Com mais de duas décadas de atuação no setor, Márcio Pinheiro ajudou a desenvolver uma estrutura capaz de levar gás natural e biometano a indústrias de cinco estados brasileiros

Com mais de duas décadas de atuação no setor, Márcio Pinheiro ajudou a desenvolver uma estrutura capaz de levar gás natural e biometano a indústrias de cinco estados brasileiros

O Brasil produz gás natural, possui reservas relevantes e prepara novos projetos de infraestrutura. Ainda assim, muitas indústrias permanecem distantes das redes de distribuição e dos gasodutos que transportam o combustível. Foi diante dessa distância entre a oferta existente e a dificuldade de fazê-la chegar ao consumidor que Márcio Pinheiro construiu parte de sua trajetória empresarial.

Com mais de 20 anos de experiência nos mercados de energia, combustíveis, infraestrutura e logística, o empresário participou da criação e do desenvolvimento da Logás, companhia especializada no fornecimento de gás natural comprimido, gás natural liquefeito e biometano para consumidores localizados fora da rede convencional.

Atualmente, a empresa mantém operações em Minas Gerais, Espírito Santo, Mato Grosso do Sul, São Paulo e Mato Grosso. Suas oito bases estão localizadas em Betim, Barbacena, Ipatinga, Poços de Caldas, Linhares, Campo Grande, Ribeirão Preto e Cuiabá.

A estrutura possui capacidade de compressão de aproximadamente 300 mil metros cúbicos por dia e registra volume anual de vendas próximo de 20 milhões de metros cúbicos. A operação reúne 52 carretas, 140 cestas para transporte e armazenamento e 14 cavalos mecânicos.

Parte dos veículos utiliza o próprio gás natural como combustível. A empresa também adotou carretas com cilindros de fibra de carbono, capazes de transportar até 10,5 mil metros cúbicos de gás natural comprimido.

Na prática, essa estrutura funciona como um gasoduto virtual. O gás é comprimido ou liquefeito em uma base, transportado por carretas especiais e entregue diretamente na unidade consumidora. No destino, equipamentos próprios realizam a descompressão ou regaseificação para que o combustível seja utilizado nos processos industriais.

“A indústria não pode esperar dez ou quinze anos até que um gasoduto chegue à sua região. É preciso criar soluções capazes de conectar oferta e consumo de maneira segura e economicamente viável. Foi essa necessidade que enxergamos no mercado”, afirma Márcio Pinheiro.

A estrada como parte da infraestrutura energética

O modelo permite atender consumidores localizados em regiões nas quais a construção de um gasoduto convencional ainda não encontra escala econômica. Também pode funcionar como uma primeira etapa para o desenvolvimento de novos mercados.

Quando uma região passa a concentrar empresas utilizando gás por transporte rodoviário, o volume reunido pode ajudar a justificar, no futuro, a implantação de uma rede permanente. O gasoduto virtual prepara a demanda enquanto a infraestrutura física não chega.

Esse abastecimento exige mais do que o transporte do produto. A operação envolve planejamento de rotas, controle de pressão, gestão de estoque, equipamentos instalados dentro das unidades consumidoras e capacidade de garantir regularidade ao fornecimento.

A Logás utiliza telemetria e sistemas de monitoramento durante 24 horas para acompanhar veículos, consumo e níveis de estoque. O objetivo é antecipar a necessidade de reposição e reduzir o risco de interrupções no fornecimento.

“Não basta colocar o gás em uma carreta e levá-lo até o cliente. É necessário conhecer a demanda, calcular a autonomia, acompanhar o consumo e manter uma estrutura de contingência. A logística energética precisa funcionar todos os dias porque uma fábrica não pode parar por falta de combustível”, explica Pinheiro.

Operação passa para o controle da J&F

Em março de 2026, a Superintendência-Geral do Conselho Administrativo de Defesa Econômica autorizou a aquisição de 90% da Logás pela J&F, holding com atuação nos setores de alimentos, mineração, papel e celulose, serviços financeiros e energia.

A operação colocou sob o controle da J&F uma companhia especializada justamente na logística de gás para consumidores não conectados à rede convencional. A Logás atua com gás natural comprimido, liquefeito e renovável, transportado por carretas especiais para regiões não atendidas por gasodutos.

A aquisição envolveu as participações da Macaw Energies Brasil e do sócio Márcio Pires Pinheiro. O valor da negociação não foi divulgado.

Ao apresentar a operação ao Cade, a J&F afirmou que o negócio representava uma oportunidade de expansão no mercado de gás natural comprimido, liquefeito e renovável, principalmente no atendimento a clientes que procuram substituir combustíveis com maior emissão.

Para Pinheiro, o crescimento desse mercado acompanha uma mudança na maneira como as empresas planejam o próprio abastecimento energético.

“A logística fora da rede deixou de ser vista apenas como uma alternativa temporária. Ela passou a fazer parte da estratégia de expansão do mercado porque consegue alcançar consumidores que a infraestrutura convencional ainda não atende”, avalia.

O desafio da interiorização do gás

O Plano Indicativo de Gasodutos de Transporte elaborado pela Empresa de Pesquisa Energética identificou oito projetos potenciais para a expansão da infraestrutura brasileira. Juntos, os traçados somam aproximadamente 2,3 mil quilômetros e incluem propostas relacionadas à interiorização do gás natural, ao aproveitamento do biometano e à redução de gargalos da malha existente.

A construção desses gasodutos pode ampliar a capacidade de transporte do país, mas empreendimentos dessa dimensão exigem estudos, licenciamento, investimentos elevados e garantia de consumo suficiente para justificar as obras.

Enquanto essas estruturas não chegam, indústrias localizadas fora da rede precisam utilizar outros combustíveis ou recorrer a modelos logísticos alternativos.

É nessa lacuna que o transporte de gás natural comprimido e liquefeito ganha relevância. A modalidade permite criar corredores de abastecimento e atender polos industriais sem depender imediatamente de grandes obras lineares.

Para Pinheiro, o desenvolvimento do setor passa pelo reconhecimento das diferenças econômicas e geográficas brasileiras.

“O Brasil não possui uma única realidade energética. Existem regiões próximas a gasodutos e áreas industriais completamente desconectadas da malha. Cada projeto precisa considerar o volume consumido, a distância, o perfil da indústria e a infraestrutura disponível”, afirma.

Biometano amplia as possibilidades

A mesma estrutura utilizada no transporte de gás natural também pode atender ao mercado de biometano, combustível renovável produzido a partir da purificação do biogás gerado por resíduos agropecuários, urbanos e industriais.

Por possuir características compatíveis com o gás natural, o biometano pode aproveitar estruturas semelhantes de compressão, transporte, armazenamento e consumo. Isso permite conectar produtores localizados longe dos grandes centros a empresas interessadas em reduzir as emissões de suas operações.

Em regiões agrícolas, usinas, aterros sanitários e unidades de tratamento de resíduos podem se tornar pontos descentralizados de produção energética. O desafio está em retirar o combustível desses locais e entregá-lo aos consumidores com regularidade.

“O biometano aproxima a produção de energia das economias regionais. Mas esse combustível só gera valor quando existe uma estrutura capaz de levá-lo da origem até o consumidor. A logística é fundamental para transformar o potencial ambiental em atividade econômica”, analisa Pinheiro.

A empresa também desenvolveu serviços relacionados à locação de compressores, veículos movidos a gás e equipamentos de armazenamento, além de projetos voltados à comercialização direta e à análise da matriz energética de consumidores industriais.

Experiência construída dentro da operação

A trajetória de Márcio Pinheiro foi desenvolvida dentro da operação do mercado de gás. Sua experiência inclui o relacionamento com consumidores industriais, a implantação de bases de abastecimento, o planejamento logístico e a adaptação da infraestrutura às necessidades de cada projeto.

Esse conhecimento permitiu acompanhar a evolução do mercado brasileiro ao longo de mais de duas décadas, período marcado por mudanças regulatórias, abertura gradual à concorrência, entrada de novos fornecedores e crescimento do interesse por alternativas energéticas com menor impacto ambiental.

Durante esse processo, o gás deixou de ser discutido apenas como uma commodity retirada de grandes campos. Passou a ser compreendido também como um desafio de infraestrutura, tecnologia e distribuição.

O aumento da produção doméstica, isoladamente, não garante maior competitividade para a indústria. Para produzir efeitos econômicos, o gás precisa ser processado, comercializado e entregue em condições compatíveis com a realidade de cada consumidor.

Foi a partir dessa leitura que Pinheiro ajudou a transformar uma limitação histórica da infraestrutura brasileira em um modelo de negócio capaz de atender indústrias em diferentes regiões do país.

“O desenvolvimento do mercado não virá de uma única solução. O Brasil precisa ampliar os gasodutos, estimular a concorrência, desenvolver o biometano e utilizar modelos logísticos flexíveis. O objetivo é fazer a energia chegar aos lugares onde ela pode gerar produção, emprego e competitividade”, conclui.

A entrada da J&F na Logás evidencia o interesse crescente de grandes grupos pela distribuição de gás fora da rede convencional. Também evidencia o valor de uma operação desenvolvida durante anos para atender um problema concreto da indústria brasileira: como levar gás aonde os gasodutos ainda não chegaram.

Monalise Bürger
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