*Por Rui Stoffel, CEO e cofundador da BUSUP

Todos os dias, milhões de brasileiros deixam suas casas antes do amanhecer, enfrentam congestionamentos, estações lotadas e trajetos imprevisíveis para chegar ao trabalho. Embora esse período costume ser tratado apenas como deslocamento, seus efeitos começam muito antes da entrada no escritório ou do primeiro acesso ao computador. O desgaste físico e mental acumulado no caminho influencia a disposição, a concentração e a produtividade dos profissionais, tornando cada minuto gasto no trajeto uma extensão silenciosa da própria jornada de trabalho.

Durante muito tempo, aprendemos a enxergar o deslocamento como uma etapa separada da rotina profissional. Mas, na prática, o trabalho começa quando o colaborador sai de casa. Não por acaso, situações ocorridas durante o trajeto podem ter relação direta com a atividade laboral, evidenciando que a experiência do trabalhador vai muito além das horas passadas dentro da empresa.

Os números mostram o tamanho desse desafio. Segundo pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI), os brasileiros gastam, em média, 4,8 horas por semana nos deslocamentos para o trabalho. Ao longo de um ano, isso representa cerca de 230 horas dedicadas exclusivamente ao trajeto. Nas grandes cidades, mais de um terço da população passa mais de uma hora por dia em deslocamentos relacionados ao trabalho, um cenário que afeta não apenas a mobilidade urbana, mas também a qualidade de vida e a relação das pessoas com suas atividades profissionais.

Existe uma diferença importante entre investir uma hora do dia em uma atividade escolhida e perder essa mesma hora em congestionamentos, longas esperas ou trajetos imprevisíveis. Mais do que um número na rotina, esse tempo representa oportunidades que deixam de existir. É a atividade física que fica para depois, o curso que não acontece, o livro que permanece fechado e os momentos de convivência com a família que se tornam cada vez mais escassos.

Quando somados ao longo de semanas e anos, os minutos perdidos nos deslocamentos produzem um impacto que vai além da mobilidade urbana e passa a influenciar diretamente a qualidade de vida das pessoas. O desgaste começa antes mesmo da chegada ao trabalho e, muitas vezes, acompanha o profissional ao longo de todo o dia.

Não por acaso, 60% dos trabalhadores brasileiros afirmam já ter chegado atrasados ou estressados ao trabalho em razão de problemas relacionados ao trânsito, aponta a CNI. Mais da metade também reconhece que o tempo gasto nos deslocamentos interfere em sua produtividade. Esses dados reforçam uma percepção que muitas empresas já começam a observar na prática: a experiência do colaborador não começa quando ele registra o ponto ou abre o computador. Ela começa no momento em que sai de casa.

Durante anos, as organizações investiram em tecnologia, programas de desenvolvimento, iniciativas de bem-estar e modelos flexíveis de trabalho para melhorar o ambiente corporativo. São avanços importantes, mas que muitas vezes ignoram um fator que influencia diretamente a rotina das equipes. Afinal, de pouco adianta oferecer uma experiência positiva dentro da empresa quando o deslocamento diário continua sendo uma fonte permanente de desgaste físico e mental.

A mobilidade também passou a influenciar decisões profissionais. Ainda de acordo com a CNI, 32% dos brasileiros já deixaram de aceitar uma oportunidade de emprego por dificuldades relacionadas ao transporte. O dado mostra que o deslocamento deixou de ser apenas uma questão operacional para se tornar um elemento relevante na atração e retenção de talentos. Em um mercado de trabalho cada vez mais competitivo, ignorar esse aspecto significa desconsiderar um fator que afeta diretamente a capacidade das empresas de formar e manter equipes.

Ao mesmo tempo, o país continua fortemente dependente do transporte individual. Dados do Censo 2022 mostram que o automóvel é o principal meio utilizado para chegar ao trabalho, escolhido por mais de 22 milhões de brasileiros. Essa dependência contribui para ampliar a pressão sobre a infraestrutura urbana e ajuda a explicar por que 1,3 milhão de pessoas ainda levam mais de duas horas apenas para chegar ao local onde trabalham.

É evidente que investimentos públicos em infraestrutura continuam sendo fundamentais para enfrentar esse desafio. No entanto, esperar que todas as soluções venham exclusivamente desse campo significa abrir mão de oportunidades que já estão ao alcance das empresas. Organizações têm condições de participar ativamente da construção de modelos de deslocamento mais eficientes, especialmente em regiões com grande concentração de trabalhadores e polos empresariais.

A incorporação da mobilidade às estratégias de gestão de pessoas e sustentabilidade representa uma evolução natural dessa discussão. Não se trata apenas de oferecer transporte, mas de repensar a forma como os deslocamentos acontecem, buscando alternativas capazes de reduzir custos, aumentar a previsibilidade das viagens e tornar o tempo gasto no trajeto menos desgastante.

Modelos de mobilidade corporativa compartilhada têm demonstrado que é possível combinar eficiência operacional e qualidade de vida. O uso de tecnologia para planejar rotas, consolidar trajetos e adequar a oferta de transporte às necessidades reais das empresas permite reduzir congestionamentos, otimizar recursos e oferecer uma experiência mais adequada para quem precisa se deslocar diariamente.

Quando diferentes organizações passam a compartilhar soluções de transporte em uma mesma região, os ganhos se tornam ainda mais expressivos. Custos são diluídos, a ocupação dos veículos aumenta e o acesso a serviços de qualidade deixa de ser uma possibilidade restrita às grandes corporações. O resultado beneficia empresas, trabalhadores e cidades.

Talvez a discussão sobre mobilidade precise começar por uma pergunta simples: por que aceitamos perder tanto tempo todos os dias para chegar ao trabalho? Enquanto essa realidade continuar sendo tratada como algo inevitável, seguiremos buscando soluções para produtividade, bem-estar e atração de talentos sem enfrentar um dos fatores que mais influenciam a rotina de milhões de trabalhadores. Recuperar horas da semana não resolve todos os desafios da vida urbana, mas representa um passo importante para devolver às pessoas tempo e qualidade de vida, algo que nenhuma tecnologia consegue substituir.

*Por Rui Stoffel, CEO e cofundador da BUSUP, plataforma global especializada em mobilidade corporativa.

Rui Stoffel Fernandes, CEO e cofundador da BUSUP
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