Por Agência CNT Transporte Atual
31/08/202615h52

por Fernanda Schwantes*
Desde 2009, a China é o principal parceiro comercial do Brasil. Nos últimos cinco anos, respondeu, em média, por 29,4% das exportações brasileiras (US$ 95,19 bilhões por ano), incluindo soja, minério de ferro, petróleo bruto, carne bovina e de aves e celulose. No mesmo período, 23,1% das importações do Brasil foram provenientes da China (US$ 59,22 bilhões), compreendendo equipamentos eletrônicos, máquinas industriais, produtos químicos, painéis solares, veículos elétricos e híbridos, semicondutores e bens de consumo e manufaturados em geral.
Em um cenário internacional marcado pelo aumento recente das tensões geopolíticas e do protecionismo comercial, reorganização das cadeias globais de produção e avanços nas agendas de transição energética e digital, a parceria econômica entre China e Brasil tem se intensificado. Além do comércio bilateral, as empresas chinesas vêm ampliando seus investimentos em setores estratégicos no país (e em outros países da América Latina), como energia elétrica, mineração, petróleo e gás, infraestrutura e logística, e telecomunicações.
Em 2025, o Brasil foi o principal destino dos investimentos chineses no mundo, respondendo por 10,9% do total investido pela China no exterior, segundo o Conselho Empresarial Brasil-China. Os investimentos de empresas chinesas no Brasil totalizaram US$ 6,1 bilhões, crescimento de 45% em relação a 2024, e o maior valor desde 2017.
O setor de eletricidade é o que mais tem recebido aportes, em projetos de geração, transmissão e distribuição de energia (US$ 36,5 bilhões entre 2007 e 2025, 43,6% do volume total). Os investimentos em mineração triplicaram em 2025, alcançando US$ 1,76 bilhão, o que reflete o interesse da China em minerais críticos, como cobre, níquel, ouro, grafite e terras raras. Entre 2007 e 2025, o setor recebeu US$ 6,75 bilhões. A crescente demanda chinesa por recursos minerais tem contribuído para o fortalecimento das relações com outros países da América Latina, como Chile, Peru e Argentina.
No segmento de infraestrutura, as empresas chinesas têm investimentos previstos de US$ 15,53 bilhões na América Latina, no período de 2021 a 2025, segundo dados do Inter-American Dialogue. Eles estão concentrados em construção de rodovias na Guiana (US$ 5,46 bilhões), renovação de trens, construção de linha de metrô e modernização de rodovias (via concessões) no Chile (US$ 4,06 bilhões) e duplicação de rodovia na Argentina (US$ 2,13 bilhões). No Peru, o complexo portuário de Chancay é liderado pela chinesa Cosco Shipping Company, e tem investimento total estimado em US$ 3,4 bilhões. No Brasil, a construção do Trem Intercidades São Paulo a Campinas e do Trem Intermetropolitano Jundiaí-Campinas foi concedida em 2024 a um consórcio liderado pela China Railway Construction Corporation, com investimento previsto de US$ 2,6 bilhões. Além disso, um trecho da Ferrovia Leste-Oeste (FIOL) está concedido à empresa chinesa.
A CNT tem defendido que a superação dos gargalos na infraestrutura de transporte no Brasil depende tanto do aumento do volume de investimentos públicos e privados como da qualidade do planejamento que orienta esses investimentos. O financiamento externo deve contribuir significativamente para a expansão da infraestrutura e da capacidade logística do Brasil e da América Latina. No entanto, a região deve planejar, regular e orientar esses investimentos de forma alinhada ao desenvolvimento de longo prazo, evitando assimetrias concorrenciais, concentração setorial e elevada dependência tecnológica ou de operação especializada, sobretudo em projetos de alta complexidade e áreas estratégicas, como as infraestruturas de transporte.
* Fernanda Schwantes é gerente executiva de Economia da CNT.
