Por Lorena Zapata, diretora de novos negócios e sustentabilidade da Engeper*

O Brasil atravessa 2026 discutindo segurança hídrica da mesma forma que discutia há vinte anos, sempre depois do problema instalado. A sequência recente de enchentes no Sul, secas prolongadas no Norte e pressão sobre reservatórios no Sudeste mostrou que o país deixou de enfrentar eventos isolados e passou a conviver com instabilidade hídrica contínua.

Ainda assim, a resposta pública permanece concentrada em medidas emergenciais, obras pontuais e discursos sobre preservação, como se isso fosse suficiente para sustentar crescimento urbano, atividade industrial e expansão agrícola nas próximas décadas.

O ponto mais preocupante é que o Brasil continua tratando dessalinização e reuso como soluções periféricas, restritas ao semiárido, quando o debate internacional já deslocou essas tecnologias para o centro da estratégia econômica, industrial e de abastecimento.

Os números mais recentes ajudam a desmontar a ideia de que o país ainda pode depender apenas da abundância natural de água. Segundo a edição de 2025 do relatório Conjuntura dos Recursos Hídricos, da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico, a irrigação já responde por mais da metade do consumo hídrico nacional, enquanto o abastecimento urbano e o uso industrial seguem crescendo em regiões que convivem com estresse hídrico recorrente.

O mesmo relatório mostra que milhões de brasileiros foram afetados simultaneamente por secas severas e eventos extremos de cheia nos últimos anos. Isso expõe uma distorção histórica da política hídrica brasileira.

O país investiu na expansão do consumo, mas não modernizou com a mesma velocidade os sistemas de recuperação, armazenamento, reaproveitamento e eficiência operacional. A consequência aparece tanto nos reservatórios pressionados quanto no aumento do custo da água para setores produtivos.

A comparação internacional torna o atraso brasileiro ainda mais evidente. Israel reutiliza mais de 80% da água residuária tratada, segundo dados oficiais da Autoridade de Água israelense, transformando o reuso em base estrutural da agricultura e do abastecimento.

Singapura consolidou o programa NEWater para reduzir dependência externa e garantir estabilidade hídrica em uma das economias mais urbanizadas do mundo. Na Espanha, a dessalinização ganhou escala depois das crises hídricas que atingiram o Mediterrâneo nos últimos anos.

Em comum, esses países entenderam que segurança hídrica deixou de ser apenas uma pauta ambiental e passou a ser uma questão econômica, industrial e estratégica.

O Brasil ainda opera sob uma lógica ultrapassada, que considera a dessalinização cara demais sem incorporar ao cálculo o impacto financeiro das interrupções industriais, da perda agrícola e da vulnerabilidade urbana durante períodos de estiagem.

A baixa eficiência do sistema brasileiro agrava ainda mais esse cenário. Dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento mostram perdas médias de aproximadamente 37% da água tratada na distribuição.

Em algumas capitais, o desperdício supera metade do volume produzido. Isso significa que o país continua retirando água da natureza, tratando essa água com alto custo energético e financeiro, e perdendo parte relevante dela antes mesmo de chegar ao consumidor.

Em vez de enfrentar esse problema estrutural com modernização acelerada de infraestrutura, reuso industrial e tecnologias avançadas de recuperação hídrica, o debate público frequentemente reduz a discussão a novas captações ou ampliação de reservatórios. O resultado é um sistema mais caro, mais vulnerável e operacionalmente ineficiente.

Existe também uma contradição pouco discutida nesse debate. O Brasil ainda depende fortemente de equipamentos importados para dessalinização e tratamento avançado de água, mesmo contando com empresas nacionais que vêm ampliando sua capacidade técnica e desenvolvendo soluções para recuperação hídrica e eficiência operacional.

Essa dependência encarece projetos, dificulta a expansão dessas tecnologias e limita a capacidade do país de responder com mais rapidez aos desafios relacionados ao abastecimento.

Além da necessidade de ampliar investimentos em infraestrutura, o país deveria enxergar esse setor como uma oportunidade de fortalecer sua própria indústria.

O avanço da dessalinização, do reuso e de tecnologias para redução de perdas pode estimular a produção local de equipamentos, ampliar a geração de empregos qualificados e incentivar o desenvolvimento de conhecimento técnico em uma área que tende a se tornar cada vez mais estratégica.

Enquanto outros países transformaram a segurança hídrica em prioridade de longo prazo, o Brasil ainda trata o tema de forma reativa. Reduzir a dependência de soluções importadas e criar condições para que empresas nacionais participem mais ativamente desse mercado não é apenas uma questão econômica.

É também uma forma de ampliar a capacidade do país de planejar e executar sua própria estratégia de segurança hídrica em um cenário de crescente pressão sobre os recursos naturais.

O erro brasileiro não está apenas na lentidão dos investimentos. Está na insistência em tratar água como um recurso naturalmente garantido.

Essa percepção talvez tenha feito sentido décadas atrás, mas não resiste mais aos dados climáticos, à expansão industrial e ao crescimento urbano desordenado.

Dessalinização e reuso não são substitutos de preservação ambiental ou saneamento básico, mas ignorá-los como pilares permanentes da política hídrica nacional amplia vulnerabilidades que já custam caro ao país.

O Brasil ainda possui vantagem hídrica relevante em escala global.

A questão é por quanto tempo continuará desperdiçando essa vantagem antes de perceber que abundância sem infraestrutura, tecnologia e capacidade industrial deixou de representar segurança.

*Lorena Zapata é especialista em sustentabilidade industrial, diretora de novos negócios e sustentabilidade na Engeper Ambiental e Perfurações, com vasta experiência em implantação da tecnologia de eletrodiálise reversa (EDR) como transição ecológica para indústrias.


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Gabriel Moreira
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