Crescimento do mercado de dispositivos médicos exige que a logística hospitalar deixe de ser tratada como suporte e passe a ocupar posição estratégica na cadeia de saúde

Por Michel Goya

O debate sobre eficiência na saúde brasileira costuma girar em torno de hospitais, operadoras, indústria e incorporação de novas tecnologias assistenciais. Um elemento, no entanto, permanece pouco discutido, apesar de crítico para o resultado de qualquer procedimento cirúrgico: a logística que acontece antes de o paciente entrar na sala de cirurgia. 

Nenhum centro cirúrgico opera sem que milhares de processos ocorram de forma coordenada horas ou dias antes. Controle de estoques, rastreabilidade de dispositivos médicos, disponibilidade dos materiais corretos, cumprimento de exigências regulatórias e gestão de prazos são etapas invisíveis para quem está fora da operação, mas determinantes para a segurança do paciente. 

Essa lacuna de discussão ganha relevância à medida que o setor de dispositivos médicos se expande. Em 2025, o mercado brasileiro movimentou R$ 85,4 bilhões, alta de 13,9% em relação ao ano anterior, segundo o Relatório Setorial 2026 da Abimo (Associação Brasileira da Indústria de Dispositivos Médicos). Os procedimentos envolvendo órteses, próteses e materiais especiais (OPME) devem somar 144,92 milhões neste ciclo, avanço de 6,4%, conforme o índice T4 Health/ABIMED. O crescimento em volume e complexidade dos materiais utilizados tem pressionado hospitais e operadores a revisar modelos que, até recentemente, funcionavam de forma fragmentada. 

Essa pressão já aparece em pesquisas do setor. Um levantamento da PwC de 2025 mostrou que 58% dos executivos de saúde no Brasil relatam ganhos de eficiência com o uso de inteligência artificial generativa no supply chain hospitalar, sobretudo em previsão de demanda, gestão de fornecedores e monitoramento de estoques críticos. O dado indica uma mudança de prioridade: a tecnologia deixou de ser vista como diferencial competitivo e passou a ser tratada como condição básica de funcionamento. 

Atuo há anos na estruturação de operações logísticas voltadas a dispositivos médicos e materiais cirúrgicos, e essa transição é visível na prática diária. Modelos que tratam armazenagem, transporte e gestão de materiais como processos independentes têm dificuldade crescente em atender à velocidade exigida pelo setor. Quando esses fluxos são conectados em um único sistema de informação da cotação cirúrgica ao consumo de materiais em sala, passando pelo faturamento, o retrabalho diminui e a transparência aumenta para fabricantes, distribuidores e hospitais, elementos que passaram a ser cobrados com mais frequência pelos próprios contratantes. 

A incorporação de inteligência artificial a esses sistemas é o próximo estágio dessa transformação. Recursos capazes de ampliar a previsibilidade operacional, identificar riscos com antecedência e apoiar decisões logísticas tendem a se tornar padrão, não exceção, à medida que hospitais e operadoras buscam reduzir custos sem comprometer a segurança assistencial. A tecnologia não substitui a experiência das equipes envolvidas funciona como suporte para decisões tomadas em um ambiente onde cada minuto pode ser decisivo. 

O que esses números e essa experiência prática sugerem é uma mudança de perspectiva ainda em curso no setor: a logística hospitalar deixa de ser tratada como uma etapa operacional de retaguarda para assumir papel estratégico na cadeia de saúde. À medida que o mercado de dispositivos médicos segue em expansão, a pergunta que hospitais, operadoras e fornecedores precisarão responder não é apenas como reduzir custos, mas como reorganizar a gestão da informação para que a eficiência logística deixe de ser um problema recorrente e passe a ser um fator de previsibilidade para o sistema de saúde como um todo. 

Michel Goya, Head da Jamef Hospitalar e especialista em saúde. 

Sobre Michel Goya

Head da Unidade Hospitalar da Jamef Transportes desde março de 2026, Michel Goya possui uma trajetória executiva com mais e uma década voltada à logística com foco no setor de saúde, gestão de dispositivos médicos, incluindo Órteses, Próteses e Materiais Especiais (OPME), desenvolvimento de negócios e experiência do cliente. 

Na frente institucional, Michel é diretor de Relações Institucionais da Associação Brasileira de Startups de Saúde e Healthtechs (ABSS), mentor no InovaHC (Instituto de Tecnologia e Inovação do Hospital das Clínicas FM-USP) e foi conselheiro de empresas, como CasaMed e outras, contribuindo para a conexão entre inovação, empreendedorismo e assistência à saúde. Foi reconhecido entre os “100 Mais Influentes da Saúde” e traz formação executiva em gestão de negócios pela Harvard Business School, além de Marketing Management pela United International Business Schools.

LinkedIn: https://www.linkedin.com/in/michel-goya/


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Amanda Francisco
amanda.santos@tramaweb.com.br

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