Programas estruturados de desenvolvimento ajudam empresas familiares a preparar a próxima geração para atuar como acionistas, líderes e gestores com visão de longo prazo
Por Agência CNT Transporte Atual
17/08/20268h52

por Ana Silvia Resende*
“Como preparar a próxima geração?” ou “Quais papéis posso desempenhar na empresa familiar?” são perguntas que escuto com frequência. Às vezes, refletem apenas curiosidade, outras vezes, incertezas. Mas, na maioria das vezes, revelam o desejo genuíno de acertar. Outras questões recorrentes são: “Como prepará-los para prosperar? Como aumentar suas chances de sucesso? Terei um sucessor?”.
Famílias empresárias de sucesso desenvolvem programas estruturados para ajudar membros da próxima geração a se tornarem bons acionistas e, eventualmente, líderes empresariais. Ao longo dos anos, vi uma infinidade de Programas de Desenvolvimento (PdG), com diferentes formatos e metodologias. Ainda que existam várias maneiras de estruturá-los, é útil pensar em dois elementos fundamentais: o público-alvo e o escopo do desenvolvimento.
A definição do público-alvo leva em conta a idade e a fase da vida. É comum começar um PdG no início da adolescência, entre os 11 e os 14 anos. Já vi famílias que começam com crianças a partir de 4 anos. Porém, não existe um limite máximo: pessoas com mais de 50 anos também podem estar envolvidas, sobretudo, se estiverem sendo preparadas para assumir posições na liderança e/ou na governança dos negócios. Naturalmente, os desafios, os interesses e as formas de aprendizado variam conforme a idade, e o PdG precisa refletir essa diversidade.
O escopo do desenvolvimento é mais complexo, pois define em quais áreas o programa se concentrará: formação para a vida como um todo, ou qualificação para atuação na empresa ou na governança?
Uma abordagem eficaz define os papéis a serem focados – cidadão responsável, executivo, acionista engajado, líder empresarial, conselheiro etc. – e, a partir disso, mapeia as competências necessárias. Por exemplo, um acionista engajado pode precisar entender os princípios das empresas familiares, conhecer os ativos, compreender a história e os valores da família e desenvolver habilidades básicas de liderança e negócios.
Uma vez definidos os papéis e as competências a focar, é possível desenhar trilhas de desenvolvimento. Elas podem incluir treinamentos coletivos, cursos complementares, mentorias, estágios, empregos, trabalhos em meio período, posições júnior na governança, projetos, coaching, entre outras experiências. A partir das trilhas, planos de desenvolvimento individual são ajustados à idade, ao momento de vida, às preferências de aprendizagem e aos interesses pessoais.
Na sequência, para medir o sucesso de um PdG, é essencial estabelecer metas claras. A metodologia SMART é uma boa aliada: metas específicas, mensuráveis, atingíveis, relevantes e com prazos definidos. Algumas podem estar ligadas ao processo – como um percentual definido de engajamento no programa no primeiro ano –, outras ao resultado, como ter dois candidatos familiares capazes de assumir o cargo de CEO em 5 anos, por exemplo.
Vale lembrar que cada família tem seus próprios objetivos, que devem ser discutidos, validados e acompanhados por um grupo responsável, quer seja um conselho, comitê, time ou força-tarefa. Esse grupo deve atuar como guardião do PdG, debatendo e refinando seus objetivos e iniciativas, garantindo sua continuidade e efetividade.
Por fim, é fundamental compreender que os frutos desse investimento são colhidos no longo prazo. Um PdG eficaz exige paciência, dedicação, monitoramento e ajustes constantes. Mas, certamente, será um dos investimentos mais relevantes que uma empresa familiar pode fazer.
*Ana Silvia Resende é especialista em empresas familiares, sócia da ALMA Consultoria e professora do Insper.
(Os artigos publicados nesta seção não refletem necessariamente a opinião do Sistema Transporte e são de inteira responsabilidade de seus autores.)
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