A expansão da geração solar mudou a dinâmica do sistema elétrico brasileiro. Durante o dia, a oferta de energia renovável cresce significativamente. No início da noite, porém, a produção fotovoltaica diminui rapidamente, enquanto o consumo permanece elevado. Esse descompasso aumenta a necessidade de acionar fontes de geração mais caras e reforça a importância de mecanismos capazes de equilibrar oferta e demanda de forma mais eficiente.
A tarifa horária é um desses mecanismos. Nesse modelo, são estabelecidos preços diferentes para períodos previamente definidos ao longo do dia. Com isso, consumidores passam a ter incentivos econômicos para deslocar parte do consumo para os horários de maior oferta e menor custo. Equipamentos industriais, sistemas de climatização, refrigeração, veículos elétricos e baterias, por exemplo, podem ser programados para operar nos períodos mais favoráveis, reduzindo despesas e contribuindo para uma operação mais equilibrada da rede.
Essa lógica já faz parte da realidade de diversos países. Experiências internacionais mostram que consumidores que conseguem adaptar seu perfil de consumo aos sinais de preço podem obter economias próximas de 10%. Os benefícios não se limitam à redução da conta de energia. A redistribuição da demanda também reduz a pressão sobre o sistema elétrico, melhora o aproveitamento das fontes renováveis e diminui a necessidade de investimentos em expansão da infraestrutura.
No Brasil, a sinalização horária já existe, apesar de em um estágio menos avançado do que nos locais onde a regulação está mais avançada, como é o caso do Reino Unido, Austrália e Texas. Existe atualmente a Tarifa Branca com três faixas de preço nos dias úteis para os clientes de baixa tensão, que possui uma adesão baixíssima, , e as modalidades Verde e Azul para os clientes do grupo A,. O tema ganhou novo impulso com a Consulta Pública nº 46/2025 da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), que discute a criação de uma nova tarifa horária para consumidores de baixa tensão com consumo mensal igual ou superior a 1.000 kWh. A proposta ainda está em avaliação, mas demonstra que a flexibilidade do consumo passou a ocupar um espaço relevante na agenda regulatória do setor elétrico.
A implementação desse modelo, no entanto, depende de uma infraestrutura capaz de fornecer informações precisas aos consumidores. A expansão dos medidores inteligentes, o acesso a dados intervalares e plataformas que permitam visualizar a curva de carga serão essenciais para que as decisões de consumo acompanhem os sinais de preço e as condições do sistema.
Nesse processo, o armazenamento de energia também assume um papel estratégico. Os sistemas BESS permitem armazenar eletricidade durante os períodos de maior oferta e utilizá-la quando a demanda aumenta ou quando os preços são mais elevados. Além de ampliar a flexibilidade operacional, essa tecnologia favorece a integração das fontes renováveis, reduz perdas e fortalece a confiabilidade da rede elétrica. Seu avanço no Brasil, contudo, ainda depende de um ambiente regulatório que reconheça as diferentes receitas que esses ativos podem oferecer, como arbitragem de preços, capacidade e serviços ao sistema.
A evolução do setor elétrico brasileiro passa pela combinação dessas soluções. Tarifa horária, medição inteligente e armazenamento atendem a funções distintas, mas se complementam ao criar um ambiente mais eficiente para consumidores, distribuidoras e operadores do sistema.
O país reúne condições favoráveis para acelerar essa transformação. O avanço regulatório, a incorporação de novas tecnologias e uma participação cada vez mais ativa dos consumidores serão determinantes para consolidar esse modelo. Quanto antes esses elementos evoluírem de forma coordenada, maiores serão os benefícios para a eficiência do sistema elétrico, para a competitividade da economia e para a expansão sustentável das fontes renováveis no Brasil.
• Por: Vanessa Huback, head de Inteligência de Mercado na TYR Energia. Formada em Ciências Econômicas (IE/UFRJ), com mestrado em Planejamento Energético (Coppe/UFRJ) e doutorado em Políticas Públicas (PPED/UFRJ).
