Daniel Lima

Daniel Lima

ECOnomista e criador do conceito Economia Estratégica para o Sistema Elétrico

Por Daniel Lima – ECOnomista e criador do conceito de Economia Estratégica para o Setor Elétrico

O Brasil possui uma das matrizes elétricas mais limpas do mundo e um potencial renovável capaz de sustentar a economia digital, a reindustrialização verde e novos setores produtivos intensivos em energia. Apesar disso, empresas e investidores convivem com custos crescentes, infraestrutura de ineficiente, instabilidade regulatória, volatilidade de preços e perda de competitividade. Sem energia competitiva, o país não apenas deixa de atrair novos empreendimentos, como compromete a capacidade produtiva já instalada.

Energia competitiva como base da nova economia

A energia elétrica tornou-se o principal fator de competitividade da economia moderna. Cadeias produtivas estratégicas — como data centers de inteligência artificial, computação em nuvem, hidrogênio de baixo carbono, mineração sustentável, fertilizantes verdes, indústria química e eletromobilidade — dependem de acesso a energia renovável, confiável e com o menor custo previsível.

Hoje, a energia define:

O setor elétrico deixou de ser apenas infraestrutura: tornou-se indutor de novos negócios.

Custos crescentes e volatilidade: o risco à competitividade

Entre 2024 e 2026, os contratos trimestrais do mercado livre subiram de R$ 143/MWh para R$ 317/MWh — alta de 121%, muito acima da inflação oficial. Em cenários de hidrologia adversa, projeções indicam valores próximos de R$ 1.000/MWh, patamar de acionamento intenso de térmicas.

A volatilidade também aumentou. Oscilações que antes eram de R$ 60 a R$ 70/MWh passaram a superar R$ 200/MWh em curtos intervalos, dificultando o planejamento financeiro de consumidores eletrointensivos.

No curto prazo, o PLD mostra outro desafio: a diferença entre o preço do período solar (10h–15h) e o da ponta (17h–21h) mais que dobrou. No Nordeste, o preço da ponta chegou a ser 2,24 vezes maior que o do período diurno. Isso evidencia a necessidade de sinais horários mais eficientes, mecanismos de flexibilidade e integração entre oferta e demanda.

Encargos, CDE e ERCAP: quando o custo sistêmico se torna barreira

A Conta de Desenvolvimento Energético (CDE) cresceu de R$ 23 bilhões em 2022 para mais de R$ 52 bilhões em 2026 — alta de 129%. Mesmo com o teto aprovado pelo Congresso, a base de custos permanece elevada.

Além disso, novos encargos associados à segurança e operação do sistema, como o ERCAP (reserva de capacidade), ampliam a complexidade regulatória. O ERCAP, hoje na casa dos bilhões anuais, pode chegar a quase R$ 48 bilhões na próxima década se não houver revisão integrada.

O consumidor paga não apenas pela energia, mas por uma soma de encargos que muitas vezes não são transparentes nem avaliados quanto à eficiência econômica.

Transferir despesas que deveriam ser contempladas no orçamento da união para o consumidor pagar via conta de energia está sendo um certeiro tiro no pé.

Curtailment: desperdício de energia limpa e aumento de custos

Em 2025, o Brasil deixou de aproveitar quase 20% da energia eólica e solar disponível, gerando prejuízo de R$ 6 bilhões. Em 2026, o impacto financeiro triplicou em relação ao ano anterior.

O país desperdiça energia renovável ao mesmo tempo em que enfrenta preços elevados e acionamento de térmicas. Isso mostra que o desafio não é apenas ampliar a oferta, mas organizar melhor o funcionamento do sistema elétrico.

A expansão renovável precisa ser acompanhada por:

Quando isso não acontece, os custos são incorporados nas tarifas de energia.

Nordeste: o novo hub digital e energético do Brasil

O Nordeste reúne condições únicas para se tornar um dos maiores polos energéticos e digitais do mundo. A região combina:

Com energia renovável abundante e confiável, o Nordeste pode ser:

Mas isso depende de vontade política, competitividade energética, estabilidade regulatória e infraestrutura adequada.

A inflação invisível da energia

Enquanto o IPCA avança poucos pontos percentuais ao ano, tarifas de energia sobem 10%, 15% ou 20%. Como energia pesa apenas cerca de 4% no IPCA, essa pressão não aparece nos indicadores oficiais — mas aparece no bolso das famílias e no caixa das empresas.

Essa inflação invisível:

É um problema estrutural, não conjuntural.

Encarar a MMGD como vetor econômico e sistêmico

A Micro e Minigeração Distribuída (MMGD), que em julho de 2026 conta com 53,3 GW de potência instalada por todo o Brasil — segunda maior fonte da Matriz, é frequentemente analisada apenas pelo impacto na CDE. Mas seus benefícios sistêmicos são muito maiores:

Impactos na Conta de Desenvolvimento Energético (CDE)

Impactos no setor elétrico e na economia

Armazenamento (BESS): a chave para se alcançar a energia competitiva

Sem armazenamento, a energia solar e eólica são subutilizadas. Com armazenamento, tornam-se vetor completo de flexibilidade que se traduz diretamente em competitividade.

Com 53 GW de geração distribuída já instalados, com armazenamento de energia e em curtíssimo prazo, o país poderia absorver grandes volumes de excedentes solares durante o dia e liberar essa energia à noite, reduzindo vertimentos, diminuindo acionamento térmico, oferecendo serviços ancilares essenciais e barateando o custo da energia.

Países como Alemanha, Austrália e Estados Unidos já tratam o armazenamento como infraestrutura crítica e estratégica há anos, com incentivos e programas de Virtual Power Plants.

Enquanto esses países avançaram rapidamente, o Brasil, depois de anos de atraso,  finalmente se prepara para entrar no jogo global do armazenamento, reconhecendo que baterias são essenciais para lidar com a variabilidade das fontes não despacháveis e para reduzir a dependência de térmicas caras.

O marco mais importante dessa virada é a realização do primeiro leilão de armazenamento em baterias (BESS), um movimento histórico que coloca o país na rota das nações que já tratam o armazenamento como ativo estratégico. Esse leilão inaugura uma nova fase: pela primeira vez, o armazenamento será contratado como recurso de sistema, capaz de suavizar rampas, reduzir custos operativos, aumentar a confiabilidade e preparar o SIN para uma economia intensiva em energia limpa.

O país começa, enfim, a adotar o remédio que ignorou por anos — e que pode transformar flexibilidade em vetor de estabilidade, competitividade e desenvolvimento econômico.

Uma Agenda Nacional de Competitividade Energética

O Brasil precisa de uma agenda coordenada que envolva governo, Congresso, reguladores, setor produtivo e sociedade. Essa agenda deve incluir:

Economia Estratégica da Energia: o conceito que organiza o futuro do setor elétrico

A Economia Estratégica da Energia, conceito que desenvolvi ao longo de anos de pesquisa e atuação no setor elétrico, parte de uma premissa simples e decisiva: energia não é apenas insumo — é poder econômico. Em um mundo digital, eletrificado e orientado por dados, a energia passa a determinar a geografia produtiva, a competitividade industrial, a capacidade de inovação e o posicionamento internacional dos países.

É uma mudança de paradigma: o setor elétrico deixa de ser tratado como tema tarifário ou regulatório e passa a ser entendido como poder econômico que define a competitividade e o futuro produtivo do Brasil.

Esse conceito se apoia em cinco pilares:

1. Energia como vantagem competitiva sistêmica

Países que oferecem energia limpa, barata e confiável atraem indústrias eletrointensivas, hubs digitais, cadeias de hidrogênio verde e investimentos de longo prazo. Energia competitiva se torna equivalente ao que, no século XX, foram portos, ferrovias e grandes centros urbanos.

2. Integração entre política energética, industrial e climática

A Economia Estratégica rompe a fragmentação institucional. Energia deixa de ser tratada como tema setorial e passa a orientar políticas industriais, tecnológicas, de inovação, comércio exterior e desenvolvimento regional.

3. Eficiência sistêmica como critério central

Não basta expandir geração. É preciso reduzir desperdícios, otimizar operação, integrar armazenamento, modernizar transmissão, incentivar resposta da demanda e revisar encargos com base em eficiência econômica — não em decisões isoladas.

4. Flexibilidade como infraestrutura crítica

Sistemas elétricos modernos dependem de flexibilidade para integrar renováveis, reduzir custos e garantir confiabilidade. Armazenamento, serviços ancilares, gestão de carga e digitalização deixam de ser acessórios e passam a ser pilares da competitividade.

5. Energia como instrumento de reindustrialização e inclusão produtiva

A Economia Estratégica reconhece que energia competitiva é condição para gerar empregos qualificados, atrair investimentos, desenvolver regiões e criar cadeias produtivas — especialmente no Nordeste, que reúne potencial renovável único no mundo.

Por que a Economia Estratégica é essencial para o Brasil agora

O Brasil vive uma contradição: possui a matriz mais renovável entre grandes economias, mas enfrenta custos crescentes, encargos explosivos, desperdício de energia limpa e volatilidade que afasta investimentos.

A Economia Estratégica oferece o enquadramento necessário para transformar esse potencial em desenvolvimento real. Ela permite:

Sem essa visão estratégica, o país continuará desperdiçando energia, oportunidades e competitividade.

Com ela, o Brasil pode liderar a economia do século XXI.

Sobre o autor

Daniel Lima é ECOnomista com mais de 40 anos de experiência no setor público, privado e no terceiro setor. Ao longo de sua trajetória, atuou em áreas estratégicas da economia, da energia e do desenvolvimento regional, exercendo funções como secretário de Estado, coordenador de programas regionais e membro de conselhos dedicados ao desenvolvimento sustentável e à inovação econômica.

Reconhecido pela visão sistêmica e pela capacidade de integrar energia, economia e política pública, Daniel é o criador do conceito de Economia Estratégica da Energia, que redefine o papel do setor elétrico como fonte de poder econômico e vetor estruturante de competitividade nacional.

Empreendedor e inovador, é fundador de diversas startups, entre elas a Agrosolar Investimentos Sustentáveis, referência em soluções de energia limpa, geração distribuída e projetos de impacto socioeconômico.

Além da atuação técnica, Daniel é um palestrante apaixonado, conhecido por transformar temas complexos em narrativas acessíveis, inspiradoras e conectadas à realidade das pessoas e das regiões brasileiras.

Fora do ambiente profissional, carrega com orgulho sua trajetória familiar: pai de quatro filhos e avô de oito netos, valores que reforçam sua visão de futuro e seu compromisso com um Brasil mais competitivo, sustentável e socialmente inclusivo.

https://www.linkedin.com/pulse/energia-competitiva-o-poder-econ%C3%B4mico-do-brasil-daniel-lima-fxi8f

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