Em um país que ainda recicla cerca de 4% dos resíduos, cooperativa destaca expansão, inovação ambiental e geração de trabalho para 3.600 associadosEm um país que ainda recicla cerca de 4% dos resíduos, cooperativa destaca expansão, inovação ambiental e geração de trabalho para 3.600 associados
A Cootravipa celebra, neste domingo, 5 de julho, 42 anos de atuação com uma trajetória marcada pela inclusão social através do trabalho, pelo cuidado urbano e pela prestação de serviços essenciais em Porto Alegre. A data ocorre no mesmo mês em que a coleta seletiva da Capital completa 36 anos, reforçando a presença da cooperativa em uma das políticas ambientais mais simbólicas da cidade.
A história ganha relevância diante do cenário nacional. O Brasil gera mais de 80 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos por ano, mas ainda recicla apenas uma pequena parcela desse volume. Levantamentos nacionais com base em dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento indicam que o índice de reciclagem gira em torno de 4%, revelando um dos grandes paradoxos ambientais do país: há geração crescente de resíduos, mas baixo reaproveitamento dos materiais.
Nesse contexto, Porto Alegre ocupa um lugar histórico. A Capital foi uma das cidades pioneiras do Brasil na implantação da coleta seletiva, iniciada em 7 de julho de 1990, no bairro Bom Fim. Mais do que uma pauta ambiental, o modelo nasceu associado à inclusão produtiva e à valorização do trabalho de quem atua diretamente na cadeia da reciclagem.
Há 36 anos, a Cootravipa integra essa trajetória, contribuindo para transformar uma prática ainda incipiente à época em uma política urbana associada à sustentabilidade, à geração de renda e à organização do trabalho. A atuação da cooperativa ajudou a consolidar a coleta seletiva como serviço essencial, conectando cuidado ambiental, operação urbana e impacto social.
Para a presidente da Cootravipa, Imanjara Marques de Paula, a coleta seletiva é uma das expressões mais concretas do propósito da cooperativa. “Quando a Cootravipa começou essa caminhada, a coleta seletiva com atendimento a 100% da residências ainda era um desafio novo para a cidade. Hoje, olhar para esses 36 anos é reconhecer o trabalho de muitas pessoas que ajudaram a transformar resíduos em renda, inclusão e consciência ambiental. Sustentabilidade também se constrói com trabalho, tecnologia e valorização humana”, afirma.
Fundada em 1984 a partir de uma mobilização comunitária das vilas da Zona Sul de Porto Alegre, a Cootravipa transformou uma reivindicação por trabalho e renda em uma organização cooperativa que hoje reúne mais de 3.600 associados. Ao longo de mais de quatro décadas, ampliou sua presença em diferentes frentes de atuação, entre elas limpeza e conservação, jardinagem, manejo verde urbano, apoio a eventos, coleta seletiva e soluções tecnológicas aplicadas à rotina da cidade.
O aniversário também marca um momento de forte expansão institucional. O resultado dos últimos 5 anos da cooperativa registrou crescimento de 109% na receita bruta. No mesmo período, o quadro social cresceu 28%. Para sustentar esse avanço, a Cootravipa destinou R$ 3,28 milhões ao planejamento estratégico de 2025, com investimentos em infraestrutura, tecnologia, frota, melhorias operacionais e capacitação de seu quadro social.
“Nosso crescimento de 109% em receita só faz sentido porque ele é convertido em oportunidade, qualificação e valorização das pessoas. A Cootravipa nasceu da força coletiva e segue mostrando que o trabalho cooperativo é uma ferramenta concreta de inclusão social e de transformação urbana”, destaca Imanjara.
A atuação na coleta seletiva também ganhou investimentos tecnológicos nos últimos anos com o Coleta Tri, aplicativo desenvolvido pela equipe de tecnologia da cooperativa para organizar a logística, monitorar cargas e facilitar a comunicação entre grandes geradores e equipes operacionais. Entre 2021 e 2024, os resultados foram expressivos: mais de 700 estabelecimentos se cadastraram e aumento de 54% no volume de resíduos recicláveis coletados, além do fortalecimento da imagem das cooperativas e dos trabalhadores da triagem.
O aplicativo contribui para qualificar a gestão dos resíduos ao permitir o acompanhamento do fluxo das cargas em tempo real, organizar rotinas e gerar dados para o planejamento da operação. Também fortalece a transparência e a corresponsabilidade entre geradores, equipes de coleta e unidades de triagem, pilares fundamentais para ampliar a eficiência da reciclagem.
“O Coleta Tri mostra que tecnologia e inclusão podem andar juntas. Quando qualificamos a coleta seletiva, estamos falando de meio ambiente, mas também de trabalho, renda, dignidade e reconhecimento para quem faz esse sistema funcionar todos os dias”, afirma a presidente.
O reconhecimento externo reforça a relevância da iniciativa. O Coleta Tri foi um dos projetos vencedores do Prêmio Top Cidadania, da ABRH-RS, pelo impacto social, ambiental e pela inovação aplicada à gestão de resíduos. A iniciativa também dialoga com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, especialmente nas áreas de cidades sustentáveis, produção e consumo responsáveis e inovação.
Apesar da estrutura consolidada em Porto Alegre, os desafios permanecem. O Plano Municipal de Gestão Integrada de Resíduos Sólidos aponta que o índice efetivo de reciclagem da Capital é de 3,2%, considerando 2,1% de resíduos secos e 1,1% de resíduos verdes. O dado evidencia que a infraestrutura de coleta precisa caminhar junto com educação ambiental, separação correta na origem e participação da sociedade.
Para a Cootravipa, esse é justamente o ponto central do próximo ciclo. “A coleta seletiva depende de uma rede. Envolve poder público, cooperativas, trabalhadores, empresas e comunidade. O resíduo só vira oportunidade quando é separado corretamente e quando chega ao destino certo. Por isso, falar dos 42 anos da Cootravipa também é falar de futuro, de consciência coletiva e de uma cidade mais preparada para os seus desafios ambientais”, conclui Imanjara.
Além da frente ambiental, a Cootravipa ampliou investimentos em educação, saúde e valorização dos associados. Em 2025, foram destinados R$ 516,3 mil ao Fundo de Assistência Técnica, Educacional e Social, com 8.824 participações em ações de formação. A rede de apoio aos trabalhadores incluiu 1.281 acolhimentos com assistentes sociais, 976 sessões de atendimento psicológico, 400 consultas por telemedicina, 425 atendimentos odontológicos e 4.857 beneficiados pelo convênio de farmácia.
A projeção de investimentos para 2026 da cooperativa mira um novo ciclo de expansão, com foco em infraestrutura e melhoria contínua. Ao completar 42 anos, a Cootravipa reforça uma trajetória construída por muitas mãos e reafirma seu compromisso com inclusão social, inovação, sustentabilidade e cuidado com Porto Alegre.
Sobre a Cootravipa
Fundada em 5 de julho de 1984, a Cootravipa é uma cooperativa de trabalho com origem no movimento comunitário das vilas de Porto Alegre. Atua na geração de renda, inclusão social e prestação de serviços entre eles o urbano, com frentes em limpeza e conservação, jardinagem, manejo verde urbano, apoio a eventos, coleta seletiva e soluções tecnológicas. A cooperativa reúne mais de 3.600 associados e tem como propósito promover inclusão social por meio do trabalho, da educação e do desenvolvimento humano.
LISIANE MOSSMANN
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