Usualmente tratada apenas como recurso natural, a água é um dos principais pilares da humanidade. Sem água não existem cidades, sem cidades não existem sociedades, sem sociedades não existe o mundo como conhecemos.
O estudo United Nations World Water Development Report 2016: Water and Jobs, UNESCO/UN-Water, UNESCO World Water Assessment Programme, indica que cerca de 78% dos empregos dependem direta ou indiretamente da água. 42% estão em setores altamente dependentes, como agricultura, pesca, silvicultura, indústria intensiva em água, mineração, energia e saneamento.
O estudo The High Cost of Cheap Water: The True Value of Water and Freshwater Ecosystems to People and Planet, WWF 2023, estima em US$ 58 trilhões o valor econômico anual da água e dos ecossistemas, cerca de 60% do PIB global, considerando seus benefícios econômicos diretos e indiretos e os serviços ecossistêmicos que sustentam a atividade econômica.
A água não é apenas um bem ambiental, mas um ativo econômico estruturante. É nesse contexto que surge o conceito de PIB DA ÁGUA: compreender quanto da riqueza produzida por uma sociedade depende da disponibilidade, qualidade e segurança dos recursos hídricos.
Há décadas estudo como as mudanças climáticas transformam a crise hídrica em riscos econômico e social, sobretudo nas regiões costeiras e onde grande parte da riqueza depende diretamente da água. Secas, enchentes, elevação do nível do mar, salinização de mananciais e alterações no regime de chuvas podem interromper cadeias produtivas, destruir infraestruturas, reduzir empregos e comprometer a geração de riqueza.
No Brasil não existe uma conta oficial do PIB DA ÁGUA, mas a estrutura produtiva revela forte dependência hídrica. O agronegócio responde por cerca de 24% do PIB e emprega 26% da força de trabalho. A economia azul (pesca, aquicultura, P&G offshore, transporte marítimo e outros) representa cerca de 6% do PIB. Considerando indústria intensiva em água e a geração de hidro energia, meus cálculos mostram que aproximadamente 75% dos empregos e até 50% do PIB brasileiro dependem dos recursos hídricos.
No Estado do Rio de Janeiro essa dependência é mais evidente. A economia é fortemente marcada pela economia azul, especialmente pela exploração de petróleo e gás, logística portuária e turismo litorâneo. Com base em variáveis dos estudos citados, calculo que esses setores representem até 44% do PIB estadual. Incluindo indústria e energia, até 60% do PIB do estado e 60% dos empregos dependem direta ou indiretamente da água.
Por isso defendo que o futuro não será marcado pela disputa pela água como recurso essencial à vida, mas pela capacidade de garantir água às regiões que concentram produção, empregos e riqueza. Vai chegar o dia em que as grandes crises não serão provocadas por disputas por território, mercados, petróleo ou ideologia, mas pela segurança hídrica das economias.

