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Camila Doretto

Entenda como a crise climática, agravada por fenômenos como o El Niño, encarece o custo de vida e por que preparar as cidades custa menos do que reconstruí-las

© Greenpeace / Nigel Marple

Se fechar as contas no fim do mês virou um malabarismo diário, você não está sozinho nessa. A crise climática encarece as compras, dispara a conta de luz e ameaça a nossa rotina.

Ir ao supermercado e se assustar com o preço do tomate, do café ou do feijão, ver a conta de energia subir com a bandeira vermelha ou perder horas no trânsito por causa de um temporal inesperado. Se você vive em uma cidade brasileira, esses problemas já fazem parte do seu dia a dia.

As enchentes, ondas de calor e secas que acontecem com maior frequência e intensidade impactam a produção e o transporte de alimentos, a água disponível para abastecer as cidades, a saúde e a geração de energia.

Em 2015, o Greenpeace realizou uma expedição às principais fontes de água superficial da região Sudeste do Brasil, onde milhões de pessoas foram ameaçadas pela escassez de água desde 2014. Drones registraram imagens dos principais reservatórios da região: o reservatório de Paraibuna (sistema de abastecimento do rio Paraíba do Sul), o reservatório de Jacareí (Sistema Cantareira) e o reservatório de Serra Azul (sistema de abastecimento do rio Paraopeba).© Greenpeace

Um imposto (quase) invisível

Quando uma seca severa esvazia o reservatório das hidrelétricas, são acionadas as termelétricas, mais caras e também mais poluentes. Ao mesmo tempo, o excesso de chuva ou calor extremo impactam a produção no campo, principalmente de hortaliças, grãos e frutas. Com menos produtos disponíveis no mercado, os preços disparam. 

Além disso, a infraestrutura urbana e as rotas de transporte sofrem diretamente com esses extremos, encarecendo toda a cadeia logística. Estradas bloqueadas por deslizamentos ou ferrovias interrompidas por inundações atrasam as entregas e elevam o custo do frete e dos combustíveis, um valor que as distribuidoras repassam para o preço final das mercadorias que chegam até você. 

No fim das contas, cada evento climático extremo funciona como um imposto invisível, cobrando uma taxa extra sobre tudo o que consumimos.


Arroz com feijão, o prato sempre presente nas mesas brasileiras.© Caio Paganotti / Greenpeace

Como o El Niño pode pesar no seu bolso

A conta pode ficar ainda mais alta com a previsão de um El Niño de forte intensidade. O fenômeno altera o regime de chuvas e temperaturas em diferentes regiões do Brasil, aumentando o risco de enchentes no Sul e de secas e calor extremo no Centro-Oeste, Norte e Nordeste.

Segundo especialistas reunidos pelo Observatório do Crédito e Seguro Rural da FGV, um El Niño intenso pode afetar as safras de 2026 e 2027, comprometendo culturas como feijão, trigo, milho, soja, frutas e hortaliças. Com excesso ou falta de chuva, aumentam as perdas nas lavouras, a incidência de doenças e as dificuldades para plantar e colher, reduzindo a oferta de alimentos e pressionando os preços.

Mas o impacto não para na porteira da fazenda. Chuvas intensas podem interromper rodovias e ferrovias, enquanto secas severas reduzem o nível dos rios usados para o transporte de cargas e dificultam a irrigação das lavouras. Com a produção prejudicada e a logística mais cara e lenta, aumentam os custos para produzir, transportar e distribuir alimentos. No final da cadeia, essa conta chega ao supermercado e pesa no orçamento de milhões de famílias brasileiras.

Enchente no município de Canoas, no Rio Grande do Sul, em 2024.© Tuane Fernandes / Greenpeace

O impacto real: do supermercado ao mercado de trabalho

Uma pesquisa realizada em Porto Alegre pelos Cartórios de Protesto do Rio Grande do Sul, após a tragédia de 2024, revelou o impacto econômico das enchentes na vida da população:

Ninguém quer estar constantemente no “modo sobrevivência”, equilibrando contas e torcendo para o tempo não virar. Toda pessoa tem o direito de viver com dignidade, segurança e tranquilidade, com condições para construir e planejar o seu futuro.

Enchente no município de Canoas, no Rio Grande do Sul, em 2024.© Tuane Fernandes / Greenpeace

É melhor prevenir do que remediar

Apesar do ditado popular, a gestão pública no Brasil tem feito exatamente o contrário quando o assunto é clima. 

Nos últimos dez anos, o Brasil gastou mais de R$ 11 bilhões remediando estragos e gerenciando crises após desastres climáticos. Enquanto isso, apenas R$ 4 bilhões foram investidos em prevenção e adaptação urbana no mesmo período. (Fonte: TCU , via CNN Brasil, maio de 2024)

Gastamos quase três vezes mais apagando incêndios do que investindo em evitá-los. O problema não é a falta de dados científicos ou de avisos, mas a escolha política de pagar uma conta astronômica depois, em vez de blindar nossas cidades antes que o pior aconteça.


Em uma das regiões mais afetadas pela falta de saneamento básico no país, o Coletivo Utopia Negra se uniu à comunidade da Vila do Carmo do Maruanum, na área rural de Macapá (AP), para instalar uma Fossa Séptica Biodigestora (FSB). A tecnologia, de baixo custo e adaptável para áreas alagáveis, trata o esgoto por biodigestão e evita a contaminação do solo e da água, promovendo melhorias diretas na saúde e na qualidade de vida local.© Marlon Vieira / Greenpeace

A transformação que já começou

A boa notícia é que muitas soluções já existem. Em bairros, comunidades e territórios historicamente marginalizados, as pessoas não estão esperando a mudança acontecer. Coletivos, redes de solidariedade e lideranças locais já criam soluções práticas e de baixo custo que geram resiliência e economia. 

Conheça algumas iniciativas e histórias inspiradoras de quem está transformando outros bairros e territórios:

Esses projetos provam que a tecnologia e o conhecimento para adaptar nossas cidades já existem. O que falta é transformar essas ações locais em políticas públicas de grande escala.

Atividade realizada no Morro dos Macacos, zona sul da cidade de São Paulo (SP), para o Dia Mundial da Habitação, em outubro de 2023.© Diego Baravelli / Greenpeace

O futuro da sua cidade custa menos se começarmos agora 

Mudar a realidade exige um esforço coletivo. Precisamos juntar nossas vozes e cobrar que quem está no poder construa soluções junto com a população e destine recursos para políticas públicas que protejam nossa saúde, reduzam o custo de vida e valorizem o lugar onde moramos e trabalhamos. Afinal, preparar as cidades agora custa muito menos do que reconstruí-las depois.

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