Dr. Balduino Tschiedel

Mestre em genética

Médico endocrinologista do Grupo Hospitalar Conceição

Diretor-Presidente do Instituto da Criança com Diabetes do Rio Grande do Sul

Um infarto nem sempre começa no peito. Em muitas pessoas com diabetes, ele começa anos antes, em silêncio, nos vasos — sem dor, sem alarme, sem que a pessoa perceba. Por isso, no Dia Mundial do Coração (29/9), vale olhar para uma relação que ainda chega tarde demais à conversa: diabetes e risco cardiovascular.

O diabetes é definido pela elevação da glicose no sangue, mas os efeitos ultrapassam o metabolismo. Na prática clínica, também se comporta como uma doença vascular. A glicose persistentemente elevada agride o endotélio, favorece inflamação, acelera placas nas artérias e altera a coagulação. É assim que uma doença lembrada pelo “açúcar alto” se relaciona com infarto, AVC e insuficiência cardíaca.

A doença cardiovascular está entre as principais causas de morte em pessoas com diabetes e responde por cerca de metade desses óbitos. O risco de infarto e AVC pode ser de duas a quatro vezes maior. Ainda assim, muitos associam a doença apenas à glicose, como se coração, pressão e colesterol fossem capítulos separados. Não são.

Há outro ponto pouco lembrado: em pessoas com diabetes, especialmente quando há neuropatia, o infarto pode não se apresentar da forma clássica. A dor pode ser menos evidente e os sinais podem parecer cansaço, falta de ar ou mal-estar. Isso não torna o evento menos grave; torna o reconhecimento mais difícil.

A hemoglobina glicada importa, mas não encerra o cuidado. Em qualquer forma da doença, acompanhar pressão, colesterol, função renal, rotina e adesão ao tratamento faz parte da prevenção cardiovascular.

No Brasil, a Sociedade Brasileira de Diabetes estima que cerca de 20 milhões vivam com a doença. E o problema pode ser ainda maior: cerca de 1 em cada 3 pessoas não sabe que tem o diagnóstico. Diante desse cenário, a barreira não é apenas saber o que fazer. É fazer esse cuidado chegar antes da dor, antes da internação, antes que o coração peça socorro.

Quando isso acontece, a medicina deixa de correr contra o tempo e passa a correr a favor da vida.

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