Fundadoras de climatechs mostram como tecnologia, ciência e empreendedorismo estão acelerando a transição para uma economia de baixo carbono

Em um momento em que a crise climática exige respostas cada vez mais rápidas e inovadoras, mulheres brasileiras vêm assumindo um papel estratégico na criação de tecnologias voltadas à descarbonização da economia, ao uso mais eficiente dos recursos naturais e à remoção de carbono da atmosfera. Apesar de ainda enfrentarem barreiras no acesso a investimentos, essas empreendedoras estão à frente de startups que desenvolvem soluções para alguns dos principais desafios da agenda climática.

Dados compilados pela Crunchbase, plataforma global de monitoramento de investimentos em startups, e pelo Distrito, especializado em inteligência de mercado no Brasil, mostram que negócios fundados exclusivamente por mulheres recebem cerca de 3% do volume global de Venture Capital. Ainda assim, fundadoras brasileiras vêm consolidando empresas capazes de transformar pesquisa científica e inovação tecnológica em soluções de impacto para a economia de baixo carbono.

Para ampliar a visibilidade dessas lideranças, o Fórum Brasileiro das Climatechs destaca empreendedoras que vêm desenvolvendo tecnologias em frentes estratégicas para a adaptação e a mitigação das mudanças climáticas, como transição energética, gestão hídrica e remoção de carbono.

“A crise climática exige inovação, e inovação se fortalece quando incorpora diferentes perspectivas. Ampliar a presença de mulheres na liderança de climatechs não é apenas uma questão de representatividade, mas de ampliar a capacidade do Brasil de desenvolver soluções competitivas para um dos maiores desafios da nossa geração. Temos empreendedoras liderando tecnologias de ponta em áreas estratégicas para a economia de baixo carbono, e dar visibilidade a essas histórias também fortalece todo o ecossistema”, afirma Ana Himmelstein Capelhuchnik, diretora executiva do Fórum Brasileiro das Climatechs.

Energia limpa que também melhora o caixa das empresas

À frente da Liora Energia, Renata Feijó aposta na combinação entre transição energética e inovação financeira para acelerar a adoção de fontes renováveis entre pequenas e médias empresas.

A startup atua no que define como “fintechização da energia”, integrando geração distribuída e mercado livre para reduzir estruturalmente os custos com eletricidade e transformar essa economia em produtos financeiros, como crédito com taxas reduzidas, cashback e programas de fidelidade.

Com trajetória construída em empresas como Moip, GuiaBolso e Loft, Renata decidiu empreender em clima ao perceber que a transição energética só ganha escala quando faz sentido também do ponto de vista econômico.

“Descarbonizar precisa ser um bom negócio. O empresário não migra para energia limpa apenas por consciência ambiental; ele faz isso quando a solução melhora sua competitividade e fortalece seu caixa”, afirma.

Segundo a fundadora, um dos maiores desafios para mulheres que empreendem em tecnologia climática continua sendo o acesso a redes de relacionamento e capital. “Credibilidade não se pede, se constrói. Quando mostramos um modelo sólido, a conversa deixa de ser sobre quem está falando e passa a ser sobre o que está sendo dito.”

Inteligência artificial para enfrentar a crise hídrica

Na frente de gestão da água, Marília Lara lidera a Stattus4, startup que utiliza inteligência artificial para monitorar redes de distribuição em tempo real, identificando vazamentos, perdas e falhas operacionais com maior precisão.

Ao permitir que concessionárias atuem de forma preventiva, a tecnologia contribui para reduzir desperdícios, otimizar recursos e ampliar a eficiência dos sistemas de abastecimento, um desafio cada vez mais urgente diante dos efeitos das mudanças climáticas sobre a disponibilidade hídrica.

A empresa conquistou recentemente o Prêmio Zayed de Sustentabilidade 2026 na categoria Água, tornando-se apenas a segunda empresa brasileira da história a receber o reconhecimento, considerado um dos mais importantes do mundo para soluções de impacto ambiental.

“A motivação para fundar a Stattus4 nasceu do propósito de criar um negócio em que o sucesso estivesse diretamente ligado ao impacto positivo no planeta”, afirma Marília. “Nosso maior desafio hoje é contribuir para reduzir a escassez de água por meio da gestão inteligente da distribuição.”

A ciência brasileira na corrida global pela remoção de carbono

Com atuação entre Brasil e Vale do Silício, Julia Sekula lidera a Terradot, empresa dedicada ao desenvolvimento de tecnologias de remoção permanente de carbono por meio do intemperismo acelerado de rochas.

A empresa surgiu a partir de pesquisas desenvolvidas na Universidade Stanford e ganhou projeção internacional após levantar US$ 53 milhões em uma rodada Série A, atraindo investidores como Google e Microsoft para ampliar sua infraestrutura de medição e verificação de carbono.

A proposta da empresa é acelerar uma das tecnologias consideradas mais promissoras para remover CO₂ da atmosfera em larga escala, combinando ciência, agricultura e monitoramento de alta precisão.

Da energia renovável à inteligência artificial aplicada ao saneamento, passando por tecnologias de remoção de carbono, essas fundadoras demonstram que a inovação climática brasileira também está sendo construída por mulheres. Mais do que ampliar a representatividade no empreendedorismo, elas mostram como diversidade, ciência e tecnologia caminham juntas para desenvolver soluções capazes de acelerar a transição para uma economia de baixo carbono.

Sobre o Fórum Brasileiro das Climatechs

O Fórum Brasileiro das Climatechs é uma entidade de classe que representa startups de tecnologia para o clima no Brasil. A organização atua na articulação entre empreendedores, investidores, reguladores e formuladores de políticas públicas, com foco no fortalecimento do ecossistema de inovação climática, no destravamento de capital e na construção de um ambiente regulatório favorável ao desenvolvimento de soluções de impacto.

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