Custos de capital para usinas de incineração variam entre R$ 14.500 e R$ 27 mil por quilowatt instalado, enquanto a energia solar apresenta custos entre R$ 2.500 e R$ 5 mil

Por Sueli Araújo e Victor Argentino

O Brasil produz cerca de 80 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos por ano, mas reaproveita apenas 4,2% dos materiais que consome. Em um país que ainda desperdiça tamanho potencial econômico, faz sentido investir bilhões para queimar aquilo que poderia voltar à cadeia produtiva, gerar empregos, renda e novos negócios?

Essa é a escolha escolha estratégica que o país começa a enfrentar na gestão de resíduos. De um lado, um modelo linear baseado na queima de resíduos para geração de energia. De outro, soluções alinhadas à economia circular, capazes de preservar recursos, reduzir emissões e transformar materiais descartados em novos ativos econômicos.

O debate ganha urgência diante do avanço dos projetos de incineração – ou recuperação energética, como são chamados os empreendimentos de tratamento térmico de resíduos – e da tramitação, no Congresso Nacional, do Projeto de Lei 3.311/2025 , que cria o Programa Nacional do Metano Zero. Embora tenha como objetivo reduzir emissões de gases de efeito estufa, a proposta inclui entre suas diretrizes a recuperação energética de resíduos sólidos não recicláveis, categoria que abrange as chamadas Unidades de Recuperação Energética (UREs).

O problema é que o Brasil ainda não consegue aproveitar sequer o valor econômico dos materiais que descarta. Papel, plástico, vidro, metais e resíduos orgânicos que poderiam retornar à cadeia produtiva ou gerar novos insumos industriais acabam enterrados ou destinados a tecnologias que eliminam seu valor material.

Essa é a principal questão econômica do debate. A incineração transforma um recurso em combustível de uso único. A economia circular busca exatamente o oposto: manter materiais em circulação pelo maior tempo possível, extraindo deles sucessivas camadas de valor. Em termos econômicos, trata-se da diferença entre gerar valor uma única vez ou multiplicá-lo ao longo de sucessivos ciclos produtivos.

Há ainda um aspecto frequentemente negligenciado: o risco de travamento tecnológico. Incineradores são ativos concebidos para operar durante décadas e amortizar investimentos elevados. Quanto maior a dependência dessa infraestrutura, menor a flexibilidade para incorporar avanços tecnológicos, novas metas de reciclagem ou futuras exigências regulatórias. Em um contexto de rápida evolução da economia circular, isso pode representar custos adicionais para governos e consumidores.

A conta financeira também pesa. Dados do Instituto Pólis e da Global Alliance for Incinerator Alternatives (GAIA) indicam que os custos de capital para usinas de incineração variam entre R$ 14.500 e R$ 27 mil por quilowatt instalado, enquanto a energia solar apresenta custos entre R$ 2.500 e R$ 5 mil por quilowatt. Na prática, investimentos equivalentes em outras fontes renováveis podem gerar muito mais energia com menor custo.

A própria ONU classifica a tecnologia waste-to-energy como a alternativa mais cara entre as opções de tratamento de resíduos urbanos e destaca suas limitações diante de estratégias de redução, reutilização e reciclagem.

O custo, porém, não está apenas na construção das plantas. Está também no modelo econômico que elas criam. Incineradores dependem de um fluxo constante de resíduos para operar e, por isso, competem diretamente com cadeias de reciclagem pelos mesmos materiais. Quando municípios firmam contratos de longo prazo para abastecer fornos, reduzem os incentivos para ampliar sistemas ancorados na economia circular.

Experiências internacionais evidenciam esse risco. Na Suécia, frequentemente citada como referência na gestão de resíduos, a expansão da incineração esteve associada à estagnação das taxas de reciclagem e levou o país a importar resíduos para manter suas usinas operando. Na Noruega, o aumento da capacidade instalada coincidiu com uma década de estagnação da reciclagem e crescimento das emissões de CO2. Nos Estados Unidos, dezenas de incineradores foram desativados nas últimas décadas, enquanto a China enfrenta problemas de sobre capacidade e insuficiência de resíduos para alimentar suas plantas.

Os impactos sociais também entram nessa equação. Em locais onde sistemas de reciclagem dependem fortemente do trabalho dos catadores, a retirada de materiais recicláveis para abastecer incineradores pode reduzir renda, enfraquecer cadeias produtivas existentes e limitar oportunidades de inclusão social.

O Brasil possui alternativas mais alinhadas à sua vocação energética e industrial. A ampliação da reciclagem, da compostagem, da biodigestão e da produção de biogás e biometano permite reduzir emissões, gerar energia renovável e criar novas oportunidades econômicas a partir dos resíduos. Num contexto em que cadeias globais exigem cada vez mais conteúdo reciclado e menor pegada de carbono, ampliar a recuperação de materiais também significa ampliar competitividade industrial.

A União Europeia, por exemplo, vem ampliando exigências relacionadas ao conteúdo reciclado em diversos setores produtivos, enquanto investidores e empresas incorporam critérios ambientais cada vez mais rigorosos em suas cadeias de suprimento . Desperdiçar materiais recicláveis significa também abrir mão de oportunidades em mercados que tendem a valorizar cada vez mais a circularidade.

A agenda é igualmente estratégica do ponto de vista climático. O metano gerado pela decomposição de resíduos em aterros possui potencial de aquecimento cerca de 80 vezes superior ao do dióxido de carbono em um horizonte de 20 anos. Capturá-lo e transformá-lo em energia ou combustível renovável reduz emissões e substitui fontes fósseis.

Experiências brasileiras já apontam nessa direção. Projetos de compostagem, biodigestão e produção de biometano demonstram que resíduos podem deixar de ser tratados apenas como problema ambiental para se transformar em ativos econômicos. Estudos também indicam que a expansão da reciclagem, da compostagem e da inclusão produtiva dos catadores pode reduzir significativamente as emissões do setor.

O debate, portanto, não deveria se limitar à forma de eliminar aquilo que descartamos. A questão central é como recuperar o valor econômico, energético e climático dos materiais que ainda podem ser aproveitados.

A decisão não é apenas tecnológica. É uma escolha sobre como gerar valor .

O Brasil pode investir recursos escassos em uma infraestrutura que depende de resíduos para sobreviver ou em uma economia circular capaz de transformar resíduos em riqueza, emprego, inovação e competitividade. Em um país que ainda recupera tão pouco do que descarta, a pergunta permanece: faz sentido gastar bilhões para queimá-los?

Suely Araújo é coordenadora de Políticas Públicas do Observatório do Clima.
Victor Hugo Argentino é coordenador de Resíduos Sólidos do Instituto Pólis e membro da Aliança Resíduo Zero Brasil.

Link https://valor.globo.com/opiniao/coluna/residuos-destruir-valor-ou-criar-riqueza.ghtml

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