Por Renato Zimmermann

Eu estive presencialmente na COP30, em Belém, e posso afirmar que uma das coisas que mais me incomoda depois daquele encontro histórico é perceber como uma parte da sociedade ficou com a impressão de que a Conferência foi um fracasso. Houve, sim, dificuldades, disputas, frustrações e muita expectativa que não se transformou imediatamente em decisões. Mas quem acompanhou de perto sabe que algumas sementes plantadas em Belém podem produzir consequências econômicas, ambientais e geopolíticas enormes. Uma delas, talvez a mais estratégica, é a Coalizão Aberta de Mercados Regulados de Carbono.

Pode parecer um assunto distante para quem não acompanha a agenda climática. Não é. Em termos simples, estamos falando da criação de regras que permitam aos países medir, contabilizar e atribuir valor econômico às emissões de gases de efeito estufa e às reduções ou remoções dessas emissões. Um crédito de carbono representa, em linhas gerais, uma tonelada de gases de efeito estufa reduzida ou removida de acordo com regras e metodologias reconhecidas. O grande desafio é garantir que esse crédito seja confiável, mensurável e tenha integridade ambiental.

É justamente aí que está a dimensão histórica da Coalizão. O documento oficial fala em cooperação sobre monitoramento, relato e verificação, metodologias, contabilidade de carbono, regras para créditos de alta integridade e, no longo prazo, interoperabilidade entre os mercados regulados. Na prática, significa começar a construir uma linguagem comum para que diferentes mercados possam conversar entre si.

E vejam o tamanho dessa oportunidade. Na COP30, a iniciativa brasileira foi endossada por China, União Europeia, Reino Unido, Canadá, Chile, Alemanha, México, Armênia, Zâmbia e França, além do Brasil. Esses países representam cerca de 20% das emissões globais. Não estamos falando de uma ideia acadêmica, mas da construção de uma infraestrutura internacional de mercado.

Tenho acompanhado com especial atenção o trabalho da secretária extraordinária do Mercado de Carbono, Cristina Reis, e da subsecretária de Regulação e Metodologias, Ana Paula Cavalcante, além de toda a equipe envolvida nessa construção. Entre 14 e 18 de setembro, uma delegação brasileira estará em Wuhan, na China, para a segunda reunião de alto nível da Coalizão, dando continuidade às tratativas entre Brasil e China. É um passo concreto para transformar aquilo que nasceu em Belém em uma agenda permanente de trabalho.

E aqui está, na minha visão, uma das maiores oportunidades econômicas já colocadas diante do Brasil.

Já fomos grandes exportadores de pau-brasil, ouro, minérios e commodities agrícolas. Agora podemos abrir uma nova fronteira: a exportação de ativos ambientais. O Brasil possui florestas, biodiversidade, capacidade de restauração, agricultura regenerativa, energia renovável e enormes possibilidades de soluções baseadas na natureza. Se conseguirmos transformar esses atributos em ativos ambientais de alta integridade, poderemos atrair capital internacional para projetos que, ao mesmo tempo, protejam o meio ambiente e gerem renda.

A China, por sua vez, possui um mercado regulado de carbono em expansão e enormes necessidades de descarbonização de sua economia. A União Europeia também possui um sistema consolidado de precificação de carbono. O Brasil começa a estruturar seu próprio mercado regulado. A convergência desses sistemas abre uma janela extraordinária: China compradora, Brasil potencialmente fornecedor de ativos ambientais. É uma lógica que conhecemos muito bem no comércio de commodities, mas que agora pode ganhar uma dimensão completamente nova na economia verde.

Como defensor do planeta, não vejo isso apenas como uma oportunidade de negócio. Vejo como uma possibilidade de fazer o capital trabalhar a favor da conservação. Se proteger uma floresta, restaurar uma área degradada ou desenvolver uma solução de baixo carbono passa a ter valor econômico verificável, criamos um incentivo concreto para que conservar deixe de ser visto apenas como custo e passe a ser reconhecido também como ativo.

Mas isso só acontecerá se houver rigor. Metodologias confiáveis, transparência, rastreabilidade, mensuração, verificação e integridade ambiental serão indispensáveis. Sem credibilidade, o crédito de carbono perde valor e o mercado perde sua razão de existir.

Na COP31, em Antalya, na Turquia, entre 9 e 20 de novembro, certamente chegaremos com essa agenda mais madura.

Por isso, quando alguém me pergunta se a COP30 foi um fracasso, eu penso em tudo isso. Talvez ainda estejamos enxergando apenas o começo.


E fico com uma pergunta: será que sou apenas eu que estou enxergando o tamanho dessa oportunidade?

* Renato Zimmermann é desenvolvedor de negócios sustentáveis e ativista da transição energética (Contato: rena.zimm@gmail.com)

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