Os impactos de um sinistro de trânsito vão muito além do ponto onde a ocorrência acontece. Hospitais, Sistema Único de Saúde (SUS), Previdência Social, famílias e empresas também absorvem parte das consequências. Além das vidas perdidas, há custos econômicos relacionados a atendimentos médicos, afastamentos, danos materiais e perda de produtividade.

Um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) estima que os sinistros de trânsito custam cerca de R$ 50 bilhões por ano ao Brasil. Considerando despesas hospitalares, perdas de produção, danos materiais e custos institucionais, cada ocorrência representa, em média, R$ 261.689 para a sociedade. Quando há uma morte, o custo médio sobe para R$ 664.821.

Investir em prevenção pode reduzir gastos públicos

Diante desses números, a infraestrutura viária segura deixa de ser apenas uma questão de mobilidade e passa a ter também impacto sobre as contas públicas.

Um levantamento realizado pela Imtraff Mobilidade e Engenharia, sob coordenação do doutor em Engenharia de Transportes Frederico Rodrigues, em parceria com o Observatório Nacional de Segurança Viária, avaliou os possíveis efeitos da adoção de dispositivos de segurança de baixo custo nas rodovias brasileiras.

Segundo a estimativa, a instalação direcionada de estruturas como postes flexíveis, sistemas de contenção lateral e sonorizadores poderia evitar mais de 50 mil mortes e 600 mil feridos. O estudo também calcula uma economia potencial de até R$ 90,3 bilhões aos cofres públicos em cinco anos.

As projeções dependem de premissas relacionadas aos custos, à extensão das intervenções e à eficiência dos dispositivos. Ainda assim, os resultados indicam o potencial econômico de políticas de prevenção de acidentes de trânsito.

Segurança rodoviária vai além da qualidade do asfalto

A condição do pavimento é um componente importante da segurança e da eficiência das rodovias. Nas estradas sob administração pública, 64,4% apresentam algum tipo de problema no pavimento, de acordo com os dados citados no levantamento.

Essas condições podem elevar em até 35,8% os custos operacionais dos veículos. O impacto também aparece no consumo de combustível: estima-se um desperdício anual de R$ 7,2 bilhões decorrente da utilização adicional de aproximadamente 1,2 bilhão de litros de diesel.

Mas uma rodovia segura precisa oferecer mais do que pavimento em boas condições.

A infraestrutura deve ajudar o motorista a identificar riscos, organizar os fluxos, evitar saídas de pista e reduzir as consequências de eventuais erros de condução. Elementos de segurança podem fazer com que uma distração ou perda momentânea de controle não resulte necessariamente em uma ocorrência grave.

Saídas de pista e colisões frontais exigem atenção

Os dados sobre ocorrências nas rodovias brasileiras mostram a dimensão do problema.

Em 2025, a Polícia Rodoviária Federal registrou 72.483 sinistros e 6.044 mortes nas rodovias federais.

A Pesquisa CNT Rodovias identificou 23.042 ocorrências relacionadas a saídas de pista e situações decorrentes desse tipo de evento, como capotamentos, tombamentos e colisões contra objetos. Outros 4.739 registros foram classificados como colisões frontais.

Levantamento da Fundação Dom Cabral aponta ainda que o número de ocorrências nas rodovias federais aumentou 9% entre 2018 e 2024. As pistas simples concentraram 52,38% dos registros.

Entre os diferentes tipos de colisão analisados, a colisão frontal apresentou a maior participação na taxa de severidade, com 18,33%.

Dados podem orientar investimentos em segurança viária

Os números não devem ser analisados apenas como balanços anuais. Eles também podem servir como base para definir onde e como aplicar recursos públicos.

A identificação de trechos críticos, dos tipos de sinistros mais recorrentes e das condições que aumentam a gravidade das ocorrências permite direcionar intervenções para pontos com maior potencial de redução de acidentes e mortes.

Um planejamento baseado em evidências envolve integração de bases de dados, definição de prioridades, acompanhamento dos resultados e inclusão da segurança viária nas decisões de orçamento, concessão, manutenção e fiscalização.

A lógica é substituir intervenções genéricas por ações direcionadas aos problemas identificados em cada trecho.

Prevenção também reduz pressão sobre saúde e Previdência

Os recursos públicos são disputados por diferentes áreas, como saúde, educação, Previdência Social, infraestrutura e proteção social. Nesse cenário, investimentos preventivos podem produzir efeitos que ultrapassam o setor diretamente beneficiado.

A prevenção de um sinistro grave pode significar evitar uma morte, uma internação hospitalar ou um longo processo de reabilitação. Também pode reduzir afastamentos previdenciários, preservar a renda familiar e manter um trabalhador em atividade.

Dessa forma, investimentos bem direcionados em infraestrutura rodoviária também podem contribuir para reduzir despesas futuras em saúde e proteção social.

Desafio está em definir prioridades

A discussão sobre segurança no trânsito não envolve apenas a disponibilidade de recursos. Também passa pela capacidade de estabelecer prioridades e direcionar investimentos para medidas que apresentem resultados concretos.

Reduzir a ocorrência e a gravidade dos sinistros significa atacar custos que atualmente recaem sobre o poder público, empresas, famílias e toda a sociedade.

A prevenção, portanto, pode representar não apenas uma estratégia para reduzir despesas futuras, mas principalmente uma política voltada à preservação de vidas.

FONTE: CNN Brasil
TEXTO: Redação
IMAGEM: Divulgação

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