Por Carlos Eduardo Sedeh
Quando falamos sobre a infraestrutura que sustenta a economia digital, é comum pensar em data centers, inteligência artificial ou computação em nuvem. Pouca gente se lembra, porém, de que cerca de 99% do tráfego internacional de dados passa por cabos submarinos instalados no fundo dos oceanos. São mais de 600 cabos ativos ao redor do mundo, totalizando aproximadamente 1,4 milhão de quilômetros de extensão. Invisíveis para a maior parte das pessoas, eles sustentam desde transações financeiras globais até serviços de streaming, plataformas digitais e sistemas corporativos.
Durante muito tempo, essa infraestrutura foi tratada apenas como uma questão técnica. Hoje, isso mudou. Os cabos submarinos passaram a ocupar um papel estratégico para governos, empresas e mercados, em um contexto em que conectividade, segurança e capacidade de processamento de dados se tornaram fatores centrais para a competitividade econômica.
No século XX, países disputavam rotas marítimas para transportar mercadorias. No século XXI, a disputa também passa pelas rotas que transportam dados.
A transformação digital ampliou de forma significativa a dependência global de conectividade internacional. Empresas operam simultaneamente em diversos mercados, cadeias produtivas são coordenadas em tempo real e volumes cada vez maiores de informações circulam entre continentes a cada segundo. Nesse cenário, garantir conexões rápidas, seguras e resilientes deixou de ser apenas uma necessidade operacional para se tornar uma questão estratégica.
Essa mudança ajuda a explicar por que os cabos submarinos ganharam relevância nas agendas econômicas e geopolíticas ao redor do mundo. Nos últimos anos, governos passaram a discutir com mais atenção temas como proteção de infraestrutura crítica, soberania digital e segurança das comunicações internacionais. Ao mesmo tempo, grandes empresas de tecnologia ampliaram investimentos em redes próprias de conectividade para atender à crescente demanda por dados.
Grandes provedores de conteúdo passaram a investir diretamente em projetos de conectividade submarina, sinalizando que essa infraestrutura deixou de ser exclusividade das operadoras tradicionais e passou a ocupar papel estratégico na economia digital.
Costumamos discutir cabos submarinos sob a ótica da tecnologia. Mas a questão central é econômica. Países que entendem isso estão construindo vantagens competitivas que podem durar décadas.
A capacidade de atrair investimentos em data centers, serviços digitais, plataformas globais e operações de processamento de dados está diretamente relacionada à qualidade da infraestrutura de conectividade disponível. Não basta ter capacidade computacional. É preciso garantir que os dados possam circular de forma eficiente entre mercados, empresas e regiões do mundo.
Nesse contexto, o Brasil reúne características que merecem atenção. Poucos países ocupam uma posição geográfica tão estratégica quanto a brasileira nas rotas internacionais de dados. Localizado no Atlântico Sul, o país conecta importantes corredores digitais entre América do Sul, América do Norte, Europa e África, em um momento em que a diversificação das rotas de conectividade ganha relevância para empresas, investidores e governos.
Essa posição pode representar mais do que uma vantagem geográfica. Pode se transformar em uma oportunidade econômica. Nos últimos meses, o governo federal intensificou discussões sobre o papel dos cabos submarinos na atração de investimentos em infraestrutura tecnológica e no fortalecimento da posição do Brasil como hub regional de conectividade. O movimento reflete uma percepção cada vez mais clara: conectividade internacional passou a ser um fator de competitividade.
A costa brasileira abriga importantes pontos de conexão internacional, com destaque para Fortaleza, que se consolidou como um dos principais hubs de cabos submarinos da América Latina. A cidade concentra mais de dez sistemas internacionais de cabos, fortalecendo a posição brasileira nas rotas globais de dados e contribuindo para atrair investimentos em data centers, serviços digitais e redes de alta capacidade.
Existe ainda um aspecto pouco explorado nessa discussão. O Atlântico Sul, historicamente associado às rotas comerciais que conectaram continentes ao longo dos séculos, volta a ganhar relevância estratégica. Desta vez, não pela circulação de mercadorias, mas pela circulação de dados.
Em um cenário de crescente demanda por conectividade internacional e diversificação de rotas digitais, a posição geográfica brasileira pode contribuir para aproximar mercados e fortalecer conexões entre América Latina, África, Europa e América do Norte. Trata-se de uma oportunidade que vai além das telecomunicações e alcança diretamente a competitividade do país.
Para empresas que atuam na construção e operação de infraestrutura de conectividade, essa transformação já é perceptível. O planejamento de redes deixou de responder apenas ao crescimento do tráfego e passou a considerar fatores geopolíticos, econômicos e de resiliência.
Ao mesmo tempo, cresce a preocupação global com a segurança e a continuidade dessas estruturas. Em 2024, danos a cabos submarinos no Mar Vermelho afetaram uma parcela significativa do tráfego de dados entre Europa, Ásia e Oriente Médio, evidenciando como incidentes localizados podem produzir impactos globais.
Por essa razão, os investimentos em conectividade precisam ser analisados de forma integrada. Data centers, redes terrestres, cabos submarinos e sistemas de energia fazem parte de um mesmo ecossistema. O desempenho de cada um deles influencia diretamente a capacidade de expansão dos demais.
Nos próximos anos, a demanda global por conectividade continuará crescendo em ritmo acelerado. Novas aplicações, modelos de negócios digitais e o aumento constante da circulação de dados exigirão infraestrutura capaz de acompanhar essa evolução.
Singapura compreendeu há anos que conectividade internacional é um ativo econômico. Ao investir de forma consistente em infraestrutura digital e interconexão global, consolidou-se como um dos principais hubs digitais do mundo. O Brasil reúne condições geográficas igualmente relevantes e pode ampliar sua participação nessa agenda.
Os cabos submarinos dificilmente aparecerão nas manchetes com a mesma frequência que a inteligência artificial ou os grandes investimentos em data centers. Ainda assim, continuarão sendo uma das bases mais importantes da economia digital.
No século passado, o desenvolvimento econômico esteve ligado à capacidade de movimentar pessoas, mercadorias e energia. Neste século, ele também dependerá da capacidade de movimentar dados.
E é justamente sob os oceanos, longe dos holofotes, que parte dessa disputa já está acontecendo.
(*) Carlos Eduardo Sedeh é CEO da SAMM, holding B2B de tecnologia e telecomunicações. Economista pela FAAP, com MBA em Gestão Estratégica e Econômica de Negócios pela FGV, tem mais de 25 anos de experiência em expansão, aquisições e conectividade crítica.
Com mais de 26 anos de trajetória e cerca de 350 profissionais dedicados, a Samm é a holding formada a partir da consolidação de operações estratégicas no mercado B2B de tecnologia e telecomunicações. Presente em mais de 450 cidades, a empresa oferece infraestrutura robusta, soluções personalizadas e suporte à digitalização de negócios em setores como agronegócio, logística, finanças e indústria.
A Samm reúne ativos de alto valor, como as operações da G8 Telecomunicações, InterNexa Brasil e da antiga unidade da CCR especializada em cabos subterrâneos — hoje integradas em uma única plataforma. Com sede em São Paulo e filiais em localidades estratégicas como São José do Rio Preto, Presidente Prudente, Rio de Janeiro e Goiânia, a companhia opera uma rede de fibra óptica que ultrapassa 40 mil km, incluindo 23 mil km de cabos submarinos. Também possui mais de 40 data centers distribuídos pelo país, sendo 5 próprios no modelo edge.
A empresa se destaca pelo fornecimento de acesso à internet de alta qualidade, soluções de cibersegurança, colocation em data centers de última geração e transmissão de dados com baixa latência, apoiados por uma infraestrutura robusta de fibra óptica nacional e cabos submarinos. Oferece conexão direta com os principais provedores de cloud pública — AWS, Azure, Oracle Cloud e Google Cloud —, permitindo integração de serviços em múltiplas nuvens e a criação de cloud privada, sem aprisionamento tecnológico. Com cobrança em reais, previsibilidade de custos e atendimento personalizado, a Samm garante que empresas de todos os portes possam operar com eficiência, segurança e performance confiável, aproveitando ao máximo a robustez de sua infraestrutura e soluções tecnológicas.
Mais do que uma evolução de marca, a Samm representa a convergência de uma história sólida com uma visão de futuro baseada em inovação, governança e crescimento sustentável.
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Marcela Lima
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