Por Renato Majarão, diretor regional de Vendas da Danfoss Climate Solutions para a América Latina

As mudanças climáticas estão alterando de forma estrutural as condições em que empresas e sistemas energéticos precisam operar. No Brasil, já se observa uma elevação das temperaturas médias, máximas e mínimas, acompanhada pelo aumento dos episódios de calor extremo e das ondas de calor, segundo o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. Não se trata apenas de enfrentar um verão atípico, mas de preparar as operações para temperaturas mais altas e eventos extremos recorrentes.

Essa transformação já afeta a demanda por energia. Em 2025, sucessivas ondas de calor contribuíram para elevar a carga nos subsistemas Sudeste/Centro-Oeste e Sul, de acordo com o Operador Nacional do Sistema Elétrico e a Empresa de Pesquisa Energética. Para as empresas, o impacto aparece na maior necessidade de climatização, refrigeração e resfriamento de processos.

No Brasil, essa pressão se concentra principalmente sobre sistemas de climatização, refrigeração e resfriamento de processos, que passam a operar por mais tempo e sob maior carga à medida que as temperaturas aumentam. O desafio para as empresas é atender a essa demanda adicional sem permitir que o consumo e os custos avancem na mesma proporção. É nesse contexto que a eficiência energética deixa de ser somente uma iniciativa ambiental e passa a integrar as decisões sobre produtividade, resiliência e competitividade.

Diante do aumento da demanda, o desempenho dos equipamentos ganha ainda mais peso nos custos operacionais. Um motor que trabalha acima da carga necessária, uma bomba sem controle de velocidade ou um sistema de refrigeração desatualizado consomem mais energia para entregar o mesmo resultado. Quanto mais esses sistemas são exigidos, maior tende a ser a diferença entre uma operação convencional e outra capaz de ajustar o consumo à necessidade real.

Eficiência energética também não significa reduzir produção, desempenho ou conforto térmico. O princípio é entregar o mesmo resultado ou ampliar a capacidade operacional utilizando menos energia. Variadores de frequência, por exemplo, ajustam motores, bombas e compressores à demanda de cada momento. Sistemas de automação ajudam a identificar desvios, coordenar equipamentos e reduzir picos, enquanto o aproveitamento de calor residual permite reutilizar energia que seria descartada. Sistemas de purga automatizados e lógicas avançadas de controle ajudam a manter os parâmetros críticos da instalação dentro das condições adequadas, resultando em ganhos substanciais de eficiência.

Existem evidências brasileiras de que há espaço para avançar. A indústria responde por mais de 30% do consumo final de energia e por quase 40% da eletricidade consumida no país, segundo a EPE. Pela dimensão dessa participação, mesmo ganhos proporcionais de eficiência podem produzir efeitos econômicos relevantes.

No Roadmap de Ações de Eficiência Energética na Indústria, a EPE analisou medidas como índices mínimos e etiquetagem de equipamentos, redes de aprendizagem e sistemas de gestão de energia. Juntas, as ações priorizadas poderiam conservar 90,8 TWh de forma acumulada até 2030, volume equivalente a quase 50% da eletricidade consumida pela indústria em 2019. A comparação dimensiona o potencial acumulado das medidas ao longo dos anos e mostra como a eficiência pode ajudar a absorver parte do crescimento da demanda sem depender exclusivamente da expansão da oferta.

Outra pesquisa de campo, realizada com apoio do Banco Mundial, identificou um potencial de eficiência equivalente a 5 milhões de toneladas equivalentes de petróleo em setores industriais que demandam grandes volumes de energia. O levantamento abrangeu atividades como papel e celulose, siderurgia, metais não ferrosos, alimentos e bebidas, química e cerâmica. As principais oportunidades estão nos processos que utilizam calor, como aquecimento, geração de vapor e funcionamento de fornos. O resultado demonstra que há espaço mensurável para reduzir o consumo energético em setores relevantes da indústria nacional.

O Brasil também parte de uma posição favorável. Em 2025, quase 87% da eletricidade gerada no país veio de fontes renováveis, segundo o Balanço Energético Nacional. Essa vantagem na transição para uma economia de baixo carbono não torna secundária a maneira como a energia é utilizada. Geração limpa e consumo eficiente são dimensões complementares de uma mesma estratégia.

A pressão sobre o sistema energético não será determinada apenas pelo clima. Data centers, eletrificação de processos industriais, mobilidade elétrica e produção de hidrogênio verde estão entre as novas cargas que precisarão de fornecimento contínuo. A combinação desses vetores com temperaturas mais elevadas torna a gestão do consumo cada vez mais relevante.

Para as empresas, a eficiência permite crescer com maior controle sobre o consumo, ampliar a previsibilidade dos custos e fortalecer a resiliência operacional. A dimensão econômica dessa agenda também aparece em escala global: estudos da Danfoss estimam que a adoção acelerada de soluções de eficiência energética pode reduzir os custos mundiais de energia em até US$ 2 trilhões e contribuir para a criação de 10 milhões de empregos até 2030.

O país construiu uma vantagem importante ao desenvolver uma matriz elétrica predominantemente renovável. O próximo passo é combiná-la com equipamentos, processos e sistemas capazes de aproveitar melhor a energia disponível. Em uma realidade de temperaturas mais altas e crescimento estrutural da demanda, a eficiência energética é uma ferramenta para controlar custos, fortalecer a resiliência das operações e preservar a competitividade das empresas brasileiras.

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Renato Majarão - diretor regional de Vendas da Danfoss Climate Solutions para a América Latina
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Fernanda Casemiro
fernanda@pressaporter.com.br

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