Valor Econômico – Os investimentos em infraestrutura no Brasil estão alavancando novas oportunidades no mercado de trabalho. De acordo com o “Barômetro da Infraestrutura Brasileira”, estudo realizado pela Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base e a consultoria EY-Parthenon, os aportes no setor bateram recorde em 2025, com destaque para os projetos privados, com um crescimento de 5,9%, ante 2024, totalizando R$ 234,9 bilhões. Já as percepções favoráveis para as contratações nas empresas subiram de 33% para 41,5%, no mesmo período. Entretanto, apesar dos índices otimistas, há desafios pela frente: a maioria ou 87,5% dos 225 executivos ouvidos no levantamento afirmam que há escassez de mão de obra qualificada e que a falta de profissionais pode impactar o ritmo dos negócios.
“A demanda por gestores para o segmento de infraestrutura tem aumentado e dois fatores explicam isso”, analisa Igor Schultz, sócio da Flow Executive Finders, de recrutamento de executivos. “Há investimento relevante acontecendo em aeroportos, terminais portuários, rodovias, ferrovias e hidrovias; e temos uma mudança no perfil profissional procurado pelos empregadores.”
Segundo Schultz, as companhias não estão mais buscando só quem pode “tocar uma operação”. “Querem executivos que saibam gerir o investimento nos ativos”, detalha. “Na prática, trata-se da diferença entre contratar apenas um gerente de operações de um aeroporto ou ter alguém capaz de conduzir obras de expansão, gerenciar o consórcio e controlar o o orçamento.”
De acordo com o especialista, a Flow, que atua no setor desde 2011, registrou um aumento de 150% na demanda de currículos em 2026, até abril, ante 2025. “É o reflexo direto de projetos que estão saindo do papel e entraram na fase de execução”, aponta Schultz, que atende companhias de terminais portuários, infraestrutura logística e empreiteiras. Do total de posições intermediadas desde 2024, quase metade (45%) foi para o C-level e conselhos, com salários de R$ 40 mil a R$ 120 mil mensais.
Na Motiva, empresa de infraestrutura de mobilidade com 16 mil funcionários e 37 operações em modais como rodovias, ferrovias e aeroportos em 13 estados, havia 970 vagas abertas em abril, sendo menos de 10% para posições de liderança. Foram contratados 103 executivos em 2024 e 99 em 2025 – 67 gestores devem ser convocados em 2026.
É o caso de Ita Góes, 40 anos, gerente de sistemas de gestão integrada, contratada em março para trabalhar na operação do VLT Carioca, no Rio de Janeiro (RJ). “Encontrei a vaga no LinkedIn e me candidatei”, diz a profissional, especializada em QSMS (sigla para qualidade, meio ambiente, saúde e segurança do trabalho). No dia a dia, ela também cuida da redução de riscos e da proteção das pessoas. “Tive interesse em ingressar na área por enxergar o seu potencial de desenvolvimento.”
Para isso, a engenheira agrícola e ambiental se aprofundou em temas como segurança e gestão integrada. “Nesse setor, é fundamental ter visão estratégica, capacidade de tomada de decisão e comunicação clara, para conduzir equipes e garantir a eficiência das atividades”, enumera a executiva, que já atuou na Equinor, do ramo de energia, e recebeu duas propostas de trabalho em 2025, ambas para o segmento de infraestrutura.
Com um mercado aquecido, encontrar um profissional sênior é um dos principais desafios, avalia Graziella Maso, diretora de pessoas na Motiva, que acrescenta que o prazo para localizar e contratar um nome ideal para postos de comando pode variar de 60 a 90 dias – período equivalente, segundo o mercado de recrutamento, ao tempo de busca de executivos de TI, supply chain (cadeia de suprimentos) ou de gestores de alta senioridade do ramo industrial. “É por isso que precisamos ter um plano de identificação prévia, mapeamentos preventivos e estratégias de ‘pipeline’”, informa. Com o objetivo de reter talentos, uma das estratégias em curso é a ação batizada de “diálogos de carreira”, que inclui conversas sobre as ambições dos profissionais na empresa.
Na Aena Brasil, com 920 funcionários, o tempo médio para fechar contratações em postos de decisão é de cerca de dois meses e um dos maiores entraves para preencher vagas é a amplidão geográfica do grupo, que administra 17 aeroportos em nove estados.
“Encontrar profissionais seniores é desafiador devido à alta exigência técnica do setor aeroportuário e à escassez de profissionais ‘prontos’ para esse mercado”, aponta Márcia Marques, diretora de organização e RH. “Além disso, a dispersão geográfica e a menor atratividade de alguns aeroportos [por conta da localização] dificultam a atração. O que reforça a importância de investir em desenvolvimento interno.”
Em 2025, a companhia que venceu em março de 2026 o leilão para operar o Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro – Galeão, admitiu dois gerentes e um diretor. Este ano, não há previsão de aquisições externas para cadeiras de liderança – o interesse é utilizar a “prata da casa”.
Para se ter um ideia, foram feitas quatro promoções somente em diretorias de aeroportos, em Recife (PE), Uberlândia, Uberaba (MG) e Carajás (PA). “Investimos em planos de sucessão, com oportunidades de mobilidade e crescimento dentro da organização”, diz Marques.
Foi o que aconteceu com Daniela Patrocínio, 33 anos, diretora do Aeroporto de Uberaba. “Ingressei na Aena em Maceió [AL], fui movimentada para São Paulo [SP] em 2023, para o Aeroporto de Congonhas e, em fevereiro de 2026 me mudei para Minas Gerais a fim de assumir a diretoria em Uberaba”, conta a executiva, com uma experiência de sete anos na Gol Linhas Aéreas. “Atualmente, estamos focados na entrega de obras de modernização do terminal, para ganho de eficiência operacional e melhoria da experiência dos passageiros.”
Patrocínio diz que o gestor do mercado de infraestrutura deve combinar atributos como visão sistêmica e capacidade de execução. “Deve-se tomar decisões em cenários de pressão, lidar com múltiplos stakeholders e ter uma leitura de contexto – operacional, regulatório e institucional”, afirma. Ter a habilidade de liderar e desenvolver pessoas é fundamental, com o intuito de engajar equipes e mostrar consistência na entrega de resultados, sustenta. “Em um ambiente de mudanças constantes importante ainda manter o equilíbrio emocional e a capacidade de adaptação.”
