O Saneamento Brasil Summit reuniu, nesta quarta-feira (12), cerca de 200 executivos e lideranças do setor, além de autoridades, reguladores e representantes da iniciativa privada, para discutir os avanços e os próximos desafios do saneamento brasileiro. Realizado no Teatro B32, na Avenida Brigadeiro Faria Lima, em São Paulo (SP), o encontro colocou em debate o novo momento vivido pelo setor, marcado pela aceleração dos investimentos, pela ampliação da participação privada e pelo desafio de transformar os recursos contratados em obras e serviços para a população.
Na abertura, o ministro das Cidades, Vladimir Lima, destacou os avanços alcançados na universalização do acesso à água e ao tratamento de esgoto, ressaltando que o saneamento vai muito além da construção de infraestrutura. “Estamos falando de infraestrutura, saúde, dignidade, proteção ambiental, proteção aos nossos mananciais, produtividade econômica, geração de emprego e renda, qualidade de vida para a nossa população”, afirmou.
Os números apresentados ao longo do evento reforçaram esse cenário. O presidente do Conselho de Administração da ABCON, Paulo Roberto de Oliveira, destacou que o setor alcançou, em 2024, o terceiro recorde consecutivo de investimentos, com R$ 29,1 bilhões aplicados em saneamento no país. O dado faz parte do Panorama da Universalização do Saneamento 2026, publicação da ABCON que reúne os principais indicadores sobre a evolução do setor.
Para a diretora-presidente da ABCON, Christianne Dias, o próprio debate sobre a universalização mudou de patamar nos últimos anos. A distância entre as metas estabelecidas pelo Marco Legal e a contratação dos serviços diminuiu, e a discussão passa agora pelas condições necessárias para que os contratos sejam efetivamente executados. “Hoje, a pergunta que nos reúne é: como garantir as condições para que os contratos sejam executados e se convertam em atendimento para a população?”, afirmou.
Ao destacar a redução de internações médicas, a melhoria dos indicadores de qualidade de vida e a proteção dos recursos hídricos nos seis anos desde o Marco Legal do setor, Christianne reforçou a dimensão social do saneamento: “Saneamento é, antes de tudo, uma política pública de saúde.”
A necessidade de avançar na estruturação dos projetos para garantir a entrega dos serviços também foi ressaltada por Carlos Augusto Leone Piani, presidente da Sabesp. Para ele, o próximo ciclo deve concentrar esforços na execução dos investimentos. “A gente tem que começar a mudar a discussão das estruturações e ir migrando para execução, transformar o dinheiro em obra, obra em serviço bem prestado para a sociedade.”
Na mesma linha, a diretora de Infraestrutura, Transição Energética e Mudança Climática do BNDES, Luciana Costa, ressaltou que a necessidade de recursos para o setor supera a capacidade de atuação isolada de qualquer instituição. “O BNDES sozinho não faz, o mercado privado sozinho não faz”, afirmou. A executiva também avaliou que o saneamento brasileiro passou por uma transformação profunda nos últimos anos. “O setor de saneamento desse país viveu, sim, uma grande revolução.”
Eixo da infraestrutura
O painel “Saneamento: o eixo da nova infraestrutura no Brasil” ampliou a discussão sobre o papel estratégico do setor e reuniu o deputado federal Fernando Monteiro; a secretária de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística de São Paulo, Natália Resende; o diretor do Departamento de Infraestrutura da Fiesp, Ricardo Toledo Silva; e o diretor de Relações Institucionais da CNI, Roberto Muniz.
Presidente da Frente Parlamentar de Saneamento Básico, Fernando Monteiro celebrou o novo patamar alcançado pelo setor e defendeu o fortalecimento das agências reguladoras. “O saneamento hoje faz parte da agenda estratégica de Estado, independente de política eleitoral”, afirmou.
Para Roberto Muniz, da CNI, o aumento dos investimentos representa uma oportunidade para a indústria nacional ampliar a oferta de equipamentos, materiais e serviços necessários à expansão da infraestrutura. “Esse é um novo ambiente que a gente vai ter que construir”, afirmou, ao defender uma mobilização conjunta entre operadores, reguladores e a cadeia de fornecedores.
Natália Resende destacou que um dos principais méritos do Marco Legal do Saneamento foi colocar no centro do debate populações e áreas que historicamente permaneceram à margem dos serviços de saneamento. “O novo Marco do saneamento fez isso: nos fez primeiro enxergar e nos fez fazer.”
Já Ricardo Toledo Silva, da Fiesp, apontou a regionalização como um dos principais avanços institucionais do novo Marco Legal. Para ele, a natureza dos sistemas de saneamento exige uma visão que ultrapasse os limites municipais. “A noção de regionalização é fundamental para que o saneamento funcione”, afirmou.
Como resumiu Paulo Roberto de Oliveira, presidente do Conselho de Administração da ABCON, “universalizar não é apenas disponibilizar a rede, mas garantir que todos estejam conectados e confiem na qualidade dos serviços que são prestados”.
Financiamento em saneamento
Encerrando o evento, o presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), Ilan Goldfajn, destacou a importância do financiamento de longo prazo para acelerar a universalização. Segundo ele, o grupo BID já disponibilizou US$ 8 bilhões, cerca de R$ 40 bilhões, para projetos de água e esgoto.
“Todo o financiamento tem que ter como objetivo último o impacto na qualidade de vida das pessoas. Por exemplo, nos últimos 15 anos, operações apoiadas pelo BID ajudaram a fornecer tratamento adequado de águas residuais para mais de 2 milhões de residências”, afirmou.
Goldfajn disse ainda que o setor passou de uma etapa de construção do modelo para um momento de execução. Nesse processo, a modernização regulatória teve papel central ao ampliar a previsibilidade, a segurança jurídica e as condições para a participação privada.
O presidente do BID ressaltou a atuação da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), que até 2025 havia publicado 13 normas de referência e duas normas de procedimento, com apoio de cooperação técnica do BID. “O novo marco legal foi importante, foi o primeiro passo. Ele abriu caminho para regras previsíveis, coordenação federativa e regulação econômica homogênea. Esses instrumentos promovem segurança jurídica, previsibilidade e transparência para o setor”, declarou.
A primeira edição do Saneamento Brasil Summit reuniu representantes do poder público, reguladores, investidores e os principais executivos do setor para discutir os caminhos da universalização e o papel estratégico do saneamento na infraestrutura brasileira. O evento teve transmissão ao vivo e para conferir como foi, clique aqui.
O Saneamento Brasil Summit e o 10º Encontro Nacional das Águas são apresentados pela Sabesp e contam com o patrocínio do Banco Itaú, GS Inima, Iguá Saneamento e Norte Saneamento. As empresas associadas à ABCON também têm participação ativa na programação, com representantes de concessionárias como Sabesp, GS Inima, Iguá Saneamento, Norte Saneamento, Aegea, Ambiental Ceará e Copasa, entre outras, compartilhando experiências sobre regulação, financiamento, inovação, sustentabilidade, eficiência operacional e os desafios da universalização dos serviços.
Nicole Angel
nicole.angel@fariello.com.br
