Esse é o ponto que tenho defendido muito, o combustível brasileiro precisa abrir mercado, porque fabricar a gente sabe. E essa Feira de Hannover é importante para abrir mercado.

JC – O Bevant é um projeto-piloto ou já tem clientes?

Battistella – Já passou do piloto, estamos com mais de 200 clientes testando o produto. Na última semana, a Wilson Sons, de navegação, testou o produto em grandes barcos no Porto do Açu (RJ). São diferentes segmentos no Brasil, agrícola, transporte, navegação, mineração, transporte público, prefeituras.

JC – No primeiro dia de feira você disse ao presidente Lula que, com alguma adaptação, dá para expandir o uso do biodiesel no transporte público, municípios…

Battistella – Não precisa adaptação dos motores, é simplesmente trocar o filtro, colocar um novo e botar o combustível. E ontem mesmo (segunda-feira) vieram aqui (no estande da Be8) a prefeitura de Nonoai e de Rondinha, do Rio Grande do Sul, e já se comprometeram em começar a utilizar (o biodiesel).

JC – Para fechar: qual a importância de o Brasil ser país parceiro da Feira de Hannover?

Battistella – É muito importante, é a segunda vez que o Brasil é homenageado (a primeira foi em 1980) e isso demonstra o quanto a Alemanha respeita o Brasil. E vi na imprensa alemã que o protocolo utilizado para receber o presidente Lula e a delegação brasileira, a última vez que tinha sido usado foi quando veio o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama (em 2016). Isso demonstra o respeito da Alemanha e nós, brasileiros, precisamos valorizar muito isso. A Alemanha é a terceira maior economia do mundo e temos a oportunidade de crescer muito em negócios com a Alemanha e com a União Europeia.

https://www.jornaldocomercio.com/especiais/hannover-messe/2026/04/1245706-combustivel-brasileiro-precisa-abrir-mercados-diz-battistella.html

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