
Segundo as instituições, aumento do teor de etanol pode comprometer equipamentos como mangueiras e vedações
LUIZA PRADO/JC
Agências
A proposta do governo de elevar a mistura obrigatória de etanol na gasolina para 32% provocou reação da indústria automotiva, que acionou o governo para apresentar suas preocupações técnicas com a mudança, além de cobrar testes sobre os efeitos dessa elevação em carros e motocicletas.
Conforme informações obtidas pela Folha de S.Paulo, a decisão de ampliar a mistura foi tomada pelo governo sem consultar os fabricantes. O uso de 32% de etanol na gasolina é inédito e, conforme as regras do setor, exige testes que excedem esse percentual em dois pontos percentuais, chegando a 34%. Esses testes, porém, nunca foram feitos.
Questionado sobre o assunto, o Ministério de Minas e Energia não se pronunciou até a publicação deste texto. O Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio declarou apenas que “a referida questão é uma decisão do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE)”.
A mudança na mistura, prevista inicialmente para ser definida em reunião desta quinta-feira (7) do CNPE (Conselho Nacional de Política Energética), foi postergada para segunda (11). O objetivo do governo é reduzir a importação de gasolina, em meio à crise internacional de preços puxada pela guerra no Oriente Médio.
O custo de importação da gasolina subiu 61% desde o início do conflito, segundo estimativa da ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás e Biocombustíveis). Hoje, a gasolina brasileira já contém 30% de etanol anidro misturado, o chamado “E30”. O governo decidiu elevar esse percentual para 32%, inicialmente por 180 dias, com possibilidade de prorrogação.
Como mostrou a Folha, o Ministério de Minas e Energia estima que a mudança pode reduzir em cerca de 454 milhões de litros a necessidade de importação de gasolina no período, além de diminuir as emissões de carbono em aproximadamente 552 mil toneladas de CO₂. Para defender a proposta, o ministério afirma que realizou testes com misturas de E30 e E32 em 2025, com apoio do Instituto Mauá de Tecnologia. Esses testes envolveram veículos leves e motocicletas, com modelos flex e gasolina.
A decisão de ter testado a mistura com 32% no ano passado já atendia a exigências legais do setor. Uma lei de 1993 exige que seja testado efeito de 1% acima da mistura. Outro 1% adicional está ligado a normas técnicas do setor. Por isso, quando mediu a mistura de 32%, o governo procurava atender a obrigações para colocar a mistura de 30% nas bombas de combustível.
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Agora, porém, quando quer anunciar o aumento para 32%, não houve testes de até 34%, como determinam as regras do setor. As montadoras afirmam que impactos com corrosão, abrasividade e o comportamento de motores no longo prazo deveriam ser testados. Esses testes não são feitos de um dia para o outro. Exigem tempo e pesquisa, levando meses para serem concluídos.
A Folha teve acesso a uma carta que a Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores) enviou ao MME na semana passada para tratar do assunto. O documento também é assinado pela Abeifa (Associação Brasileira das Empresas Importadoras e Fabricantes de Veículos Automotores) e o Sindipeças (Sindicato Nacional da Indústria de Componentes para Veículos Automotores).
No documento, as instituições apoiam o uso da mistura de etanol na gasolina, mas afirmam que “teores acima de 30% trazem desafios de engenharia que demandam validação rigorosa, uma vez que a frota circulante não foi desenvolvida considerando elevados teores de biocombustível”. A frota nacional supera 60 milhões de veículos, quando considerados veículos e motos, sendo aproximadamente 12% de automóveis e 70% de motocicletas movidos exclusivamente a gasolina.
O documento alerta que o aumento do teor de etanol pode comprometer equipamentos como mangueiras e vedações em sistemas não projetados para essa concentração, levando à redução da durabilidade dos componentes. A carta também menciona que o etanol pode favorecer corrosivos em componentes metálicos do sistema de combustível.
Questionada pela Folha, a Anfavea declarou apenas que acompanha o assunto com preocupação. O diretor da Abraciclo (Associação Brasileira dos Fabricantes de Motocicletas, Ciclomotores, Motonetas, Bicicletas e Similares), Sergio Oliveira, disse à reportagem que soube da nova mistura pela imprensa e que não houve nenhuma consulta sobre o assunto.
“Sempre fomos favoráveis à mistura do etanol, não temos nenhuma resistência a isso, mas estamos preocupados com essa ausência de debate sobre esse tema”, disse. “O que nos resta é argumentar sobre os aspectos técnicos dessa medida. Já tínhamos apontado preocupações com parâmetros do E30, que levou a certas falhas de dirigibilidade, alterando o comportamento da motocicleta em aceleração e partidas a frio, por exemplo”.
Folhapress
