Por Renato Zimmermann
Durante muito tempo, talvez mais do que eu mesmo tenha percebido, procurei entender onde eu me encaixava. Em algum momento da vida, descobri que as pessoas gostam de saber de que lado estamos. Capitalista ou socialista. Esquerda ou direita. Conservador ou progressista. Mercado ou Estado. Como se fosse necessário escolher uma caixa para então receber autorização para pensar.
Eu nunca me senti completamente confortável com isso. Já fui chamado, ou interpretado, de muitas maneiras. Algumas correspondiam ao que penso; outras, apenas a uma parte do que penso. E algumas vezes uma frase ou uma ideia minha ganhou uma interpretação que não correspondia à intenção com que foi construída. Descobri que determinadas interpretações podem abrir portas, enquanto outras podem fechá-las.
Com o tempo, porém, comecei a compreender que talvez isso faça parte da condição humana: temos uma enorme necessidade de classificar aquilo que não compreendemos inteiramente.
Hoje, eu me apresentaria, antes de qualquer outra definição, como um humanista. Não no sentido de alguém que acredita possuir respostas para os grandes problemas da humanidade, mas como alguém profundamente interessado no ser humano, na sua consciência e na nossa capacidade, enquanto civilização, de evoluir.
Reconheço no capitalismo a força da iniciativa, do empreendedorismo, da inovação e da capacidade de transformar ideias em realidade. Mas não acredito que tudo aquilo que pode ser transformado em valor econômico deva necessariamente ter seu valor definido pelo mercado.
Também reconheço no pensamento socialista uma preocupação legítima com justiça, dignidade, igualdade de oportunidades e responsabilidade coletiva. Mas não acredito que a concentração das decisões nas estruturas do Estado seja suficiente para produzir liberdade, criatividade ou uma sociedade mais consciente.
Não preciso escolher um desses mundos para reconhecer aquilo que considero verdadeiro em cada um deles.
Talvez essa seja uma das coisas que aprendi: uma pessoa não precisa herdar uma ideologia inteira para reconhecer uma boa ideia. Acredito na liberdade, mas também na responsabilidade. Acredito no empreendedorismo, mas não acredito que o lucro possa ser o único indicador de sucesso. Acredito na tecnologia, mas não acredito que toda inovação represente necessariamente evolução. Acredito no desenvolvimento, mas não aceito que desenvolvimento signifique destruir aquilo que torna a própria vida possível.
E acredito profundamente que precisamos ampliar nossa consciência. Quando penso em energia, por exemplo, não consigo enxergá-la apenas como uma mercadoria. Energia é desenvolvimento, liberdade, qualidade de vida, oportunidade e também transformação ambiental. Talvez eu veja na própria transformação do sistema energético uma metáfora para aquilo que precisamos fazer como sociedade: descentralizar certezas e permitir que diferentes soluções possam participar da construção do futuro.
Não quero substituir uma verdade absoluta por outra. Quero fazer perguntas. Talvez essa seja a responsabilidade que assumi, ainda que nunca tenha formulado isso dessa maneira: se tenho alguma possibilidade de alcançar pessoas através da palavra, não quero dizer a elas o que devem pensar. Quero provocar o pensamento. Quero que uma ideia minha possa gerar uma pergunta em alguém; que uma pergunta possa gerar uma dúvida; e que uma dúvida possa abrir espaço para uma nova compreensão. Não me considero dono de uma verdade. Considero-me alguém em permanente construção.
E talvez seja justamente por isso que nem sempre sou compreendido. Já aprendi que não posso controlar a interpretação que o outro fará das minhas palavras. Posso apenas tentar ser honesto com aquilo que penso, responsável com aquilo que digo e coerente com aquilo que faço.
Hoje, quando me perguntam de que lado estou, talvez a resposta mais sincera seja: estou do lado daquilo que acredito que pode tornar o ser humano mais consciente de si mesmo, do outro e do planeta que habita. Isso não cabe facilmente em uma caixa. E talvez eu tenha finalmente compreendido que esse é o ponto. Durante muito tempo, procurei descobrir onde eu cabia. Hoje percebo que talvez a minha tarefa nunca tenha sido encontrar uma caixa, mas compreender por que precisamos tanto delas. Talvez a maturidade esteja justamente em aceitar que podemos carregar dúvidas, contradições e diferentes perspectivas sem precisar transformá-las imediatamente em uma identidade.
É assim que escolho caminhar neste mundo: sem a pretensão de conduzir ninguém, mas com a disposição de provocar perguntas; sem a certeza de possuir todas as respostas, mas com a responsabilidade de continuar procurando; e, sobretudo, com a esperança de que a consciência humana ainda possa evoluir.
Se alguma palavra minha alcançar alguém e fizer essa pessoa parar por um instante para pensar, talvez já tenha valido a pena. Porque, no fim, talvez a nossa maior responsabilidade não seja convencer o mundo de que estamos certos. Talvez seja ajudar o mundo a pensar.
* Renato Zimmermann é desenvolvedor de negócios sustentáveis e ativista da transição energética (Contato: rena.zimm@gmail.com)
