Estudos mostram potencial de recuperação de ouro, prata, zinco, cobre, níquel e cobalto presentes em correntes líquidas; especialistas alertam que descarte sem análise pode significar perda de matéria-prima e maior impacto ambiental

A água descartada por determinadas atividades industriais pode carregar muito mais do que resíduos. Ouro, prata, zinco, cobre, níquel, cobalto e outros metais podem permanecer nos efluentes depois do processo produtivo e seguir para tratamento sem que a empresa tenha dimensão precisa do valor econômico que está deixando a operação.

Uma revisão científica publicada em 2026 pela RSC Advances, periódico da Royal Society of Chemistry, chama atenção para esse potencial. O trabalho reúne estudos sobre a recuperação de metais presentes em águas residuais de atividades como fabricação de eletrônicos, galvanoplastia e mineração e aponta que algumas dessas correntes podem apresentar concentrações suficientemente elevadas para serem consideradas fontes secundárias de matérias-primas.

Em determinados casos compilados pelos pesquisadores, a concentração de metais em efluentes chega a superar aquela encontrada em minérios naturais. O levantamento cita correntes com cerca de 200 gramas de ouro por tonelada, enquanto minérios convencionais podem apresentar aproximadamente 5 a 30 gramas por tonelada. Os números se referem a condições e processos específicos, mas ajudam a revelar um problema pouco percebido dentro das fábricas: dependendo da atividade, uma parcela da matéria-prima pode estar sendo descartada junto com a água.

“Quando olhamos apenas para a concentração de determinado elemento em um litro de efluente, o número pode parecer pequeno. A dimensão da perda aparece quando cruzamos essa concentração com o volume de água processado durante um mês ou um ano. Sem essa medição, a indústria pode estar descartando continuamente um material de valor sem sequer enxergá-lo como desperdício”, afirma o Dr. Fabio Bento, especialista da Pensalab, empresa que oferece soluções com tecnologias analíticas avançadas para garantir precisão, controle de qualidade e eficiência em diversos setores industriais.

O problema não se restringe aos metais preciosos. Pesquisas brasileiras mostram que outros metais de interesse econômico também podem ser recuperados de correntes industriais. Em estudo desenvolvido na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) com efluente produzido pela Votorantim Metais, em Três Marias (MG), pesquisadores conseguiram recuperar 98,6% do zinco presente na corrente analisada. Ao final do processo, foi obtida uma solução com 125,7 gramas de zinco por litro, que, segundo o estudo, poderia ser encaminhada diretamente para a etapa de eletrólise.

Outro trabalho da UFMG estudou o reaproveitamento de águas residuárias da mineração juntamente com ácido sulfúrico e metais de valor comercial, como cobre, cobalto e níquel. A proposta mostra como o tratamento de efluentes pode deixar de ser visto exclusivamente como uma etapa destinada a eliminar resíduos e passar a integrar uma estratégia de recuperação de recursos.

Para o advogado especializado em mineração Henrique Costa de Seabra, essa mudança de perspectiva ganha relevância em um cenário de valorização dos recursos minerais e avanço da economia circular. “Estamos falando de materiais que já foram extraídos da natureza, beneficiados, transportados e incorporados a um processo produtivo. Quando parte deles chega ao efluente e existe viabilidade técnica e econômica para recuperá-los, simplesmente descartá-los significa perder um recurso que já percorreu uma cadeia de alto custo econômico e ambiental”, afirma Seabra.

O primeiro passo é medir o que está sendo descartado

A presença de metais na água, por si só, não significa que a recuperação será economicamente viável. A decisão depende da concentração, do volume do efluente, do valor do material, da composição da corrente e dos custos envolvidos na separação e purificação.

Por isso, antes de instalar qualquer tecnologia de recuperação, é necessário caracterizar corretamente o efluente. Técnicas analíticas permitem identificar quais elementos estão presentes e quantificá-los mesmo em baixas concentrações.

“Não existe recuperação eficiente sem caracterização. É necessário trabalhar com amostras representativas, métodos adequados e limites de detecção compatíveis com aquilo que se pretende identificar. A partir desses resultados, conseguimos cruzar concentração, volume descartado e valor do material para saber se estamos diante apenas de um efluente a ser tratado ou também de uma oportunidade de recuperação”, explica Fabio.

Existem diferentes tecnologias para retirar metais de soluções aquosas, como adsorção, troca iônica, extração líquido-líquido, processos com membranas e métodos eletroquímicos. A escolha depende das características de cada corrente.

Pesquisas da UFMG mostram o potencial dessas técnicas. Em um estudo com efluentes da mineração de ouro, um processo combinando destilação por membrana e resinas de troca iônica alcançou retenção superior a 99,2% dos metais e superior a 99,9% da acidez, gerando água com condições para reuso na operação. Na etapa de recuperação, uma das resinas estudadas apresentou adsorção de 98% para cobre, 57% para níquel e 23% para cobalto.

Os resultados não significam que essas taxas possam ser reproduzidas em qualquer instalação industrial, mas demonstram que tecnologias já disponíveis e em desenvolvimento conseguem separar materiais que antes poderiam terminar em rejeitos.

Perda econômica também é uma questão ambiental

A recuperação dos metais produz um efeito adicional. Quanto mais material retorna ao ciclo produtivo, menor pode ser a necessidade de recorrer exclusivamente à extração de recursos primários para substituí-lo.

É justamente essa lógica que aproxima o tratamento de efluentes da economia circular. O objetivo deixa de ser apenas retirar substâncias da água para atender aos parâmetros ambientais e passa a incluir a possibilidade de recuperar recursos que ainda possuem utilidade econômica.

“Economia circular não significa simplesmente transformar qualquer resíduo em produto. É necessário avaliar a natureza do material, sua origem, o processo de recuperação e todas as exigências ambientais e regulatórias aplicáveis. O aproveitamento precisa ocorrer com segurança jurídica, rastreabilidade e responsabilidade ambiental”, ressalta Seabra.

A análise dos efluentes também pode revelar ineficiências anteriores ao próprio tratamento. Se uma quantidade relevante de matéria-prima aparece continuamente na água descartada, a indústria precisa investigar não apenas como recuperar o material no fim da linha, mas porque ele está sendo perdido durante o processo produtivo.

“Um efluente também funciona como uma fonte de informação sobre a eficiência da fábrica. Quando encontramos uma matéria-prima de valor sendo descartada de forma recorrente, o resultado analítico pode apontar uma oportunidade de recuperação, mas também indicar que existe espaço para reduzir a perda na origem”, afirma Fabio.

Esse olhar muda a lógica tradicional do tratamento de água industrial. Em vez de enxergar o efluente exclusivamente como um custo necessário para cumprir exigências ambientais, a empresa passa a investigar o que ainda existe naquela corrente e se parte desse valor pode retornar ao processo.

Para Seabra, a tendência deve ganhar importância à medida que recursos minerais se tornam mais estratégicos e as empresas são pressionadas a aumentar a eficiência no uso de matérias-primas.

“Não significa que todo efluente contenha uma quantidade economicamente recuperável de metais. Mas existe uma diferença enorme entre concluir, depois de uma análise técnica, que a recuperação não é viável e simplesmente descartar sem saber o que está indo embora. Em uma indústria cada vez mais orientada por eficiência e sustentabilidade, conhecer esse valor passa a fazer parte da gestão do próprio recurso”, conclui.


Ana Borges
anaborges@compliancecomunicacao.com.br
(11) 99388-6381

Deixe um comentário

×