Em um evento promovido pelo Itaú BBA e pela rede Pague Menos, o presidente da Azul, John Rodgerson, fez uma declaração que parecia anedota. Segundo o próprio, ele é o “maior promotor das canetas emagrecedoras”, pois elas prometem reduzir custos do setor aéreo em tempos de combustível caro. Sua companhia pode economizar três milhões de reais por mês se cada passageiro perder dois quilos. A frase deve circular como curiosidade sobre os efeitos positivos do Mounjaro e suas concorrentes. Examinemos se o comentário diz menos sobre eficiência operacional do que sobre o espírito do nosso tempo.

O peso de uma aeronave depende de variáveis como sua estrutura, combustível e carga; é difícil sustentar que o peso dos passageiros, especificamente, gere mais do que ganhos incrementais de eficiência da aviação. O que parece mais relevante é o número elevado de malas, mochilas e sacolas dentro e fora da cabine. Nesse caso, a inferência do executivo parece menos cálculo e mais reflexo de heurísticas cognitivas chamadas de disponibilidade (julgar pelo que está mais visível no momento), ancoragem (partir para uma avaliação com base em um número chamativo) e otimismo sobre o tamanho do efeito das canetinhas.

Passageiros representam custo ou receita para a aviação civil? Na pandemia, a crise do setor foi descrita pela queda no número de passageiros, nunca pelo peso deles. O desafio sempre foi transportá-los com conforto e segurança, um problema da empresa e não do indivíduo. A economia tradicional nos alerta sobre os perigos de confundir correlação espúria com relação causal. Incluir o peso dos passageiros no modelo de análise de custo do setor é questão polêmica. A solução seria precificar passagens pelo peso corporal? A realidade é mais complexa do que a caricatura sugerida pela frase.

O problema mais delicado, porém, não é epistêmico nem prático. É ético. A obesidade é doença crônica reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS), e nenhum atributo físico deve servir de razão para discriminar ou estigmatizar uma pessoa. As canetas emagrecedoras produzem resultados clínicos importantíssimos para enfrentar a doença multifatorial, mas continuam caras e fora do alcance da maioria. Tratar a promessa de emagrecimento de passageiros como redução de custo é, no mínimo, um deslize de comunicação em torno de um tema complexo de saúde pública.

A frase revela algo mais profundo do que uma piada estatística. Vivemos um tempo em que a busca por desempenho ótimo extravasou os mercados e passou a avaliar todas as facetas da vida das pessoas. Nesse contexto, nossos corpos viraram indicadores de disciplina, coragem e força de vontade. Nick Chater e George Loewenstein descrevem esse padrão no livro It’s on You, em tradução livre, A Culpa É Sua: Como Empresas e Cientistas Comportamentais Nos Convenceram de que Somos Responsáveis pelos Problemas Mais Profundos da Sociedade. Diante de desafios estruturais, como falta de competição, erros regulatórios e dificuldades de ganhos de produtividade na aviação civil brasileira, é tentador deslocar o foco para hábitos individuais: políticas de combate à obesidade e programas de bem-estar baseados em nudges parecem funcionar como cortina de fumaça.

O risco maior está em consolidar um padrão cultural que ignora o fato de que muita gente, com ou sem sobrepeso, já compra canetas falsificadas em busca de uma leveza que nenhum índice de massa corporal ou teste de bioimpedância consegue capturar. Essa outra leveza foi descrita, com mais precisão do que qualquer slide corporativo, pelo escritor italiano Italo Calvino. Em Seis Propostas para o Próximo Milênio, ele evoca o mito de Perseu, que venceu a Górgona (Medusa) sem encará-la diretamente, olhando-a pelo reflexo do escudo. Depois, o herói voou para outro espaço, sustentado pelas sandálias aladas. Para Calvino, leveza não é superficialidade, mas uma forma de olhar o peso do mundo sem se deixar petrificar por ele.

A leveza que mais se persegue hoje é corporal e medida em quilos ou libras. Tudo isso como se a alma fosse aliviada pela balança. O próprio Calvino, páginas depois, lembra de A Insustentável Leveza do Ser, de Milan Kundera, em que surge a constatação amarga de que tudo o que escolhemos pela leveza acaba revelando seu peso verdadeiro. O quilo que desaparece do corpo reaparece em outro lugar: na pressão por padrões físicos, no julgamento de quem não emagrece ou não adere aos padrões de beleza (e sucesso?) esguios do momento, na ilusão de que desempenho máximo, eficiência metabólica e humanidade cabem sempre na mesma planilha.

Transformar o peso dos passageiros em falta de leveza para a aviação é esquecer o que realmente pesa hoje. Talvez não seja o corpo, mas a forma como tratamos a dignidade e a liberdade humanas, a nossa e a dos outros. Essa, sim, é uma leveza fácil e perigosa de se perder.

• Por: Roberta Muramatsu, professora de Ciências Econômicas da Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM).

• Por: Elton Duarte Batalha, professor de Administração da Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM). | *O conteúdo dos artigos assinados não representa necessariamente a opinião do Mackenzie.| A Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM) foi eleita como a melhor instituição de educação privada do Estado de São Paulo em 2025, de acordo com o Ranking Universitário Folha 2025 (RUF). Segundo o ranking QS Latin America & The Caribbean Ranking, o Guia da Faculdade Quero Educação e Estadão, é também reconhecida entre as melhores instituições de ensino da América do Sul. Com mais de 70 anos, a UPM possui três campi no estado de São Paulo, em Higienópolis, Alphaville e Campinas. Os cursos oferecidos pela UPM contemplam Graduação, Pós-Graduação, Mestrado e Doutorado, Extensão, EaD, Cursos In Company e Centro de Línguas Estrangeiras.

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