Por Marx Alexandre Corrêa Gabriel

Estava no 67º andar de um edifício corporativo em Shanghai quando entendi, de forma visceral, o que é escala. Não como conceito. Como realidade física que ocupa o corpo. Lá embaixo, os canais cortavam a cidade em silêncio. Balsas carregadas de mercadorias deslizavam com precisão, uma atrás da outra, como se uma coreografia invisível coordenasse cada movimento. A cidade se estendia até onde a vista alcançava, sem interrupção, sem desordem visível. Vinte e cinco milhões de habitantes. Funcionando.

Há coisas que não cabem em relatório, vídeo ou manchete de jornal. Precisam de presença. De estar lá, olhar para baixo e perceber que aquilo não é uma cidade que cresceu por acumulação. É uma civilização que decidiu para onde queria ir, e foi. Toda vez que alguém tenta explicar a ascensão da China apenas pelos números, pela política industrial ou pela mão de obra barata de décadas passadas, está olhando para os instrumentos e ignorando o maestro.

A China não pode ser compreendida sem Confúcio. Os Analectos tratam de problemas que não envelhecem: caráter, autoridade, legitimidade, disciplina, mérito e responsabilidade diante do coletivo. Para Confúcio, a estabilidade de uma sociedade não nasce de leis ou de recursos. Ela nasce da qualidade moral das lideranças e da coerência entre palavras e práticas.

A meritocracia chinesa não é retórica de discurso corporativo. O coletivo acima do individual não é slogan político. É um princípio organizacional que permite coordenação em escala. O longo prazo como disciplina é talvez a diferença mais difícil de absorver para um executivo ocidental acostumado ao trimestre como horizonte de decisão.

A China não escolheu entre tradição e modernidade. Recombinou os dois. Tradição mais pragmatismo mais tecnologia mais visão de longo prazo. Essa síntese ajuda a explicar por que a velocidade de execução não parece forçada. Parece natural. A cultura é a arquitetura invisível da execução. Quando ela é forte, a estratégia encontra solo. Quando é frágil, até a melhor estratégia se dissolve.

Toda vez que o assunto é China, a conversa no Ocidente rapidamente migra para liberdade de expressão, vigilância digital e sistema político. É uma conversa legítima. Mas é também uma conversa que frequentemente serve como escudo para não fazer a pergunta mais incômoda: o que o governo chinês entrega para seus cidadãos?

A enorme maioria da população chinesa não está organizada em torno da ausência de liberdade de expressão. Está organizada em torno do que o Estado entrega. E o que ele entrega é concreto: educação, segurança, mobilidade, infraestrutura e uma promessa meritocrática que se cumpre na prática.

A pergunta correta não é “a China é livre?”. A pergunta correta é: o que nós estamos entregando para os nossos cidadãos? Em 1995, o Brasil tinha um PIB de US$ 769 bilhões. A China tinha US$ 738 bilhões. O Brasil estava à frente. Trinta anos depois, o Brasil tem um PIB de US$ 2,64 trilhões. A China tem US$ 20,85 trilhões. A China é 7,9 vezes maior. Não é uma diferença de ritmo. É uma diferença de projeto.

No mesmo período, a China tirou 700 milhões de pessoas da pobreza. Esse não é apenas o maior crescimento econômico da história moderna. É a maior transformação social da história humana em tempo de paz. A China não superestimou nem subestimou. Calculou, planejou e executou. Para as empresas, a primeira lição é que velocidade de execução não é uma questão de recursos. É uma questão de cultura e de decisão.

A segunda lição é que planejamento de longo prazo não é incompatível com velocidade. É o que a sustenta. Sem horizonte claro, velocidade é apenas agitação. Com horizonte claro, cada decisão operacional encontra uma direção na qual se encaixar. A terceira lição é que inteligência artificial não é uma iniciativa de TI. É uma decisão estratégica de liderança. A quarta lição, e a mais difícil, é que inovar exige abandonar. O que não cabia no futuro foi deixado para trás. Sem cerimônia e sem nostalgia.

O Brasil e a China tinham PIBs equivalentes em 1995. Trinta anos depois, a China é 7,9 vezes maior. Essa distância não foi produzida por sorte geográfica, por recursos naturais ou por mão de obra barata. Foi produzida por um conjunto de escolhas institucionais, educacionais e estratégicas.

Não estou sugerindo que o Brasil copie o modelo chinês. Mas há escolhas que independem de modelo político: investir em educação de verdade, construir mobilidade urbana que trate o cidadão com dignidade, garantir segurança pública como função básica do Estado, criar ambientes regulatórios que permitam que empresas inovem e planejar além do ciclo eleitoral. Essas não são escolhas ideológicas. São escolhas de gestão.

O Brasil que queremos não será construído por decreto. Será construído por decisão. A decisão de cada um de ser, no seu espaço, o padrão que falta no país inteiro. O conhecimento muda a vida. Mas só quando a decisão de agir vem junto.

Marx Alexandre Corrêa Gabriel

CEO da MB Consultoria há 32 anos, conselheiro de administração certificado pelo IBGC desde 2012, instrutor da MB Executive School e autor de “Direto ao Ponto”. Este artigo foi escrito de Shanghai, China, durante a Missão Ásia 2026.


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Angelita Gonçalves
angelita.goncalves@agenciafr.com.br
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