Por Daniel Lima – ECOnomista e Estrategista em Energia, criador do conceito de ECOnomia Estratégica
O Caminho do Brasil para se Tornar uma Potência Mundial em Energia
Daniel Lima
ECOnomista e criador do conceito ECOnomia Estratégica para o Sistema Elétrico
July 18, 2026
Por Daniel Lima – ECOnomista e Estrategista em Energia, criador do conceito de ECOnomia Estratégica
O debate energético global mudou. Já não basta observar a composição da matriz — é preciso entender qual fonte está puxando o crescimento da demanda. Essa distinção, muitas vezes negligenciada, é crucial para definir quem liderará a economia energética do século XXI.
Os dados recentes do Statistical Review of World Energy 2026 mostram que o motor da expansão energética global mudou de forma decisiva. Durante décadas, petróleo, carvão e gás foram os protagonistas do crescimento. A partir de 2016, porém, as renováveis passaram a ocupar o centro da expansão energética mundial, respondendo por cerca de 30% do aumento da oferta total, contra menos de 5% nas duas décadas anteriores.
Essa inflexão revela um ponto essencial: a transição energética avança quando muda não apenas a matriz, mas o motor do crescimento.
E é exatamente aqui que o Brasil precisa se posicionar.
O Brasil já é forte em energia — mas ainda não é uma potência energética global
O país possui uma das matrizes elétricas mais limpas do mundo, com mais de 80% de fontes renováveis. Isso é extraordinário, mas não é suficiente para liderar o futuro energético global.
Por quê?
Porque o Brasil não está puxando o crescimento energético mundial. Ele é um país com matriz limpa, mas não é ainda um país que expande rapidamente sua capacidade energética limpa.
Para se tornar uma potência, o Brasil precisa:
- Aumentar massivamente sua capacidade instalada de renováveis, não apenas manter o que já tem.
- Construir flexibilidade, especialmente armazenamento, para integrar grandes volumes de solar e eólica.
- Transformar energia abundante em vantagem industrial, atraindo indústrias eletrointensivas.
- Exportar energia, seja fisicamente (hidrogênio, amônia, combustíveis sintéticos) ou virtualmente (produtos verdes).
O exemplo da Arábia Saudita ajuda a entender o que está em jogo.
A lição da Arábia Saudita: quando até um gigante do petróleo percebe que o motor mudou
A transformação energética saudita é ainda mais significativa quando lembramos que o país é um dos maiores produtores de petróleo do mundo, com uma economia historicamente estruturada em torno do óleo. Mesmo assim, a Arábia Saudita identificou que o motor do crescimento energético global mudou — e decidiu se reposicionar rapidamente.
Em apenas 11 meses, o país construiu e comissionou a bateria de Bisha, uma das maiores do mundo, com 2,6 GWh. Antes de 2025, praticamente não havia armazenamento em escala de rede no país. Hoje:
- possui quatro das dez maiores baterias do mundo;
- anunciou 12 GWh adicionais em uma única rodada de aquisição;
- planeja 48 GWh de armazenamento até 2030;
- e pretende que 50% da eletricidade venha de renováveis até o fim da década.
A mensagem implícita é poderosa:
Se até um dos maiores produtores de petróleo do planeta está acelerando renováveis e armazenamento, é porque o centro de gravidade da energia mundial está mudando.
A Arábia Saudita entendeu que não basta construir muita energia solar — é preciso construir flexibilidade para usá-la de forma eficaz. E decidiu atacar os dois desafios simultaneamente, com velocidade e escala.
O que o Brasil precisa fazer: mudar o motor do crescimento energético
O Brasil já tem uma matriz limpa. O que falta é crescer rápido, com foco em três pilares:
1. Crescimento acelerado de renováveis (solar, eólica, biomassa e hidrogênio verde)
O país precisa transformar sua vantagem natural em escala industrial.
- A expansão solar é forte, mas insuficiente.
- A eólica offshore ainda não saiu do papel.
- A biomassa tem potencial gigantesco, mas subexplorado.
- O hidrogênio verde é promissor, mas ainda incipiente.
Para ser potência, o Brasil precisa adicionar 10–15 GW de renováveis por ano, de forma contínua.
2. Construir flexibilidade: baterias, hidrelétricas reversíveis e redes inteligentes
O Brasil tem a maior hidrelétrica reversível natural do mundo: o sistema de reservatórios. Mas isso não basta.
O país precisa:
- baterias em escala de rede;
- sistemas híbridos (solar + eólica + armazenamento);
- redes inteligentes para integrar geração distribuída;
- digitalização do sistema elétrico.
Sem flexibilidade, o Brasil não consegue integrar grandes volumes de renováveis — e perde competitividade.
3. Transformar energia limpa em vantagem industrial
Energia barata e limpa é um ativo geopolítico.
O Brasil pode atrair:
- siderurgia verde;
- química verde;
- fertilizantes verdes;
- data centers;
- semicondutores;
- produção de combustíveis sintéticos.
Mas isso só acontece se houver energia abundante e previsível.
4. Exportar energia — direta ou indiretamente
O Brasil pode se tornar:
- um dos maiores produtores de hidrogênio verde do mundo;
- líder em amônia verde;
- exportador de combustíveis sintéticos;
- fornecedor global de produtos industriais de baixo carbono.
A energia brasileira precisa ser produto de exportação, não apenas insumo doméstico.
O ponto decisivo: o Brasil precisa mudar o motor do crescimento
Assim como o mundo mudou quando as renováveis passaram a liderar a expansão energética, o Brasil só se tornará potência quando:
- renováveis forem o centro do crescimento, não apenas da matriz;
- armazenamento for tratado como infraestrutura estratégica;
- energia limpa for usada para reindustrializar o país;
- o país competir globalmente em escala, velocidade e ambição.
O Brasil tem tudo para ser uma potência energética. O que falta é decisão estratégica, como a Arábia Saudita tomou.
Potência energética não é quem tem matriz limpa — é quem lidera o crescimento
O Brasil já fez a parte difícil: construiu uma matriz limpa. Agora precisa fazer a parte decisiva: crescer rápido, com foco em renováveis e flexibilidade.
Se o país quiser ocupar o centro da economia energética global, precisa:
- acelerar investimentos;
- construir armazenamento em escala;
- integrar renováveis com inteligência;
- transformar energia em indústria;
- exportar energia limpa ao mundo.
O caminho está claro. A oportunidade é gigantesca. E o momento é agora.
Daniel Lima, criador do conceito de ECOnomia Estratégica
Economista com mais de 40 anos de trajetória, Daniel viu o Brasil se reinventar inúmeras vezes — e, em cada reinvenção, encontrou na energia o fio condutor que separa estagnação de progresso. Caminhou por governos, empresas, comunidades e territórios onde a economia real pulsa, aprendendo que desenvolvimento não nasce de discursos, mas de motores.
Foi testemunha da era em que o petróleo moldava destinos, e protagonista da virada que colocou as renováveis no centro da estratégia global. Liderou projetos que mudaram cidades, conectou tecnologia a propósito, e transformou desafios regionais em oportunidades nacionais.
Hoje, é uma das vozes mais influentes da economia verde no Brasil. Participando da ANESOLAR (como Presidente da Associação Nordestina de Energia Solar) e da ARMAZENE Vice-presidente da Associação Brasileira de Armazenamento de Energia), atua onde o futuro está sendo escrito: na convergência entre energia, soberania e competitividade. Sua visão une décadas de experiência com a convicção de que o país só encontrará seu lugar no mundo quando dominar o motor que move economias.
Escreve porque acredita que ideias são centelhas — e que, quando acendem, iluminam caminhos inteiros.
