
Poucas pessoas conhecem tão de perto os diferentes lados da transformação da infraestrutura brasileira quanto Natália Marcassa. Economista de formação, nascida em Barretos, cidade de São Paulo, ela construiu uma trajetória marcada por posições estratégicas em algumas das principais instituições responsáveis por pensar, regular e viabilizar o desenvolvimento logístico do país. Passou pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), pelo Ministério dos Transportes, pela Casa Civil da Presidência da República, liderou a Associação dos Investidores em Infraestrutura Multissetorial (Moveinfra) e também atuou como consultora do IFC, braço do Banco Mundial, em Washington. Desde janeiro de 2025, está à frente da Vice-Presidência de Regulação e Relações Institucionais da Rumo.
Essa experiência, que reúne a perspectiva de quem esteve dentro do governo e de quem hoje representa uma das maiores empresas ferroviárias do Brasil, ajuda a explicar a visão ampla que Natália leva para os desafios do setor. Se no serviço público acompanhou de perto a construção de políticas, projetos e marcos regulatórios, agora, no setor privado, sente diariamente o peso das decisões que envolvem investimentos bilionários, contratos de longo prazo e a necessidade de transformar planejamento em operação.
Mas, por trás da executiva que transita entre regulação, infraestrutura e grandes decisões, existe também uma mulher que encontra nos pequenos espaços da vida cotidiana outras formas de olhar o mundo. Casada e mãe de Duda, de 11 anos, e Henrique, de nove, Natália divide a rotina intensa com a família e com a companhia de uma cachorrinha que é seu xodó. Nas horas livres, a literatura e a filosofia ocupam um lugar especial — interesses que, de certa maneira, dialogam com uma trajetória profissional construída também a partir da curiosidade, da reflexão e da capacidade de enxergar diferentes perspectivas.
É justamente essa combinação entre experiência, olhar estratégico e interesse genuíno pelo que move o país que aparece quando Natália fala sobre o futuro das ferrovias. Para ela, não basta ampliar quilômetros de trilhos: é preciso criar um ambiente capaz de atrair capital, garantir segurança jurídica, aumentar a eficiência dos ativos existentes e conectar cada vez melhor produtores, indústrias, terminais e portos. Uma equação complexa, mas indispensável para um país de dimensões continentais e com vocação exportadora.
E há entusiasmo em sua fala quando o assunto é a transformação que já está em curso. Trens mais longos e pesados, inteligência artificial, condução semiautônoma, digitalização, eficiência energética e novas soluções logísticas fazem parte de uma operação que precisa estar preparada não apenas para transportar mais, mas para transportar melhor. Ao mesmo tempo, a agenda de descarbonização amplia o papel estratégico da ferrovia como alternativa competitiva e ambientalmente mais eficiente para o transporte de cargas de longa distância.
Nesta conversa com a Revista Ferroviária, Natália percorre esse cenário de ponta a ponta. Fala sobre os próximos cinco anos da Rumo, a Ferrovia Estadual de Mato Grosso, a Malha Paulista, a Malha Central e o futuro da Malha Sul. Aborda a relação entre ferrovia e portos, a diversificação das cargas, o papel dos terminais intermodais e os avanços tecnológicos que já começam a transformar a rotina das operações. Também discute um tema que ultrapassa os negócios: a preservação da memória ferroviária e a importância de manter viva a história de um setor que ajudou a construir o Brasil.
Mais do que uma fotografia do momento atual, a entrevista revela a visão de quem acredita que o próximo salto da ferrovia brasileira dependerá da capacidade de unir investimento, planejamento, inovação e estabilidade. Para Natália, os trilhos do futuro não serão construídos apenas com aço e concreto, mas com decisões capazes de criar um ambiente em que grandes projetos possam sair do papel, ganhar escala e ajudar a mover o país.
