Os candidatos à presidência deveriam dizer aos brasileiros qual setor elétrico pretendem entregar ao país nos próximos quatro anos. Os candidatos a governador deveriam apresentar seus planos ante as mudanças climáticas e mostrar como vão proteger suas populações
Por Luiz Barata

O Brasil se prepara para escolher o presidente, os governadores e parlamentares que irão conduzir o país e as unidades da Federação pelos próximos quatro anos. Nos intervalos entre os escândalos que têm abalado a República, algumas discussões tangenciaram temas como segurança pública, escala 6×1, previdência, inflação, minerais críticos ou mesmo soberania nacional.
Mas um tema que atravessa praticamente todos esses debates continua surpreendentemente fora da campanha eleitoral: a energia elétrica.
Discutir o sistema elétrico no Brasil é falar de uma das contas de luz mais caras do mundo, que pesa no orçamento de milhões de famílias, que aumenta o preço dos alimentos e dos produtos e afeta toda a indústria nacional, comprometendo a competitividade internacional. E não é apenas tudo isso.
Estamos em plena escalada do Super El Niño, com grande probabilidade de ser o maior de todos os tempos, provocando eventos climáticos extremos críticos em nosso país. Seja na esfera federal ou estadual, as autoridades não estão em dia com o papel de planejamento e preparação para o enfrentamento dessas situações graves que se avizinham.
Também não há no debate eleitoral qualquer sinalização relevante sobre o tema. Esperamos que não seja preciso uma nova catástrofe ou apagão para que, apenas circunstancialmente, essa pauta seja contemplada.
O modelo que ainda sustenta a organização do setor elétrico foi concebido entre 1998 e 2004. Desde então, a realidade mudou profundamente. A matriz deixou de ser predominantemente hidrotérmica e incorporou grandes volumes de geração eólica e solar. A geração distribuída alcançou milhões de consumidores. O mercado livre avançou. A eletrificação dos transportes tornou-se realidade. O clima mudou, a vazão dos rios diminuiu. Mas nossas regras e nossa governança não acompanharam todas essas transformações.
O resultado dessa desconexão aparece de maneira quase didática no “curtailment”. Em 2025, o Brasil desperdiçou cerca de 20% da energia eólica e solar que poderia ter sido produzida. Temos energia limpa disponível e, ao mesmo tempo, contratamos soluções mais caras para garantir segurança ao sistema.
Transformamos abundância em ineficiência.
Enquanto isso, a conta paga pelo consumidor continua crescendo por razões que muitas vezes sequer estão relacionadas à energia consumida. A Conta de Desenvolvimento Energético passou de R$ 18 bilhões em 2018 para mais de R$ 58 bilhões em 2025. Hoje, encargos, tributos e perdas representam cerca de 40% do custo da energia elétrica.
A tarifa acabou transformada em uma espécie de orçamento paralelo para financiar políticas públicas. Subsídios são criados, prorrogados e sobrepostos; benefícios que deveriam ser transitórios tornam-se permanentes; e os custos terminam socializados entre consumidores que não participaram dessas decisões. É justamente por isso que causa preocupação a ausência desse debate na campanha eleitoral.
Os candidatos à presidência deveriam estar dizendo aos brasileiros qual setor elétrico pretendem entregar ao país nos próximos quatro anos. Os candidatos a governador deveriam apresentar seus planos de adaptação às mudanças climáticas e mostrar como vão proteger suas populações e manter o equilíbrio de suas regiões com o cenário de mudanças tão radicais previsto para os próximos anos.
Aqueles que desejam ser eleitos para o Congresso Nacional deveriam demonstrar como enfrentarão o crescimento dos encargos e toda as distorções que afetam a conta de luz e que são aprovadas no Legislativo. O que pretendem fazer com a CDE? Como resolverão estruturalmente o curtailment? Sobretudo, como pretendem impedir que novas decisões políticas continuem transferindo custos para os consumidores (eleitores) de energia.
Esses temas fazem parte de um problema maior: o Brasil precisa rever o Modelo do Setor Elétrico Brasileiro, incluindo o planejamento para a expansão do sistema, sua operação, a comercialização da energia e sobretudo a governança do setor elétrico. Essa é uma tarefa prioritária para os próximos quatro anos, a ser conduzida pelo Executivo e pelo Legislativo.
O Brasil possui recursos naturais e, consequentemente, um potencial energético que poucos países têm. Nosso problema principal está no descompasso entre a configuração do sistema, seja na produção de energia seja no consumo e o regramento vigente, sem contar com a interferência política e a ação dos grupos de interesse.
Ainda há tempo para colocar essa discussão na campanha. Quem pretende ser eleito para um mandato a partir de 2027 precisa dizer o que pensa sobre energia elétrica, sua relação com o consumidor dessa energia e demonstrar de forma técnica e concreta como pretende atuar nessa pauta tão relevante para todo o país.
https://brasilenergia.com.br/energia/a-energia-eletrica-precisa-entrar-na-campanha-eleitoral
