
Setor de tratores e máquinas agrícolas deverá ser o mais impactado
/MASSEY FERGUSSON/DIVULGAÇÃO/JC

Claudio Medaglia
A desaceleração das vendas de máquinas agrícolas começou a produzir efeitos mais concretos dentro das fábricas gaúchas. Com queda nas negociações e maior cautela dos produtores rurais, empresas do setor passaram a reduzir jornadas, rever estoques e ajustar a produção para enfrentar o momento de retração do mercado.
Gerente de Marketing da São José Industrial, Daniel Ribeiro afirma que a empresa registrou queda de 32% nas intenções de negócios durante a Agrishow na comparação com a edição anterior. Segundo ele, os principais obstáculos para o fechamento de pedidos foram a dificuldade de acesso a recursos financeiros e a baixa disposição de compra por parte dos produtores rurais.
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A empresa também encerrou 2025 com retração de 18% nos resultados em relação ao ano anterior. Apesar do cenário adverso, a empresa mantém como meta para 2026 repetir o faturamento registrado em 2025.
Para enfrentar o momento de retração, a fabricante adotou medidas de contenção de custos e ajuste operacional.
“Estamos trabalhando com jornada reduzida, apenas quatro dias por semana, além de reduzir estoques de matéria-prima e produto acabado para tentar evitar redução de quadro”, afirma Ribeiro.
Segundo a vice-presidente do Simers e da Semeato, Carolina Rossato, grandes fabricantes instalados no Estado também passaram a adotar lay-offs e ajustes produtivos diante da queda da demanda.
“Nós vemos muitas empresas de grande porte fazendo lay-off. Isso é um sinal muito ruim do mercado”, afirma.
Ela relata que uma nova onda de suspensão temporária de contratos de trabalho foi percebida após a realização da Agrishow.
Outro fator de pressão destacado pelo setor é a situação da cadeia leiteira gaúcha. Margens reduzidas, custos elevados e dificuldade de acesso ao crédito têm limitado a capacidade de investimento de pequenos produtores, especialmente ligados à agricultura familiar.
“A cadeia leiteira reflete muito no cliente menor, na agricultura familiar, e isso impacta diretamente as vendas via Pronaf”, afirma Carolina.
Além da cautela do produtor rural diante do cenário econômico, o setor demonstra preocupação com a falta de definições operacionais sobre o MOVE Brasil, programa lançado pelo governo federal em abril de 2026 com apoio da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. A iniciativa prevê R$ 10 bilhões em crédito para renovação e modernização da frota agrícola.
Embora o anúncio tenha sido recebido de forma positiva pela indústria, empresas afirmam que ainda faltam informações sobre critérios de acesso, taxas, prazos e operacionalização das linhas de financiamento.
“O governo federal lançou o MOVE Brasil antes da feira, mas ainda não temos nenhum parâmetro estabelecido para enxergar o programa”, afirma Carolina.
Segundo ela, a ausência dessas definições dificulta o planejamento das empresas e reduz o impacto imediato da medida sobre o mercado.
“Esses parâmetros precisam ser discutidos rapidamente para que a gente consiga ter um segundo semestre com perspectiva mais positiva”, afirma.
A expectativa do setor é de que a regulamentação do programa e a divulgação do próximo Plano Safra possam ajudar a destravar investimentos e melhorar o ambiente de negócios no segundo semestre. Para a indústria, no entanto, não basta ampliar o volume de recursos disponíveis.
“Precisamos entender o que vem e garantir que o produtor tenha acesso ao crédito. Não adianta existir o recurso e ele não chegar na ponta”, conclui Carolina.
