Programa já movimentou R$ 16,5 bilhões em créditos de descarbonização e evitou 270 milhões de toneladas de CO₂, mas especialistas apontam que preço e judicialização ainda limitam o potencial do mercado de CBIOs

O RenovaBio, programa nacional de implementação de biocombustíveis, impulsionou avanços importantes na descarbonização da indústria de combustíveis e vive agora uma fase de amadurecimento, apontam especialistas. Principalmente na comercialização de créditos e no alcance de novos mercados.
O tema foi discutido nesta quarta-feira, 5, em um dos painéis do Rio Innovation Week, no Rio de Janeiro.
Atualmente, 64% das usinas são certificadas pelo Renovabio, sendo 231 de etanol, 47 de biodiesel e 8 de biometano.
O programa tem como meta reduzir a intensidade de poluentes da matriz de transporte em 10% até 2030, em relação a 2018.
“A maior demonstração de que o RenovaBio é um sucesso é o número cada vez maior de usinas certificadas, de biometano, perspectivas de entrar SAF e outros bicombustíveis”, disse a coordenadora do Ministério do Meio Ambiente, Rafaela Moreira.
Criado em 2017, o programa tem como objetivo incentivar a produção e o uso de biocombustíveis. “Nesse aspecto, o Brasil vem ampliando a produção de etanol de milho e de biometano. Nos últimos dois anos batemos a meta de produção e reduzimos o dobro do que era nossa meta de emissões”, completou.
Na visão de Thiago Quintella, gerente de novos biocombustíveis da ABIOVE, representante do setor de óleos vegetais. “O RenovaBio está em fase de amadurecimento: temos alguns setores bem engajados e desenvolvidos, e outros que precisam de maior apoio, como o nosso.”
RenovaBio movimenta R$16,6 bilhões em créditos de descarbonização
Entre 2020 e 2026, foram evitadas a emissão 270 milhões de CO2 na atmosfera pelas usinas brasileiras. Com isso, o programa emitiu 25 milhões de CBIOs (créditos de descarbonização), gerando um volume financeiro de R$16,5 bilhões.
Cada CBIO equivale a 1 tonelada de CO₂ equivalente que deixou de ser emitida. Os CBIOs são gerados pelas indústrias a partir do quanto deixam de emitir de poluentes. O título é negociado na B3, como um ativo financeiro.
“O RenovaBio é um laboratório pro Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões”, disse a coordenadora do Ministério do Meio Ambiente, Rafaela Moreira. “A gente acredita que é um verdadeiro teste de maturidade e consolida o Brasil na precificação global no meio da precificação dos créditos.”

Mercado de créditos precisa superar desafios para ser mais atrativo
Os especialistas apontam, no entanto, dois principais problemas do CBIO: o preço e a judicialização da pauta.
“Ainda precisamos conseguir um preço de câmbio que remunere de forma adequada o produtor, hoje serve pra ser uma renda extra pra incentivar a produção. O preço ta muito abaixo e as metas de câmbio precisam ser revistas”, disse Rafaela Moreira.
Além disso, as entidades falam em combater a judicialização. “É preciso fazer um trabalho efetivo para ter isenção em relação aos CBIOs. Isso vai dar credibilidade, além de acabar com a judicialização de empresas contra o programa”, complementou Quintella.
Programa impulsionou produção de etanol de milho
Na visão de Amaury Pekelman, presidente executivo da UNEM, entidade que representa todos os produtos de etanol de milho no Brasil, o programa teve um papel importante.
“A criação do RenovaBio foi exatamente no momento que estavamos investindo em plantas de milho. A gente precisava olhar o mercado que tinha as entressafras, e o RenovaBio trouxe incentivo e o investimento a longo prazo”, afirmou Pelkeman.
“Temos um superavit de produção, mas temos grandes desafios que as empresas não estão ainda preparadas”, completou.
Créditos precisam ser atrativo para mais setores de biocombustíveis
Já para Thiago Quintella, o RenovaBio ainda precisa ser mais atrativo para a cadeia de óleos vegetais.
“A gente ainda não tem uma grande adesão do setor de biodiesel, cerca de 40%, por isso precisa ser mais atrativo”, disse.
“É um excelente programa, mas ainda não é o fator decisivo para o nosso setor. O preço é um gargalo grande, assim como o para as empresas o custo de implementação de biocombustíveis é caro, ainda precisa amadurecer para o preço ser mais competitivo.”
Futuro dos biocombustíveis
Os painelistas são unânimes em relação ao futuro dos biocombustíveis.
Eles apostam no avanço acelerado do etanol de milho, biometano, e-fuels, e, muito em breve, o SAF (Sustainable Aviation Fuel, ou Combustível Sustentável de Aviação).
