Com custo de geração entre os mais baixos do mundo, país vira destino de investimentos tecnológicos que chegam antes de diretrizes federais de licenciamento

Giovanna Reis

Sancionado por Lula nesta terça, 15, o Redata renuncia R$ 5,2 bilhões neste ano para "garantir soberania digital", segundo o governo

Sancionado por Lula nesta terça, 15, o Redata renuncia R$ 5,2 bilhões neste ano para “garantir soberania digital”, segundo o governoFoto : DC Studio / Magnific / Divulgação / CP

Cada pergunta feita a uma ferramenta de inteligência artificial aciona máquinas que funcionam sem parar, em prédios que podem estar a milhares de quilômetros de quem digitou, localizados em data centers. O modelo de instalação existe há décadas, mas sofre com uma mudança de escala que agora mira o Brasil como próximo grande destino para o mercado.

Nesta terça-feira, 15, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou o Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter (Redata), que cria incentivos fiscais para a implantação, modernização e ampliação de centros de processamento de dados no Brasil. A nova legislação concede benefícios sobre a aquisição de equipamentos de tecnologia da informação destinados a esses empreendimentos e estabelece contrapartidas relacionadas a pesquisa, desenvolvimento, eficiência hídrica e uso de energia renovável ou de baixa emissão.

O governo federal afirma que a medida busca estimular investimentos, desenvolver cadeias tecnológicas e “garantir soberania digital” em áreas como computação em nuvem e inteligência artificial. A estimativa de renúncia fiscal é de R$ 5,2 bilhões em 2026 e R$ 1 bilhão nos dois anos seguintes. Em contrapartida aos incentivos, as empresas beneficiadas terão de investir 2% do valor dos produtos adquiridos em projetos de pesquisa, desenvolvimento e inovação e disponibilizar ao mercado nacional ao menos 10% da capacidade de processamento, armazenagem e tratamento de dados.

Para além do discurso de desenvolvimento e inovação, o país entrou na rota dessas instalações por um motivo simples: energia. Além de figurar entre os maiores produtores de fontes renováveis do mundo, o Brasil aparece entre os países com menor custo de geração, segundo o relatório Renewable Power Generation Costs, da Agência Internacional para as Energias Renováveis (Irena).

A nova lei também estabelece critérios ambientais: os empreendimentos deverão atender a indicadores de sustentabilidade, suprir toda a demanda de energia elétrica por meio de contratos de fornecimento ou autoprodução a partir de fontes limpas ou renováveis e cumprir um índice máximo de eficiência hídrica para o resfriamento dos equipamentos.

É justamente a disponibilidade dessa matriz limpa, construída e apresentada por décadas como ativo ambiental, que agora se torna argumento de venda na disputa por empreendimentos que consomem eletricidade em escala industrial.

O que muda com a IA generativa

Grandes centros de processamento de dados não são novidade, mas passam por uma atualização de carga exigida em seus sistemas. Vandersilvio da Silva, professor de Ciência da Computação e Engenharia na Universidade Feevale, explica que os racks de servidores de um data center convencional consumiam de 5 a 10 quilowatts. Com inteligência artificial, o mesmo equipamento chega a 100 quilowatts.

“Já existia um crescimento normal, tanto de exigência de processamento quanto de memória. Com a IA, isso explodiu”, afirma.

O salto tem nome e está presente na maioria das plataformas que acessamos diariamente. A tecnologia que popularizou a IA é a generativa, a mesma que responde perguntas, escreve textos e produz imagens. Casualmente, ela também é a mais cara de sustentar.

Para Dalvan Griebler, professor da Escola Politécnica da PUCRS e coordenador do Centro de Inteligência Artificial e Ciência de Dados da universidade, a complexidade do processo e do alto consumo de energia é explicada em duas etapas. Primeiro vem o treinamento, quando o modelo recebe grandes volumes de dados e executa sequências de operações matemáticas. Depois vem a inferência, que acontece toda vez que alguém digita algo na tela.

“São milhares de chamadas para esses modelos já treinados. Cada um consome muita memória RAM e muito processamento”, diz o pesquisador. Griebler destaca que modelos generativos de última geração foram treinados com praticamente todo o conteúdo disponível na internet, e por isso exigem infraestrutura maior do que sistemas de IA usados em análise de imagem médica ou no varejo, por exemplo, que cumprem funções específicas com custo computacional menor.

Recursos para manter a estrutura rodando

Toda a energia envolvida no uso de sistemas gera calor. Durante anos, o ar-condicionado respondeu por cerca de 40% do consumo elétrico de um data center, segundo Vandersilvio. Com o aumento de temperatura dos servidores dedicados à IA, o ar deixou de dar conta. A solução atual passa por refrigeração líquida, com fluido circulando diretamente sobre os processadores ou com o servidor inteiro imerso.

Sobre o destino dessa água, as fontes divergem. Griebler afirma que a tecnologia atual reaproveita praticamente todo o volume, com perdas pouco significativas. Vandersilvio considera o reaproveitamento economicamente razoável, mas afirma desconhecer as proporções entre operadores que reciclam e os que descartam.

Já Haide Maria Hupffer, doutora em Direito e professora do Programa de Pós-Graduação em Qualidade Ambiental da Feevale, parte de outro ângulo. Para ela, a discussão sobre eficiência não resolve o problema de escala.

“Quanto mais energia tu vai consumir, mais água tu vai precisar para refrigerar”, resume.

Há ainda um multiplicador pouco citado nos anúncios de investimento. Data centers operam 24 horas por dia, sete dias por semana, e a manutenção ocorre com o sistema em funcionamento. Isso exige duplicar quase tudo: servidores, cabos de fibra óptica, provedores de acesso, ar-condicionado, subestações de energia, além de nobreaks e geradores a diesel.

“Toda vez que se fala em redundância e alta disponibilidade, significa que às vezes tu gasta o dobro”, diz Vandersilvio.

A conta que chegou aos Estados Unidos

O mercado que o Brasil quer atrair já produziu efeitos visíveis por onde passou. Em Mansfield, no estado da Geórgia, a aposentada Beverly Morris vive a menos de 400 metros de um data center da Meta. Em reportagem da BBC, ela relatou que o poço que abastece sua casa passou a acumular sedimento depois do início das obras, e que hoje carrega água em baldes para dar descarga. “Tenho medo de beber a água”, disse à emissora britânica.

A Meta contestou a relação e informou ter encomendado um estudo independente, que concluiu não haver efeito adverso sobre as condições do lençol freático na região.

O impacto também aparece na fatura de quem nunca pediu a obra. Reportagens da CNN mostram que consumidores de Maryland e do Distrito de Columbia estão entre os primeiros do país a sentir o avanço dos data centers na conta de luz residencial, em boa parte por causa da antecipação de demanda futura pelo setor elétrico. Em Ohio, reguladores criaram uma categoria específica de consumidor para essas instalações, obrigando-as a pagar mais pela energia e pelos equipamentos.

Ainda segundo análise da Bloomberg, os preços atacadistas da eletricidade chegaram a ficar até 267% maiores em áreas próximas a concentrações significativas de data centers, na comparação entre 2020 e 2025. O dado se refere ao mercado atacadista e não significa, por si só, aumento de 267% na conta residencial.

O que o Brasil aprova antes de regular

Hupffer ressalta que o incentivo fiscal foi aprovado enquanto ainda existem lacunas nas diretrizes ambientais específicas para o setor. Ela cita a moção 147 do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) que manifesta urgente preocupação com a política de atração desses empreendimentos e defende critérios próprios de licenciamento.

A regulamentação dos data centers ainda avança de forma desigual pelo país. Alguns estados já estabeleceram regras específicas para o enquadramento ambiental ou para a implantação desses empreendimentos, enquanto outros discutem novas normas. No Rio Grande do Sul, o Conselho Estadual do Meio Ambiente já incluiu os data centers entre as atividades sujeitas a licenciamento ambiental, e a Assembleia Legislativa discute uma política estadual de infraestrutura digital com critérios específicos para o setor.

O temor é que os data centers sejam enquadrados como empreendimentos estratégicos e entrem no rito simplificado previsto na nova lei de licenciamento ambiental.

Casos recentes reforçam o ponto. Em Belém, conforme explica a professora, o Ministério Público instaurou inquérito civil sobre um projeto de grande porte porque as comunidades vizinhas não foram ouvidas.

Ela também lembra de um passivo que raramente entra no debate energético sobre os resíduos sólidos gerados por esse tipo de infraestrutura devido ao curto ciclo de obsolescência dos equipamentos.

Ao menos dois projetos avançam neste momento em território gaúcho. Anunciado como o maior complexo de infraestrutura digital da América Latina, Eldorado do Sul será sede da Scala AI City, também chamada de “Cidade de Data Centers”, projeto que pode chegar a 4,75 GW de capacidade em operação plena. A cifra supera a usina de Jirau, no rio Madeira, que figura como a quarta maior hidrelétrica do país, com 3,7 GW de capacidade.

Município foi uma das regiões mais atingidas pelas enchentes de maio de 2024 | Foto: Leandro Maciel

Em 2025, uma reportagem do Correio do Povo registrou que a empresa ainda não havia apresentado à Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam) o detalhamento técnico exigido para a abertura formal do processo.

Agora, segundo a Fepam, o processo de licenciamento ambiental do projeto foi protocolado em 1º de junho de 2026 e está em avaliação pelo órgão. Para dar continuidade à análise, a Fundação solicitou ao empreendedor esclarecimentos e informações complementares. O processo segue em análise técnica.

Vandersilvio da Silva cita ainda um segundo empreendimento no estado, da gaúcha Parks, fabricante de equipamentos de telecomunicações, em Cachoeirinha. Em julho, a empresa anunciou um investimento de R$ 500 milhões para a implantação de um data center Tier III no município, segundo informações publicadas pelo Jornal do Comércio.

“Hospedar não é desenvolver”

Resta a pergunta sobre o que o país ganha em propriedade intelectual, que Griebler responde com uma comparação de imóvel.

“O data center é infraestrutura. É como se eu estivesse alugando um apartamento”, diz. O modelo se chama colocation facilities: empresas como Google e Microsoft ocupam o espaço para instalar seus próprios servidores e rodar suas aplicações.

“O que vai evoluir intelectualmente é investir em pesquisa”, enfatiza.

Ele vê ganho indireto na posição de negociação. Um país que abriga infraestrutura crítica de computação passa a ter peso diferente em discussões comerciais e políticas. A condição, diz, é transformar a instalação em ecossistema de inovação e pesquisa, em vez de apenas alugar território.

Vandersilvio chega à conclusão parecida pelo lado da energia: “vamos gerar energia para um data center funcionar aqui e talvez ele esteja sendo usado por outros países”. Pela lei do Redata, porém, os empreendimentos beneficiados deverão disponibilizar ao mercado interno pelo menos 10% da capacidade de processamento, armazenagem e tratamento de dados.

Ela chama o arranjo de colonialismo digital. “Antigamente eles vinham aqui, tiravam todo nosso ouro. Hoje é de dados”, lamenta.

Antes da licença

Griebler pede cautela com o tom do debate. “Tem que tomar cuidado que existe muito alarmismo”, afirma, lembrando que pesquisadores trabalham para criar modelos menos custosos e que a engenharia de refrigeração evolui rápido.

Hupffer não discorda da utilidade da tecnologia, e sim do método de implantação. Para ela, o Brasil pode receber os empreendimentos desde que a autorização venha depois de três etapas:
➡️ reunião com todas as comunidades locais,
➡️ licenciamento ambiental que estude os impactos de forma completa, e
➡️ exigência de metas de eficiência energética e hídrica como contrapartida.

“Nós precisamos [da tecnologia], só que nós temos que dar segurança para as gerações futuras”, finaliza.

https://www.correiodopovo.com.br/jornal-com-tecnologia/por-que-a-energia-brasileira-atraiu-a-corrida-bilionaria-dos-data-centers-1.1748521

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