As exportações chinesas de aço para a região cresceram 233% entre 2010 e 2024. Jorge Guajardo analisa a origem dessa expansão e alerta para suas consequências para o emprego e a capacidade industrial.

A expansão das exportações chinesas aumenta a pressão sobre uma indústria latino-americana que perdeu participação nas economias da região. O desafio atinge tanto a produção e o emprego quanto as redes de fornecedores e os conhecimentos que sustentam as cadeias de valor.

Jorge Guajardo, ex-embaixador do México na China e especialista em geopolítica e comércio, relaciona a origem desse fenômeno à transformação urbana e industrial do país asiático. Durante décadas, a construção de cidades e infraestrutura impulsionou uma enorme demanda por aço, cimento, vidro e outros insumos, que a China atendeu por meio do desenvolvimento de sua própria indústria.

Para ilustrar essa escala, Guajardo destaca que, entre 2000 e 2020, a China utilizou mais aço do que os Estados Unidos em um século. Segundo explica, com a desaceleração da demanda que impulsionou essa expansão, permanece uma capacidade instalada que busca direcionar sua produção para outros mercados.

A China concentra cerca de 52% da produção mundial de aço bruto, com 960,8 milhões de toneladas (Mt) em 2025. No entanto, naquele ano, sua produção superou a demanda interna em 131,4 Mt: um excedente equivalente, aproximadamente, ao consumo anual dos Estados Unidos, México e Canadá juntos. Entre 2010 e 2024, suas exportações de aço aumentaram 181% globalmente e 233% para a América Latina.

Desigualdade de condições — A concorrência não ocorre em igualdade de condições. O modelo industrial chinês é respaldado por subsídios e apoios estatais que incidem sobre custos de produção, como energia e financiamento. Isso permite colocar produtos nos mercados internacionais a preços artificialmente baixos, difíceis de igualar por produtores que operam em condições normais de mercado. Segundo o FMI, o apoio industrial chinês equivale a 4,4% de seu PIB. Para dimensionar essa magnitude, Guajardo a compara à soma dos orçamentos anuais completos do México, da Colômbia e da Argentina para 2026.

PIB manufatureiro na América Latina em baixa — Na análise de Guajardo, o endurecimento das medidas comerciais nos Estados Unidos, na Europa e em outros mercados favorece a busca por destinos alternativos e aumenta a exposição da América Latina. Essa pressão se soma a uma deterioração de longo prazo da participação da indústria de transformação: o PIB manufatureiro na América Latina caiu quatro pontos percentuais (p.p.), ao comparar o período de 2010–2023 com 1990–1999, segundo dados do Banco Mundial e da Cepal.

Guajardo alerta que a desindustrialização pode comprometer ecossistemas produtivos inteiros. O fechamento de uma fábrica também afeta fornecedores, serviços especializados e trabalhadores cujos conhecimentos podem ser difíceis de recuperar. Diante desse risco, propõe monitorar as importações, antecipar desvios de comércio e combinar instrumentos de defesa comercial com maior agilidade e coordenação.

—Garantir condições justas de concorrência é fundamental para sustentar o emprego, o investimento e o desenvolvimento industrial da América Latina. Quando uma fábrica fecha, o impacto atinge toda a sua cadeia de valor e as comunidades que dependem dela. Por isso, precisamos de uma resposta mais rápida e coordenada diante das práticas desleais —afirmou Ezequiel Tavernelli, diretor -executivo da Associação Latino-Americana do Aço (Alacero).

Alacero — A Associação Latino-Americana do Aço é uma entidade civil sem fins lucrativos que reúne a cadeia de valor do aço da América Latina com o objetivo de promover empregos industriais de qualidade, a integração regional, a inovação tecnológica, o cuidado com o meio ambiente, a excelência em recursos humanos, a segurança no trabalho, o desenvolvimento integral de suas comunidades e a responsabilidade empresarial.

Fundada em 1959, é integrada por mais de 50 empresas produtoras e afins. A indústria do aço da América Latina gera 1,4 milhão de empregos diretos e indiretos e produz 55,5 milhões de toneladas de aço bruto por ano. A Alacero é reconhecida como Organismo Consultivo Especial pelas Nações Unidas e representa o aço da América Latina perante organismos internacionais como worldsteel, OCDE, Agência Internacional de Energia

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