Pressão sobre o caixa, crédito caro e renovação de frota dificultada ajudam a explicar a crise do setor, mas especialistas afirmam que a falta de gestão continua sendo o principal gatilho
A recuperação judicial tem ganhado espaço entre empresas de transporte em meio ao aumento dos custos operacionais, à dificuldade de acesso ao crédito e à pressão crescente sobre o capital de giro. O movimento ocorre em um momento em que o Brasil registrou o maior número de empresas em recuperação judicial da série histórica, com 2.466 CNPJs envolvidos em processos de reestruturação em 2025, alta de 13% em relação ao ano anterior, segundo a Serasa Experian.
Para Marcos Pelozato, advogado, contador, empresário e especialista em recuperação judicial e reestruturação empresarial há 14 anos, o transporte está entre os setores mais expostos aos efeitos da combinação entre custos elevados e gestão financeira fragilizada. À frente de um escritório especializado em reorganização de empresas, ele afirma que muitas transportadoras chegam ao momento da recuperação judicial após meses ou anos de deterioração financeira silenciosa.
“O problema raramente começa quando a empresa deixa de pagar uma dívida. Na maioria dos casos, a crise já vinha sendo construída por falhas de gestão, falta de planejamento financeiro, descapitalização e dificuldade para acompanhar o aumento dos custos operacionais”, afirma.
Segundo o advogado, a pressão não se limita ao combustível. O encarecimento do crédito, o aumento dos custos de manutenção, a renovação da frota e as despesas trabalhistas têm reduzido as margens das empresas e comprometido a capacidade de investimento. “Muitas transportadoras trabalham com margens cada vez menores. Quando não existe controle rigoroso do fluxo de caixa, gestão eficiente dos contratos e planejamento de longo prazo, qualquer oscilação econômica pode gerar um efeito em cascata”, explica.
O alerta ganha força diante dos números do próprio setor. Levantamentos recentes da NTC&Logística apontam que o transporte rodoviário de cargas opera com defasagem média de 10,1% nos valores de frete em relação aos custos efetivamente suportados pelas empresas. A entidade também destaca que o diesel representa cerca de 35% da estrutura de custos das transportadoras, tornando qualquer variação de preço um fator de impacto imediato sobre a rentabilidade das operações.
A recuperação judicial deixou de ser exceção
Nos últimos anos, a recuperação judicial passou a ser vista por um número crescente de empresários como ferramenta de reorganização financeira, e não apenas como uma alternativa extrema diante da falência. O aumento dos pedidos em diversos setores reforça essa mudança de percepção. Em 2025, o número de empresas em recuperação judicial atingiu o maior patamar desde o início da série histórica acompanhada pela Serasa Experian.
Para o especialista, ainda existe resistência cultural entre empresários do transporte. “Muitos gestores enxergam a recuperação judicial como sinônimo de fracasso, quando, na verdade, ela pode ser um instrumento para renegociar dívidas, preservar empregos, reorganizar operações e permitir que a empresa volte a gerar resultado”, afirma.
Ele observa que o atraso na tomada de decisão costuma ser um dos principais fatores que comprometem o sucesso da reestruturação. “Quanto mais cedo a empresa reconhece os sinais de deterioração financeira, maiores são as chances de construir soluções viáveis junto a credores, fornecedores e instituições financeiras.”
O custo de ignorar os primeiros sinais da crise
Além da pressão financeira, o setor enfrenta desafios estruturais. Dados da Pesquisa CNT de Rodovias 2025 mostram que as condições da infraestrutura rodoviária elevam em média 31,2% os custos operacionais do transporte no país, ampliando a pressão sobre empresas que já convivem com margens apertadas.
Na avaliação do contador, muitas transportadoras concentram esforços na operação diária e deixam de acompanhar indicadores fundamentais para a saúde financeira do negócio. “É comum encontrarmos empresas com excelente capacidade operacional, mas sem governança financeira adequada, sem acompanhamento de passivos e sem planejamento tributário. Isso cria vulnerabilidades que só aparecem quando a crise já está instalada”, afirma.
O especialista acredita que a tendência é de aumento da procura por soluções de reestruturação empresarial nos próximos anos, especialmente entre empresas que precisam reorganizar passivos e recuperar capacidade de investimento. “A recuperação judicial não deve ser vista apenas como uma medida jurídica. Ela é uma ferramenta de gestão de crise. Quando utilizada de forma estratégica e no momento adequado, pode preservar empresas economicamente viáveis e evitar que dificuldades temporárias se transformem em encerramento definitivo das atividades”, conclui.
Sobre Marcos Pelozato
Marcos Pelozato é advogado, contador e empresário com 14 anos de atuação no setor de reestruturação empresarial e recuperação judicial. Reconhecido como referência no segmento, presta assessoria estratégica a empresas em crise financeira, com foco em reorganização societária, gestão de passivos e recuperação de negócios. À frente de um escritório especializado, Marcos também atua como conselheiro para advogados e contadores interessados em ingressar na área de reestruturação, com o objetivo de ampliar o número de profissionais capacitados a atuar diante da crescente demanda por soluções eficazes em gestão de crise.
Para mais informações, acesse: youtube.com/@marcospelozato.oficial, instagram ou pelo LInkedin.
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Fontes de Pesquisa:
Serasa Experian – Recuperações judiciais avançam no Brasil e atingem maior nível da série histórica:
https://www.serasaexperian.com.br/sala-de-imprensa/indicadores/recuperacoes-judiciais-avancam-no-brasil-e-atingem-25-mil-empresas-em-2025-maior-nivel-da-serie-aponta-serasa-experian/
NTC&Logística – Defasagem média do frete:
https://setcesp.org.br/entidade/em-comunicado-oficial-do-conet-ntclogistica-aponta-defasagem-media-de-101-no-frete/
NTC&Logística – Impacto do diesel no transporte rodoviário de cargas:
https://setcemg.org.br/comunicado-ntclogistica-impacto-do-aumento-do-diesel-superior-a-10-no-transporte-rodoviario-de-cargas/
Pesquisa CNT de Rodovias 2025:
https://mundologistica.com.br/noticias/condicoes-rodovias-elevam-custos-transporte-brasil/


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Carolina Lara carolina@carolinalara.com.br
