Por: Matheus de Paula

Com potencial para atrair R$ 57 bilhões em investimentos até 2035, somente no segmento de  armazenamento, país precisa avançar no processamento de minerais críticos e na fabricação de tecnologias para a transição energética

Perfurar um poço a mais de 5 mil metros de profundidade, atravessando uma camada de sal que se movimenta e se deforma sob pressão, era considerado inviável pela indústria mundial de petróleo até o início dos anos 2000. Após mais de uma década de desenvolvimento tecnológico, a Petrobras transformou esse desafio em realidade e hoje o pré-sal responde por mais de 80% da produção nacional de petróleo, que atingiu média de 3,7 milhões de barris por dia em 2025  – número  que posiciona o Brasil entre os dez maiores produtores do mundo.

Duas décadas depois, outro desafio industrial e tecnológico começa a definir o papel do Brasil na transição energética global. Desta vez, o protagonista são os minerais raros, um grupo de 17 elementos químicos essenciais para a fabricação de veículos elétricos, turbinas eólicas, equipamentos eletrônicos e sistemas de armazenamento de energia. Embora o Brasil detenha a segunda maior reserva mundial desses minerais, atrás apenas da China, o país ainda enfrenta gargalos estratégicos relacionados à mineração das chamadas “terras raras”. Assim como outras nações, o país enfrenta o desafio de transformar esse potencial geológico em capacidade industrial para processar, refinar e agregar valor aos materiais que abastecem a cadeia global de produtos e soluções tecnológicas exclusivas de um mercado altamente disputado no planeta: a produção de semicondutores, baterias, smartphones, computadores, servidores, chips, smartwatches e equipamentos de telecomunicações.

A corrida pelas terras raras (neodímio, disprósio, térbio, lítio, cobalto, grafite, tântalo, nióbio e tungstênio) coincide com a abertura de um novo mercado para o setor elétrico brasileiro. Em junho deste ano, o Ministério de Minas e Energia (MME) publicou as diretrizes para a realização dos primeiros Leilões de Reserva de Capacidade (LRCap) voltados aos sistemas de armazenamento em baterias (BESS), previstos para dezembro de 2026. A iniciativa, somada aos avanços regulatórios conduzidos pela Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), inaugura um novo mercado no país e deverá impulsionar investimentos bilionários na próxima década.

Segundo estudo da Deloitte, os sistemas de armazenamento em baterias poderão atrair mais de R$ 57 bilhões em investimentos até 2035. Mais do que ampliar a capacidade de armazenamento do Sistema Interligado Nacional (SIN), a expectativa é que a regulamentação e a continuidade dos leilões estimulem a formação de uma cadeia produtiva nacional, reduzindo a dependência de equipamentos importados e criando condições para que o Brasil avance também na fabricação de baterias e no processamento de minerais críticos.

Para Jovanio Santos, diretor de Strategy & Transactions para os setores de Power & Utilities da Deloitte, a previsibilidade regulatória proporcionada pelos leilões é o principal fator capaz de destravar investimentos industriais e atrair fabricantes para o país.

“O que eu queria destacar é que a sinalização que o governo traz, com a contratação regulada desse tipo de tecnologia no Brasil, pode ter um efeito real no mercado nacional, por exemplo, permitir o aumento da capacidade produtiva de fabricação de baterias no país. Isso vai fazer com que a cadeia de suprimentos comece a se desenvolver naturalmente, o que ajuda a reduzir o custo de um eventual produto nacional em comparação com equipamentos importados das grandes potências que conhecemos hoje, como a China”, diz Jovanio.

Segundo o executivo, a continuidade dos leilões e a manutenção de mecanismos que incentivem o conteúdo nacional são fatores considerados essenciais para dar segurança aos investidores e estimular a instalação de fabricantes no país.

“A continuidade dos leilões daqui para frente, incorporando essa exigência de conteúdo nacional, é importante para que investidores locais e empresas estrangeiras que queiram se estabelecer no Brasil tenham uma visão de futuro. Começamos bem, com um leilão que já contempla um produto voltado a conteúdo nacional, para depois dar a sinalização de investimentos necessária a consolidar uma indústria nacional de baterias competitiva para os leilões futuros”, afirma o diretor da Deloitte. 

Jovanio Santos, diretor de Strategy & Transactions para os setores de Power & Utilities da Deloitte | Foto: Deloitte

Reservas abundantes x cadeia produtiva limitada

A possibilidade de estruturar uma indústria nacional de baterias, no entanto, esbarra em um desafio que antecede a própria fabricação dos equipamentos: o desenvolvimento da cadeia de minerais críticos. Para Caiubi Kuhn, presidente da Federação Brasileira de Geólogos (Febrageo), a posição ocupada pelo Brasil no ranking mundial de reservas representa apenas os recursos já identificados e comprovados por estudos geológicos. O potencial do território brasileiro, segundo ele, pode ser ainda maior.

“Se olharmos o cenário atual do mapeamento geológico brasileiro, falando de terras raras especificamente, ainda temos muito a evoluir. Muitas áreas ainda não estão devidamente mapeadas e estudadas. Isso significa que existe a possibilidade de, no futuro, o Brasil se transformar no principal país do mundo em reservas de terras raras, ou de outros recursos importantes para a transição energética. A quantidade de depósitos e de reservas que o país possui pode ser ampliada, à medida que as pesquisas avancem e os mapeamentos sejam realizados”, afirma Caiubi. 

Para isso, defende o geólogo, o país precisa avançar no mapeamento geológico nacional. Atualmente, Minas Gerais é o único estado mapeado na escala 1:100.000, considerada adequada para identificar depósitos minerais com maior precisão. Em contrapartida, grande parte da Amazônia Legal e outras regiões estratégicas do país, ainda possuem levantamentos em escalas muito inferiores e menos detalhadas.

“Conforme esse mapeamento avançar, podemos ter novas descobertas. O maior contraste é justamente entre a região da Amazônia Legal e o estado de Minas Gerais, mas há outros estados no meio-termo que também precisam avançar no mapeamento”, explica.

No entanto, segundo o geólogo, ampliar o conhecimento sobre o subsolo brasileiro é apenas parte da equação. O maior desafio está em desenvolver uma cadeia produtiva capaz de agregar valor aos minerais extraídos, reduzindo a dependência do processamento realizado no exterior.

Essa avaliação é compartilhada pelas empresas que atuam no desenvolvimento de projetos de terras raras no país. Para Klaus Petersen, Country Manager e Diretor-Executivo da Viridis Mining & Minerals, responsável pelo Projeto Colossus, em Poços de Caldas (MG), a mineração representa apenas o primeiro elo de uma cadeia produtiva muito mais ampla, que envolve beneficiamento químico, separação dos óxidos, refino e, posteriormente, a fabricação de componentes de alto valor agregado.

Segundo o executivo, o Brasil ainda precisa avançar significativamente nessa estrutura industrial, para aproveitar plenamente o potencial de suas reservas. “Atualmente, o Brasil ainda não conta com uma cadeia industrial capaz de realizar as etapas posteriores de processamento desse material. A expectativa é que o desenvolvimento dessa capacidade leve pelo menos uma década”.

Na tentativa de reduzir essa lacuna, a Viridis negocia a implantação de uma unidade de separação por solventes, etapa essencial para a obtenção dos óxidos de terras raras, e desenvolve, em parceria com uma empresa australiana, um projeto de reciclagem de ímãs permanentes em Poços de Caldas, cuja planta demonstrativa tem previsão de entrar em operação em 2027.

Após receber a Licença Prévia em dezembro de 2025, a Viridis protocolou, em maio de 2026, o pedido da Licença de Instalação para o projeto de Poços de Caldas | Foto: Viridis

Desafio da industrialização

Embora o avanço da mineração seja condição necessária para atender à crescente demanda por sistemas de armazenamento, outro elo importante para atender essa cadeia de suprimentos é desenvolver a capacidade de transformar esses recursos em materiais aptos para a fabricação de baterias. 

Para Alberto Bianchi, fundador da Powerhouse e professor da Poli/USP, um dos equívocos mais comuns é associar a vulnerabilidade da cadeia apenas à escassez de minerais. Na prática, o principal gargalo está nas etapas intermediárias de processamento e refino, responsáveis por converter os recursos extraídos em insumos com qualidade adequada para a indústria de baterias.

“Do ponto de vista mineral, lítio, níquel e manganês não são simplesmente ‘raros’. O aperto está em outro ponto: refino, transformação química, grau bateria, qualidade, escala industrial e domínio tecnológico. Muita gente confunde ter reserva no chão com capacidade de processar, certificar e entregar para uma cadeia exigente. São coisas bem diferentes. O gargalo de verdade costuma ficar no meio do caminho, entre a mina e a fábrica”, afirma o especialista.

Na avaliação de Bianchi, o Brasil reúne vantagens competitivas que poucos países conseguem combinar. Além da disponibilidade de recursos minerais, possui uma matriz elétrica predominantemente renovável, experiência industrial e um mercado que tende a demandar volumes crescentes de armazenamento de energia nos próximos anos.

“O Brasil é um gigante geológico que ainda hesita em levantar da cadeira. Tem posição relevante em grafite natural, reservas importantes de terras raras e níquel, além de produção de lítio em expansão. A natureza fez a parte dela com generosidade. Falta saber se vamos transformar essa sorte em projeto industrial ou deixá-la escorrer entre os dedos”.

Segundo ele, o diferencial competitivo não estará apenas na exportação de matérias-primas, mas na capacidade de agregar valor aos minerais ao longo da cadeia produtiva. “A diferença entre vender concentrado mineral e produzir compostos de grau, bateria, componentes, materiais ativos, células, sistemas e serviços é a diferença entre ser fornecedor de matéria-prima e ser protagonista da transição energética”, conclui Bianchi.

Alberto Bianchi, PhD, Fundador da Powerhouse e Professor da Poli/USP | Foto: Divulgação

Economia circular 

À medida em que assistimos o aumento do volume de lixo eletrônico, oriundo da transformação tecnológica, como, por exemplo, celulares, tabletes, computadores, televisore e as baterias dos veículos elétricos, a reciclagem de minerais críticos começa a ganhar espaço como uma alternativa complementar para reduzir a pressão sobre a extração de matérias-primas e fortalecer a segurança da cadeia de suprimentos.

Para Caiubi Kuhn, presidente da Federação Brasileira de Geólogos (Febrageo), a chamada economia circular, deverá assumir papel cada vez mais relevante no abastecimento desses materiais, sobretudo diante da elevada concentração de elementos estratégicos presentes em equipamentos eletrônicos.

“Se pegarmos uma tonelada de celulares, ela pode ter até 100 vezes mais ouro do que uma tonelada de rocha de mineração de ouro. Então há uma concentração de diversos elementos importantíssimos para a sociedade nos eletrônicos, que não podemos simplesmente desperdiçar. Certamente, no futuro, a reciclagem, a economia circular desses componentes, vai ser algo fundamental”, analisa.

Esse cenário, segundo observa o geólogo, reforça que a expansão da cadeia de suprimentos dependerá de diferentes frentes de atuação. Além da abertura de novas minas e do fortalecimento da indústria de processamento, será necessário investir em tecnologias de reciclagem capazes de recuperar materiais estratégicos presentes em baterias, equipamentos eletrônicos e uma gama de outros produtos, ao fim da sua vida útil. 

Terras raras: reservas abundantes e cadeia produtiva limitada – O Setor Elétrico | Conteúdo técnico para profissionais do setor elétrico

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