O agravamento das tensões no Oriente Médio voltou a preocupar o setor de exportação do agronegócio brasileiro. As ameaças à navegação nos estreitos de Ormuz e Bab el-Mandeb, que corredores estratégicos para o comércio internacional, podem comprometer o envio de produtos agropecuários à região e aumentar significativamente os custos logísticos.
Os reflexos já começaram a aparecer. Um navio carregado com soja brasileira precisou interromper sua viagem enquanto aguardava definições sobre a situação geopolítica. Ao mesmo tempo, frigoríficos e exportadores intensificam estudos para utilizar rotas alternativas.
Rotas tradicionais perdem espaço diante dos riscos
Nos últimos meses, empresas brasileiras passaram a reduzir a dependência do Estreito de Ormuz, afetado pelas tensões entre Irã, Estados Unidos e Israel, utilizando o Estreito de Bab el-Mandeb como alternativa para abastecer países como a Arábia Saudita.
Agora, porém, essa opção também enfrenta riscos após ameaças dos houthis, grupo do Iêmen aliado ao Irã, contra embarcações que cruzam a região.
Segundo representantes do setor, a situação está sendo monitorada diariamente para evitar interrupções no abastecimento dos principais mercados compradores.
Portos alternativos ganham importância
Para minimizar os impactos, exportadores brasileiros estudam ampliar o uso de portos considerados mais seguros.
Entre as alternativas estão:
- Salalah e Sohar, em Omã;
- Khorfakkan, nos Emirados Árabes Unidos;
- Jeddah e King Abdullah, na Arábia Saudita, acessados pelo Canal de Suez.
Após o desembarque, parte das cargas segue por rodovias até os países de destino.
Frigoríficos já adaptaram parte da logística
Empresas do setor de proteína animal vêm ajustando suas operações desde o início da crise. A Aurora, uma das maiores exportadoras brasileiras de carne de frango, passou a priorizar desembarques em portos sauditas e também utiliza estruturas em Omã e nos Emirados Árabes.
Apesar de o Estreito de Bab el-Mandeb ainda permanecer aberto, o setor avalia que um eventual bloqueio provocaria forte sobrecarga nos portos alternativos, muitos deles já operando próximos do limite de capacidade.
Tempo de transporte dobrou e frete ficou mais caro
Os impactos logísticos já são sentidos pelas empresas. Em alguns casos, contêineres de frango brasileiro destinados ao Oriente Médio passaram a levar cerca de 80 dias para chegar ao destino, mais que o dobro do tempo registrado antes da escalada dos conflitos.
Além dos atrasos, o custo logístico chegou a triplicar em determinadas operações. Há relatos de navios que não conseguem descarregar em alguns portos devido à lotação e precisam seguir para outros terminais, aumentando ainda mais o tempo de viagem.
Frete marítimo pode subir até 40%
Especialistas alertam que, caso a instabilidade aumente, o impacto poderá atingir todo o comércio internacional.
As projeções indicam que o frete marítimo entre Europa e Ásia pode registrar alta de 30% a 40%, além de um acréscimo de até 19 dias nas viagens. Para embarques destinados à Arábia Saudita, o aumento dos custos pode variar entre 10% e 20%.
Outro fator que pressiona os preços é o crescimento dos custos com seguros marítimos e combustíveis, consequência direta da insegurança na região.
Carnes e produtos perecíveis estão entre os mais afetados
Os embarques de carne bovina e carne de frango exigem atenção especial, já que produtos refrigerados ou congelados não suportam grandes atrasos sem riscos à qualidade.
Embora o aumento do frete normalmente seja absorvido pelos importadores, especialistas destacam que produtos agropecuários possuem baixo valor agregado por tonelada. Assim, qualquer elevação nos custos reduz a margem das operações e pode afetar a competitividade e a demanda.
Outras cadeias do agro também enfrentam impactos
Os efeitos da crise não se limitam às proteínas animais e aos grãos. O setor de algodão também precisará rever sua logística internacional.
Rotas que utilizavam o Mar Vermelho para abastecer mercados como Paquistão e Bangladesh tendem a ser substituídas por trajetos mais longos, contornando o sul da África, o que amplia custos e tempo de transporte.
FONTE; Globo Rural
TEXTO: Redação
IMAGEM: Reprodução/Globo Rural
