Resíduos urbanos e biomassas podem integrar uma nova cadeia de produção de combustível sustentável de aviação. Mas, antes de investir centenas de milhões de reais, é preciso responder a uma pergunta fundamental: o projeto é tecnicamente possível — mas é economicamente viável e seu risco é aceitável?

Por Eng. Sebastião Carlos Martins — DBEST PLAN – Engenharia e Tecnologia da Informação

A discussão sobre o futuro do Combustível Sustentável de Aviação — SAF — vem ganhando espaço no Brasil e no mundo. Grande parte das atenções está concentrada em rotas baseadas em óleos e gorduras, etanol, biogás, biometano e combustíveis sintéticos. Todas são relevantes.

Entretanto, existe outra possibilidade que merece atenção especial no Brasil: a utilização de Resíduos Sólidos Urbanos (RSU), resíduos agrícolas, florestais e outras biomassas residuais como matérias-primas para a produção de SAF.

A importância dessa alternativa vai além do combustível produzido. Ela cria a possibilidade de enfrentar simultaneamente dois desafios: produzir combustível sustentável para a aviação e encontrar destinação produtiva para materiais que atualmente representam passivos ambientais, logísticos e econômicos.

Pode aquilo que hoje representa custo de coleta, transporte, tratamento ou destinação transformar-se em matéria-prima para uma cadeia de produtos de maior valor agregado?

A resposta não depende apenas da tecnologia. Depende, sobretudo, de sua viabilidade econômica.

Quando o resíduo deixa de ser apenas um problema

Todos os dias, municípios brasileiros precisam coletar, transportar, tratar e dar destinação ambientalmente adequada a grandes quantidades de resíduos. Paralelamente, regiões agrícolas, florestais e agroindustriais geram volumes expressivos de biomassa residual.

Em determinadas condições, frações adequadas desses materiais podem deixar de ser consideradas exclusivamente um passivo destinado à disposição final e passar a integrar cadeias produtivas de energia e combustíveis.

No caso dos resíduos urbanos, já existe uma necessidade permanente de coleta e destinação. Quando técnica, ambiental e economicamente possível, integrar parte desse fluxo a uma cadeia de recuperação de recursos pode criar um modelo com duas funções: tratar adequadamente determinados resíduos e, simultaneamente, produzir energia e combustíveis de maior valor agregado.

Com resíduos agrícolas, florestais e agroindustriais, o raciocínio é semelhante. Materiais com características adequadas podem tornar-se insumos para novas cadeias energéticas, contribuindo para conceitos mais amplos de economia circular. É nesse contexto que a produção de SAF a partir de resíduos e biomassa merece ser estudada.

Da gaseificação ao combustível sustentável

Entre as rotas analisadas pela DBEST PLAN encontra-se a conversão termoquímica. Por meio da gaseificação, determinados resíduos ou biomassas podem ser convertidos em gás de síntese — o chamado syngas — constituído principalmente por monóxido de carbono e hidrogênio. Depois de adequadamente tratado, esse gás pode alimentar processos de síntese de combustíveis, entre eles a rota Fischer-Tropsch.

Isso não significa afirmar que gaseificação e Fischer-Tropsch sejam necessariamente superiores a alternativas como HEFA, ATJ, biogás, biometano ou outras tecnologias. A conclusão é justamente outra: o futuro do SAF deverá envolver diferentes matérias-primas e diferentes rotas tecnológicas.

Qual tecnologia e qual matéria-prima oferecem, em determinada região, a melhor combinação entre produtividade, CAPEX, OPEX, logística, intensidade de carbono, rentabilidade, maturidade tecnológica e risco?

Essa mudança de pergunta é fundamental para quem pretende investir.

A logística pode decidir se o projeto é viável

Resíduos possuem uma característica que não pode ser ignorada: sua localização. RSU são gerados continuamente nos centros urbanos. Biomassas agrícolas e florestais concentram-se em regiões produtivas específicas. Isso abre espaço para estudar estruturas de produção menos concentradas, com instalações posicionadas de acordo com a disponibilidade regional de matéria-prima e a proximidade dos centros consumidores.

Há, entretanto, um princípio econômico elementar: transportar resíduos por grandes distâncias para posteriormente transportar o combustível produzido de volta aos centros consumidores pode eliminar parte da vantagem econômica e ambiental do empreendimento.

Por isso, projetos dessa natureza precisam ser analisados regionalmente. A localização de uma planta deve considerar conjuntamente disponibilidade e composição da matéria-prima, distância de coleta, capacidade da instalação, produtividade de SAF, CAPEX, OPEX, custos logísticos, infraestrutura disponível, financiamento, tributação e distância até os centros consumidores.

Em determinada região, RSU pode apresentar características favoráveis. Em outra, biomassa agrícola ou florestal pode ser mais adequada. Em outras circunstâncias, etanol, biogás, biometano ou óleos residuais podem apresentar melhores resultados.

A análise deve preceder a escolha da tecnologia — e não ser utilizada posteriormente apenas para justificá-la.

Tecnologia disponível não significa investimento viável

Esse talvez seja um dos pontos mais importantes para investidores, financiadores e empresários. Uma planta pode funcionar perfeitamente do ponto de vista técnico e, ainda assim, não proporcionar retorno adequado ao capital investido.

Projetos de produção de SAF são intensivos em capital. Alterações em CAPEX, OPEX, produtividade, preço do SAF, custo ou remuneração associada à matéria-prima, financiamento, tributação e receitas provenientes de coprodutos podem modificar profundamente sua rentabilidade.

Por isso, calcular apenas uma Taxa Interna de Retorno — TIR —, um Valor Presente Líquido — VPL — ou um período de payback não é suficiente para compreender integralmente o risco do investimento. Um resultado determinístico pode transmitir uma falsa sensação de precisão.

Qual é a probabilidade de o retorno esperado efetivamente ocorrer?

Antes de investir, é preciso medir o risco

É nesse ponto que a metodologia utilizada nos estudos da DBEST PLAN procura avançar além da análise financeira determinística tradicional. Além de TIR, VPL e payback, são utilizadas Análise de Sensibilidade e Simulação de Monte Carlo.

Em vez de considerar que todas as premissas permanecerão exatamente iguais durante a vida do projeto, a análise probabilística permite trabalhar com variações possíveis das principais grandezas econômicas e operacionais. Com isso, torna-se possível identificar quais variáveis representam os maiores riscos ao capital investido e avaliar a probabilidade de diferentes resultados econômicos.

O objetivo de um estudo de pré-viabilidade não deveria ser demonstrar antecipadamente que determinado projeto dará certo. Deveria responder, com a maior objetividade possível: em quais condições o projeto pode ser viável; quais variáveis podem fazê-lo fracassar; qual é a probabilidade de atingir o retorno esperado; e quais medidas podem reduzir esses riscos antes que centenas de milhões de reais sejam comprometidos?

O Brasil não precisa escolher uma única rota para o SAF

O Brasil possui dimensões continentais, diferentes estruturas econômicas regionais e grande diversidade de recursos. Por isso, resíduos urbanos, biomassa agrícola, resíduos florestais, etanol, biogás, biometano, óleos e gorduras e outras matérias-primas não precisam ser encarados necessariamente como concorrentes absolutos.

A solução mais adequada para uma região agrícola pode ser diferente daquela encontrada em uma grande região metropolitana ou em um polo florestal. A decisão deve resultar da comparação entre alternativas. E essa comparação precisa incorporar não apenas eficiência tecnológica, mas também produtividade, investimento necessário, custos operacionais, logística, financiamento, rentabilidade e risco.

Esse é o verdadeiro papel de um estudo de pré-viabilidade.

Do estudo ao livro

Foi a partir dessas questões que desenvolvi, no âmbito da DBEST PLAN – Engenharia e Tecnologia da Informação, a publicação GREEN ECONOMY — PRODUCTION OF SAF FROM URBAN AND RURAL WASTE.

A obra, com aproximadamente 210 páginas, foi estruturada para analisar a produção de SAF a partir de resíduos urbanos, rurais e biomassas sob diferentes perspectivas. O livro aborda rotas tecnológicas, viabilidade econômica e financeira, TIR, VPL, payback, análise de sensibilidade, Simulação de Monte Carlo, riscos, bancabilidade, gestão de projetos e segurança jurídica prospectiva.

Seu propósito não é convencer o leitor de que determinada tecnologia necessariamente será vencedora. É fornecer elementos para que investidores, financiadores, empresários, engenheiros, gestores e demais profissionais possam formular uma pergunta anterior à decisão de investimento:

“Este projeto é tecnicamente possível. Mas é economicamente viável, financiável e seu nível de risco é aceitável?”

BAIXE GRATUITAMENTE O RESUMO SAF Conheça os principais conceitos e a metodologia. Depois, acesse o livro completo para aprofundar a análise técnica, econômica e de riscos. QR Code de acesso: DBEST PLAN dbestplan.com.br

Para quem deseja ter um primeiro contato com os conceitos, metodologia e principais questões discutidas na publicação, a DBEST PLAN disponibiliza gratuitamente o Resumo SAF. O resumo funciona como porta de entrada; a publicação integral reúne o aprofundamento das premissas, análises e instrumentos de avaliação do investimento.

Transformar resíduos em valor exige mais do que tecnologia

O desafio brasileiro não é apenas produzir SAF. É descobrir como transformar a necessidade mundial de descarbonização da aviação em oportunidades de investimento, saneamento, economia circular, desenvolvimento regional, geração de empregos e aproveitamento inteligente dos recursos que o país já possui.

RSU e biomassa merecem ocupar seu espaço ao lado das demais alternativas tecnológicas. Mas a decisão de investir deve ocorrer somente depois que tecnologia, economia e risco forem analisados conjuntamente.Resíduo pode deixar de representar apenas destino de despesa. Quando tecnologia, mercado e viabilidade econômica convergem, pode transformar-se em combustível, desenvolvimento e lucro verde.

Deixe um comentário

×