Da AWS aos novos operadores das redes, a transformação digital coloca o setor elétrico diante de uma nova realidade


Renato Zimmermann

Foto: Freepik

Participar de uma palestra de Leandro Florenzano, da AWS (Amazon Web Services), durante a Semana Caldeira, em Porto Alegre, foi uma oportunidade para enxergar a transição energética por uma perspectiva que vai muito além da substituição de combustíveis fósseis por fontes renováveis.

O que está acontecendo é uma transformação profunda na própria maneira como a energia será produzida, distribuída, consumida e administrada.

Florenzano é Arquiteto de Soluções Sênior da AWS para o setor público e atua com clientes da vertical de Power & Utilities no Brasil. Seu trabalho está justamente na interseção entre tecnologia, computação em nuvem, dados e os desafios do setor elétrico.

Em trabalhos publicados pela própria AWS, ele aborda aplicações de computação de alto desempenho, inteligência artificial e digitalização para redes inteligentes, transmissão e distribuição de energia.

A palestra fez parte da programação da Semana Caldeira 2026, realizada de 21 a 25 de setembro no Instituto Caldeira. Em sua quinta edição, o evento reuniu centenas de palestrantes e uma extensa programação voltada à inovação, tecnologia, empreendedorismo e novos negócios. O próprio Instituto define a Semana como um momento anual de conexão da sua comunidade para aprender, conectar e transformar.

Dentro desse ambiente, o encontro promovido pelo EQT Lab, hub de inovação do Grupo Equatorial que mantém um polo no Instituto Caldeira, ganhou uma importância especial. O laboratório trabalha com inovação aberta, aproximando empresas, startups, instituições de pesquisa e outros atores para desenvolver soluções aplicadas aos desafios reais do setor elétrico.

O que Florenzano apresentou mostra que a inteligência artificial poderá modificar profundamente a operação da energia. Dados provenientes de sensores, medidores inteligentes, equipamentos, consumidores, geração distribuída, baterias e outros dispositivos poderão ser processados praticamente em tempo real. A IA passa, assim, de uma ferramenta de análise para uma tecnologia capaz de apoiar decisões sobre onde, quando e como utilizar a energia.

Essa transformação também precisa ser compreendida dentro da própria evolução da Amazon. Desde o compromisso assumido por Jeff Bezos com o Climate Pledge, a companhia estabeleceu a meta de alcançar emissões líquidas zero de carbono até 2040.

A Amazon informa que, em 2025, conseguiu igualar 100% da eletricidade consumida globalmente por suas operações a fontes renováveis pelo terceiro ano consecutivo. Isso inclui as operações da AWS e seus data centers.

Há aqui uma questão particularmente interessante: empresas de tecnologia estão entre os grandes consumidores de eletricidade da nova economia digital. Data centers, inteligência artificial e computação em nuvem exigem enormes quantidades de energia. Ao mesmo tempo, essas mesmas empresas estão desenvolvendo tecnologias capazes de tornar o sistema elétrico mais eficiente, previsível e flexível.

É nesse ponto que aparece outra dimensão estratégica da Amazon. O Climate Pledge Fund foi criado com US$ 2 bilhões para investir em empresas e tecnologias voltadas à descarbonização e à sustentabilidade. Portanto, não se trata de uma verba de R$ 2 bilhões da AWS, mas de um fundo de US$ 2 bilhões da Amazon destinado a acelerar soluções sustentáveis.

Essa lógica ajuda a compreender o ecossistema que está se formando. Novas empresas não necessariamente nascerão para produzir energia. Muitas estarão na camada tecnológica: inteligência artificial, sensores, softwares, baterias, gestão de demanda, carregamento de veículos elétricos, automação, previsão climática e sistemas capazes de transformar dados em decisões.

Durante as discussões associadas ao EQT Lab, surgiu justamente uma questão que considero central: a tecnologia está avançando mais rapidamente do que a regulação e a infraestrutura conseguem acompanhar.

O Brasil já possui consultas públicas, projetos-piloto e sandboxes regulatórios. O sandbox é, em essência, um ambiente controlado no qual novas tecnologias ou modelos de negócio podem ser testados por período determinado, sob regras específicas e supervisão do regulador.

A ANEEL (Agência Nacional de Energia Elétrica) utiliza esse instrumento para permitir experimentações que possam produzir evidências antes da consolidação de novas regras. Mas talvez o desafio maior esteja nas redes.

Estamos entrando em uma época em que o fluxo de energia deixa de ser predominantemente unidirecional. Um painel solar pode produzir energia durante o dia; uma bateria pode armazená-la; um carro elétrico pode consumir ou, em determinados modelos, devolver energia à rede; uma residência pode alterar seu consumo; uma indústria pode responder a sinais de preço; e todos esses equipamentos podem estar conectados digitalmente.

É nesse cenário que surge a discussão sobre o DSO  (Distribution System Operator) o Operador do Sistema de Distribuição. Estudos do MME (Ministério de Minas e Energia), da EPE (Empresa de Pesquisa Energética, da ANEEL e do ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) já tratam da necessidade de uma evolução na operação das redes para lidar com os Recursos Energéticos Distribuídos, os REDs. O ONS, inclusive, vem estudando a interface entre o operador da transmissão e futuros operadores da distribuição.

Na prática, um DSO poderá ter papel fundamental na coordenação dos recursos conectados à rede de distribuição. Não estamos falando apenas de grandes usinas, mas de milhões de pequenos recursos espalhados pelo território: painéis solares, baterias, veículos elétricos, carregadores, equipamentos inteligentes e cargas capazes de alterar seu consumo.

A inteligência artificial poderá ajudar a administrar essa complexidade. Se determinada região estiver apresentando maior demanda, os sistemas poderão identificar recursos disponíveis em outros pontos e otimizar os fluxos. A rede deixa de ser apenas uma infraestrutura passiva de transporte de eletricidade e passa a funcionar como uma plataforma inteligente.

Minha visão é que esse futuro exigirá uma discussão sobre a própria governança da distribuição. Um eventual DSO deveria ter independência suficiente para operar a rede de maneira otimizada, coordenando interesses de produtores, distribuidores, consumidores e novos agentes. A discussão regulatória ainda está em construção, mas o problema tecnológico já está diante de nós.

Entre os participantes dessas discussões estava também Wolf Rowell, profissional com longa atuação no setor elétrico e em novas tecnologias. Rowell atuou como sócio-diretor de Engenharia e Finanças da Noale Energia e, mais recentemente, passou a concentrar seus esforços em pesquisa e desenvolvimento de inteligência artificial aplicada à previsão meteorológica e à gestão de riscos. Ele concluiu recentemente seu mestrado em Ciência da Computação com ênfase em IA pela PUCRS e trabalha na construção de uma deeptech nessa área.

É justamente esse tipo de trajetória que começa a desenhar a nova economia da energia. Engenheiros, cientistas de dados, especialistas em inteligência artificial, empreendedores e profissionais tradicionais do setor elétrico passam a trabalhar sobre o mesmo problema.

Assim como aconteceu com a telefonia e, depois, com a internet, chegou o momento de as redes elétricas incorporarem definitivamente as novas tecnologias digitais. Não se trata apenas de modernizar equipamentos. Trata-se de construir uma infraestrutura capaz de responder a uma sociedade que consumirá mais eletricidade, terá milhões de novos dispositivos conectados e enfrentará eventos climáticos cada vez mais capazes de testar a sua resiliência.

O futuro da energia não será construído apenas nas grandes usinas. Ele estará também nos telhados com painéis solares, nas baterias, nos carros elétricos, nos sensores, nos medidores inteligentes, nos carregadores, nos softwares e nas empresas que ainda nem existem.

A tecnologia já começou a construir essa nova realidade. Agora precisamos construir as redes, a regulação e, principalmente, uma sociedade capaz de compreender e participar dessa transformação.

Renato Zimmermann

Sobre o autor

Renato Zimmermann

Mentor, Palestrante e Ativista em Sustentabilidade. Membro do INEL Instituto Nacional de Energia Limpa.

https://canalsolar.com.br/inteligencia-artificial-come-redesenhar-energia

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