A logística aérea depende de decisões tomadas em questão de segundos. Uma informação incorreta ou que demora a chegar ao destino pode provocar atrasos, elevar custos operacionais, comprometer o rastreamento de cargas e impactar diretamente a experiência do cliente. Apesar disso, algumas empresas do setor ainda operam com sistemas desenvolvidos há décadas, que funcionam de forma isolada e dificultam a troca de informações entre aeroportos, companhias aéreas, agentes de carga e operadores logísticos.

Para superar esse desafio, a indústria vem acelerando a adoção de arquiteturas abertas baseadas em APIs (Interfaces de Programação de Aplicações), capazes de conectar diferentes plataformas e permitir que dados operacionais circulem em tempo real entre todos os participantes da cadeia logística.

Segundo Gustavo Verza Picolli, especialista em tecnologia aplicada à logística aérea e sócio-diretor financeiro e de TI da Caxias Cargas Aéreas Ltda., o maior obstáculo para a transformação digital do setor não está na falta de tecnologia, mas na dificuldade de integrar sistemas que foram desenvolvidos em épocas, linguagens e padrões diferentes.

“Digitalizar processos é apenas parte da solução. O verdadeiro desafio é fazer com que todos os sistemas envolvidos consigam compartilhar informações de maneira padronizada, segura e em tempo real. Enquanto os dados permanecerem presos em sistemas isolados, a cadeia logística continuará perdendo eficiência”, afirma.

Na prática, um evento simples – como a coleta de uma carga em um centro de distribuição – pode ser registrado em um sistema interno, armazenado em um banco de dados proprietário e transmitido em um formato incompatível com os sistemas utilizados por companhias aéreas, operadores aeroportuários ou transportadoras. Como consequência, a informação precisa passar por diversas conversões e integrações intermediárias, aumentando o tempo de processamento e o risco de inconsistências, e é justamente nesse cenário que as APIs ganham protagonismo.

Ao invés de desenvolver integrações específicas entre cada sistema, as APIs criam uma camada padronizada de comunicação, permitindo que diferentes plataformas compartilhem informações por meio de interfaces abertas e documentadas. “Quando todos utilizam um mesmo padrão de comunicação, eventos como localização da carga, atualizações de status, documentação e ocorrências operacionais podem ser compartilhados praticamente em tempo real entre os participantes autorizados da cadeia logística. Isso reduz retrabalho, aumenta a confiabilidade das informações e melhora a tomada de decisão”, explica Picolli.

Essa transformação tem sido impulsionada pela Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA), que desenvolveu o padrão ONE Record. A iniciativa substitui modelos tradicionais de troca de mensagens por uma arquitetura baseada em APIs e em um modelo comum de dados, permitindo que cada organização acesse informações diretamente na fonte, sem a necessidade de múltiplas retransmissões ou duplicação de registros. Na avaliação do especialista, essa mudança representa um passo importante para reduzir a fragmentação tecnológica que ainda caracteriza a logística aérea mundial. “Quanto menos barreiras existirem para o compartilhamento seguro de informações, maior será a capacidade da cadeia logística de responder rapidamente a imprevistos, reduzir custos operacionais e oferecer mais visibilidade sobre cada etapa do transporte”, diz Picolli.

Mais do que conectar tecnologias, APIs padronizadas permitem conectar decisões, acelerar processos e transformar informações em um ativo estratégico para toda a cadeia logística. No cenário atual, em que eficiência e visibilidade operacional são fatores decisivos para a competitividade, compartilhar dados em tempo real é necessidade para empresas que desejam operar com mais segurança e capacidade de resposta.



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