Valor Econômico – A inteligência artificial está deixando de ser apenas uma ferramenta de automação para se tornar uma aliada da descarbonização dos transportes, ao permitir operações mais eficientes, menor consumo de combustível, melhor planejamento logístico e integração entre diferentes modais. Em um setor que ainda depende majoritariamente de veículos movidos a combustíveis fósseis, especialistas avaliam que a tecnologia pode reduzir emissões desde já, antes mesmo da eletrificação em larga escala da frota, ao aumentar a eficiência operacional, reduzir desperdícios e otimizar o uso da infraestrutura existente.

A avaliação está em linha com estudo divulgado em 2025 pela Coalizão dos Transportes, que reúne mais de 50 associações setoriais, empresas e instituições acadêmicas. O relatório aponta que o transporte responde por cerca de 11% das emissões brasileiras de gases de efeito estufa e que mais de 90% dessas emissões são provenientes do modal rodoviário.

Considerando esse modal, além da expansão dos biocombustíveis, da eletrificação e da mudança da matriz de transportes, o estudo identifica a eficiência operacional como uma das frentes para reduzir emissões no curto prazo, por meio do uso da inteligência artificial para melhorar as rotas do transporte de cargas e reduzir emissões.

A conclusão é semelhante à de relatório publicado em 2025 pelo Fórum Econômico Mundial e pela consultoria McKinsey, segundo o qual a IA não substitui as mudanças estruturais necessárias para descarbonizar o transporte, mas é a tecnologia com maior potencial para reduzir emissões no curto prazo, utilizando melhor os ativos que já existem.

Segundo o documento, intitulado “Transporte Inteligente, Futuro Mais Verde: A Inteligência Artificial como Catalisadora da Descarbonização da Logística Global”, a adoção dessas ferramentas pode reduzir em até 15% as emissões da logística global, apenas aumentando a eficiência operacional.

Ao Valor, o ministro do Meio Ambiente, João Paulo Capobianco, afirma que, em um país como o Brasil, onde os custos logísticos têm grande impacto sobre a produção, pequenos ganhos de eficiência podem produzir efeitos econômicos. Além disso, geram benefícios ambientais, uma vez que quanto menor o consumo de energia por tonelada movimentada ou passageiro transportado, menores serão as emissões associadas à atividade econômica.

Na avaliação do ministro, nesse contexto, a inteligência artificial se insere no conjunto de soluções voltadas à descarbonização do setor. “A eletrificação será um dos pilares da descarbonização dos transportes, mas seus resultados serão muito maiores quando combinada com outras transformações tecnológicas. A inteligência artificial é uma delas. Seu principal papel não é substituir a eletrificação, mas aumentar sua eficiência e integrar diferentes soluções para reduzir emissões”, diz.

Segundo Capobianco, a complementaridade é particularmente relevante no Brasil, em razão da matriz elétrica predominantemente renovável e do avanço dos combustíveis de baixa intensidade de carbono, o que permite combinar diferentes soluções conforme as características de cada modal. O ministro afirma que a descarbonização dos transportes dificilmente será resultado de uma única tecnologia e dependerá da capacidade de integrar diferentes frentes para um sistema mais eficiente.

“É essa convergência que pode acelerar a transição para uma economia de baixo carbono”, explica.

A avaliação é de que a IA tende a crescer à medida que os diferentes sistemas – transportes, energia, logística e planejamento urbano – passem a operar de forma cada vez mais integrada. Para o ministro, cabe ao governo criar condições para que essas inovações se desenvolvam em escala, o que passa por previsibilidade regulatória, instrumentos de financiamento, apoio à pesquisa e um ambiente favorável ao investimento privado.

“Quanto maior essa integração, maior será a capacidade de reduzir consumo de energia, emissões e custos operacionais. Por isso, mais do que medir o impacto direto da inteligência artificial, o mais importante é compreender seu papel como tecnologia habilitadora. Ela amplia a eficiência de um conjunto de soluções que, combinadas, podem acelerar significativamente a descarbonização do setor de transportes”, pontua.

Na prática, a inteligência artificial já integra a rotina operacional de grandes empresas do setor de transportes, aponta a diretora executiva da Confederação Nacional dos Transportes (CNT), Fernanda Rezende. De acordo com ela, a tecnologia deixou de se restringir à automação de processos administrativos e passou a ser aplicada diretamente às operações logísticas.

A IA é utilizada, por exemplo, para otimizar rotas e a chamada cubagem de cargas, que consiste em definir a melhor forma de acomodar os produtos nos veículos para aproveitar ao máximo o espaço disponível. Com isso, é possível transportar mais carga com o mesmo número de veículos e reduzir deslocamentos desnecessários, sobretudo nas operações fracionadas. “É possível dimensionar as cargas, utilizando IA, para compor o caminhão de forma mais eficiente, aumentando a eficiência do setor”, explica.

Também é aplicada na análise de dados dos veículos por meio da telemetria, que monitora, em tempo real, o desempenho e o consumo de combustível. A tecnologia auxilia na manutenção preditiva, permitindo identificar falhas e o desgaste de componentes antes que eles comprometam o desempenho do veículo, além de ampliar a capacidade de monitoramento das centrais de controle. Segundo Fernanda, esses recursos também permitem aperfeiçoar a operação das frotas e contribuir para a redução do consumo de combustível.

A diretora também cita o avanço de caminhões autônomos em ambientes controlados, mas avalia que a adoção da tecnologia nas rodovias ainda enfrenta obstáculos relacionados às condições da infraestrutura brasileira. “Esses níveis de automação já são uma realidade. Essa utilização da tecnologia em favor da segurança e do aumento da eficiência dos transportes já acontece”, afirma.

As aplicações da inteligência artificial não se restringem ao transporte rodoviário. As ferramentas também vêm sendo incorporadas em outros modais, como a aviação.

No setor portuário e aquaviário, a principal aplicação da inteligência artificial está justamente no aumento da eficiência operacional, de acordo com o diretor-geral da Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq), Frederico Dias. A tecnologia pode ser usada para apoiar o planejamento de rotas, o monitoramento de condições climáticas e oceanográficas, a previsão de chegadas, a gestão de fluxos nos portos e a redução de tempos ociosos de embarcações, equipamentos e veículos.

“Esse ganho de eficiência tem impacto direto na descarbonização, porque reduz consumo de combustível, consumo de energia e emissões”, afirma.

Segundo Dias, a Antaq acompanha especialmente o potencial de ferramentas de monitoramento, integração de dados e inteligência geoespacial, capazes de apoiar análises espaciais, processamento de imagens de satélite, identificação de padrões operacionais e a tomada de decisão regulatória. De acordo com ele, estudos internacionais recentes indicam que o avanço da digitalização está associado à redução de custos e do consumo de energia, além de permitir monitoramento em tempo real, emissão de alertas e gestão mais inteligente das operações.

“Também há aplicações de IA para prever o tempo de permanência de contêineres, atrasos de navios, empilhamento inteligente e automação de equipamentos. O gargalo central é a integração dos dados: sem dados confiáveis, padronizados e compartilhados, a IA não entrega todo o seu potencial ambiental e operacional”, afirma.

O professor Li Weigang, do Departamento de Ciência da Computação da Universidade de Brasília (UnB) e coordenador do TransLab, afirma que o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA) estabelece uma diretriz para ampliar a competitividade do país por meio da tecnologia e coloca o setor de transportes entre as áreas prioritárias.

Na avaliação do pesquisador, a modernização da infraestrutura logística passa pelo uso da inteligência artificial. “O plano reconhece a infraestrutura focar na criação de soluções nacionais, com otimização dos corredores logísticos, da infraestrutura portuária e da gestão inteligente do tráfego urbano para reduzir as emissões de carbono”, afirma.

Para Li, a estratégia representa uma oportunidade para desenvolver tecnologias adaptadas à realidade brasileira, em vez de apenas importar soluções. “No setor de transporte, o PBIA está focando em quatro partes: soberania tecnológica e soluções nacionais; modernização da infraestrutura logística; mobilidade urbana e sustentabilidade; e segurança e resiliência”, diz.

Fonte: https://valor.globo.com/brasil/noticia/2026/08/07/setor-de-transporte-conta-com-ia-para-descarbonizacao.ghtml

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