Por Laricia Lemos, bacharel em relações internacionais com MBA em gestão de negócios pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), da Universidade de São Paulo, e international purchasing da BRQ Brasilquímica

Um conflito que acontece a milhares de quilômetros de distância pode parecer, à primeira vista, um problema restrito aos países envolvidos, mas, na prática, seus efeitos atravessam oceanos, redesenham rotas comerciais, pressionam mercados e chegam rapidamente às indústrias globais. Quando uma região estratégica de exportação e importação para o comércio mundial enfrenta instabilidade, a cadeia de suprimentos como um todo sente os impactos: o frete encarece, os prazos de entrega aumentam, matérias-primas se tornam mais escassas, os combustíveis são afetados e o planejamento das empresas passa a enfrentar níveis de incerteza sem precedentes.

A guerra entre Rússia e Ucrânia – que já dura mais de quatro anos e afetou diretamente o fornecimento global de energia, fertilizantes e outros insumos agrícolas estratégicos – e as tensões no Oriente Médio envolvendo o Estreito de Ormuz (por onde circula cerca de 20% do petróleo mundial e parcela significativa do gás natural liquefeito), são exemplos de que, cada vez mais, eventos geopolíticos são combustíveis para alterar fluxos logísticos, elevar custos e impactar diretamente cadeias produtivas nos mais diversos países. O resultado é a transformação na dinâmica das cadeias de suprimentos globais. 

Para a indústria brasileira, esse cenário de instabilidade traz um conjunto complexo de incertezas operacionais e cambiais, exigindo revisão profunda das estratégias de abastecimento. O principal desafio passou a ser a perda de previsibilidade. Se antes era possível planejar importações com relativa segurança, hoje a gestão da cadeia de suprimentos precisa lidar com variáveis que fogem ao controle das organizações.

Volatilidade cambial, redução da oferta de matérias-primas, atrasos nos embarques em portos internacionais e aumento dos custos de transporte exigem decisões cada vez mais rápidas e estratégicas. Em muitos casos, as companhias precisam negociar compras com meses de antecedência para garantir a disponibilidade de produtos e espaço nos navios, reduzindo sua flexibilidade operacional.

Os reflexos aparecem em praticamente todos os elos da cadeia produtiva. A escassez de contêineres, o encarecimento do frete marítimo e as dificuldades nas principais rotas internacionais elevaram significativamente os custos de aquisição de insumos importados, pressionando diretamente os custos de produção da indústria nacional. Matérias-primas consideradas estratégicas passaram a enfrentar períodos de menor disponibilidade e sucessivos reajustes de preços, tornando mais complexa a gestão de estoques e o cumprimento dos cronogramas de produção.

Na BRQ Brasilquímica – empresa brasileira especializada na produção de insumos para a agricultura –, esse movimento foi sentido especialmente na cadeia de boratos, matérias-primas utilizadas na nutrição das plantas. Entre os principais produtos estão ácido bórico, ulexita e octaborato de sódio, fontes de boro, micronutriente essencial para o desenvolvimento vegetativo, a formação de estruturas reprodutivas e a qualidade das culturas. Esses insumos registraram forte pressão em razão da alta dos preços e da redução da oferta no mercado internacional. Outro produto impactado é o ácido sulfúrico, essencial para a produção de sulfato de zinco 20%, fertilizante utilizado no fornecimento de zinco às plantas, nutriente importante para processos metabólicos e para o desenvolvimento das culturas. O aumento de custos reforça como as tensões geopolíticas podem atingir segmentos industriais aparentemente distantes dos conflitos.

Esse ambiente reforça a necessidade de tornar as cadeias de suprimentos mais resilientes. A diversificação de fornecedores, antes vista principalmente como estratégia de eficiência, passou a ser mecanismo de mitigação de riscos. Ao reduzir a dependência de uma única região ou país, as companhias ampliam sua capacidade de reação diante de interrupções inesperadas no comércio internacional. O fortalecimento das parcerias com fabricantes, operadores logísticos e demais elos da cadeia também ganha relevância para garantir maior segurança no abastecimento.

O planejamento, assim, tem um novo significado. Manter estoques estratégicos, antecipar demandas e acompanhar constantemente os movimentos do mercado global deixam de ser medidas excepcionais para se tornar parte da rotina das empresas que atuam em um ambiente cada vez mais conectado e sensível às mudanças geopolíticas.

Caso as tensões internacionais persistam (e o noticiário recente mostra que isso é o mais provável), os desafios relacionados à logística, à disponibilidade de matérias-primas e aos custos tendem a continuar presentes. Por outro lado, esse novo desenho do comércio internacional pode abrir oportunidades para o Brasil ampliar sua participação como fornecedor global de alimentos, especialmente para mercados que buscam diversificar suas cadeias de suprimentos e reduzir a dependência de regiões afetadas pelos conflitos.

Em um mundo em que guerras deixam de produzir impactos apenas nos campos de batalha para influenciar diretamente a produção industrial, o comércio exterior e a competitividade das empresas, adaptar-se é tão importante quanto crescer. Mais do que reagir às crises, a capacidade de antecipar riscos e construir cadeias de suprimentos mais robustas torna-se diferencial para a indústria nacional em um cenário global marcado pela instabilidade.

Obrigada, Viviane Passerini Texto Comunicação Corporativa
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