Durante décadas, crescimento econômico foi praticamente sinônimo de extração crescente de recursos naturais. Produzir mais, consumir mais e descartar mais parecia representar, quase que automaticamente, desenvolvimento. Esse paradigma começa a enfrentar limites visíveis. A crise climática, os eventos extremos, a pressão sobre recursos estratégicos e a própria reorganização geopolítica da indústria global aceleram uma mudança importante: eficiência econômica e sustentabilidade deixaram de ser agendas separadas.

Os dados mais recentes da Confederação Nacional da Indústria (CNI) ajudam a ilustrar essa transformação. A Sondagem sobre Economia Circular 2026, de junho, revela que 57% das indústrias brasileiras já adotam ao menos uma prática de economia circular. O dado é relevante, mas merece leitura mais cuidadosa. Entre as grandes empresas, o percentual chega a 66%. Nas pequenas, cai para 43%. A diferença mostra algo importante: a transição para modelos produtivos mais circulares avança, porém ocorre de forma desigual, refletindo diferenças de acesso a crédito, tecnologia, escala e capacidade de investimento.

Essa assimetria ajuda a explicar por que a economia circular deixou de ser apenas um tema ambiental e passou a ocupar espaço crescente na política industrial brasileira. A Estratégia Nacional de Economia Circular (ENEC), instituída em 2024, busca justamente criar coordenação regulatória, institucional e econômica para acelerar essa transição. O desafio, entretanto, é transformar estratégia em implementação concreta, sobretudo em um país marcado por elevado custo de capital, juros historicamente altos e forte heterogeneidade produtiva.

A própria pesquisa da CNI aponta que cerca de 25% das empresas consideram as taxas de juros um dos principais entraves à adoção da circularidade. Isso possui enorme relevância econômica. Implementar logística reversa, reaproveitamento de materiais, rastreabilidade produtiva, regeneração de recursos e inovação industrial exige investimentos significativos, especialmente para pequenas e médias empresas. Sem financiamento adequado, a circularidade corre o risco de permanecer concentrada nos grandes grupos empresariais.

Nesse contexto, a reflexão proposta por Raworth (2019) ganha atualidade. Sua crítica central é que o modelo tradicional de crescimento ignora simultaneamente dois limites fundamentais: o teto ambiental do planeta e o piso social necessário para garantir dignidade econômica. O desafio contemporâneo passa a ser crescer dentro desse “espaço seguro e justo”, conciliando desenvolvimento econômico, inclusão social e preservação ambiental. Essa transformação exigirá esforço coletivo e “capital paciente”.

O debate internacional já se deslocou nessa direção. A União Europeia avança em mecanismos de rastreabilidade e passaporte digital de produtos. A China consolidou sua legislação de economia circular há mais de uma década. Os Estados Unidos ampliam investimentos em transição energética e reindustrialização verde. A sustentabilidade deixou de ser apenas uma agenda reputacional para tornar-se instrumento de competitividade econômica, atração de investimentos e reposicionamento industrial.

O Brasil possui vantagens estratégicas importantes nesse cenário: biodiversidade, matriz energética relativamente limpa, capacidade agrícola e um parque industrial diversificado. Mas, transformar esse potencial em desenvolvimento sustentável exige coordenação institucional, previsibilidade regulatória e mecanismos robustos de financiamento para a transição produtiva.

Talvez esteja justamente aí um dos principais papéis dos economistas nos próximos anos. A circularidade exige estudos de viabilidade econômica, modelagem regulatória, avaliação de risco, construção de métricas, estruturação de projetos e conexão entre capital e investimentos sustentáveis. Sem racionalidade econômica, em sentido lato, boa parte dessas iniciativas não ganhará escala.

Não por acaso, o financiamento da economia circular começa a ganhar maior densidade institucional no Brasil. O Corecon-SP participará do Comitê Brasileiro de Financiamento Circular (CBFC), iniciativa voltada justamente à construção de instrumentos capazes de ampliar o financiamento de projetos ligados à circularidade, inovação e competitividade industrial. No fundo, a questão central talvez mais econômica do que muitos ainda imaginam.

A economia circular não representa apenas uma agenda de sustentabilidade. Ela se consolida, cada vez mais, como parte da disputa global por produtividade, inovação, agregação de valor e liderança industrial no século XXI. Por exemplo, é fundamental para os destinos do Brasil conseguir processar os minerais críticos e as terras raras, ao invés de apenas exportá-los in natura. Da mesma maneira, é essencial pensar na circularidade destes e de outros processos para o bem desta e das próximas gerações.

Haroldo da Silva é economista, advogado e presidente do Corecon-SP

Haroldo da Silva
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Ana Borges
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