Enquanto perdas na rede equivalem a 4,8 mil piscinas olímpicas por dia, projetos imobiliários incorporam soluções para reduzir o consumo de água desde a especificação dos empreendimentos

O Brasil perdeu 39,53% da água tratada na distribuição antes que ela chegasse às torneiras em 2024. Somente as perdas físicas, provocadas principalmente por vazamentos, somaram cerca de 4,4 bilhões de metros cúbicos, volume equivalente a 4,8 mil piscinas olímpicas desperdiçadas por dia.

Os dados integram o Estudo de Perdas de Água 2026: Desafios na Eficiência do Saneamento Básico no Brasil, elaborado pelo Instituto Trata Brasil em parceria com a GO Associados. Divulgado em junho de 2026, o levantamento utiliza informações do Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico, o SINISA, com ano-base 2024. O volume desperdiçado seria suficiente para abastecer aproximadamente 77 milhões de brasileiros durante um ano.

Como a operação da rede pública não está sob o controle do setor imobiliário, construtoras e incorporadoras concentram sua capacidade de atuação no outro lado da torneira: o consumo dos próprios edifícios. Essa eficiência pode começar a ser definida antes mesmo do início da obra, por meio das soluções, dos equipamentos e dos sistemas previstos em projeto.

Rede brasileira ainda está distante da meta de eficiência

A Portaria MCID nº 788/2024, do Ministério das Cidades, estabelece que os indicadores de perdas na distribuição deverão chegar a 30% entre 2026 e 2032 e a 25% a partir de 2033, para os municípios beneficiados por recursos públicos federais ou por financiamentos com recursos da União.

Atualmente, apenas 12 dos 100 municípios mais populosos do país atendem simultaneamente aos parâmetros de até 25% de perdas na distribuição e até 216 litros por ligação ao dia. A redução do índice nacional de 39,53% para 25% permitiria economizar 2,8 bilhões de metros cúbicos de água por ano, segundo o estudo.

A modernização da rede, a identificação de vazamentos e o controle das perdas dependem de investimentos das concessionárias e do poder público. No ambiente construído, porém, parte da resposta pode ser incorporada ao projeto arquitetônico e aos sistemas prediais.

Consumo de água também se decide na fase de projeto

No edifício, a economia de água pode ser incorporada às especificações antes do início da construção. Soluções como equipamentos sanitários de menor consumo, dispositivos para controle de vazão, torneiras temporizadas e sistemas de aproveitamento de água pluvial reduzem a demanda por água potável durante a operação do empreendimento.

Um estudo de caso da Universidade do Estado de Santa Catarina, a UDESC, apresentado no Simpósio Nacional de Sistemas Prediais de 2023, estimou que o aproveitamento de água pluvial em um edifício residencial multifamiliar de Joinville, Santa Catarina, poderia reduzir em 31,55% o consumo de água potável. Para o reúso de águas cinzas, a redução estimada foi de 21,71%.

Os autores destacam que se trata de uma análise simplificada e que a viabilidade de cada sistema deve considerar aspectos como a sazonalidade das chuvas, a demanda do edifício e os custos de implantação. Ainda assim, o estudo evidencia o potencial das decisões de projeto para reduzir o consumo de água potável em edificações residenciais.

Diferentemente de medidas baseadas exclusivamente em gestão, rotina ou mudança de comportamento, as soluções incorporadas ao empreendimento passam a operar desde a entrega das chaves e permanecem integradas ao uso cotidiano do edifício.

Eficiência definida antes da obra

Na Vanguard, empresa brasileira do setor da construção civil, a eficiência hídrica é considerada durante a especificação dos empreendimentos, quando são definidos os equipamentos e os sistemas que terão influência sobre o consumo de água ao longo da vida útil do edifício.

Fernando Fabian, diretor corporativo da Plaenge, afirma que antecipar essas decisões permite transformar a eficiência em uma característica permanente do projeto: “São escolhas de engenharia que reduzem o consumo de água do edifício como um todo e não exigem uma mudança de hábito dos moradores. A eficiência já está incorporada à operação do empreendimento”, afirma.

Na prática, isso significa definir, desde a fase de projeto, os equipamentos e sistemas que serão incorporados ao edifício. Fabian cita caixas acopladas de alto desempenho, torneiras com redutores de vazão, torneiras temporizadas nos espaços comuns e o aproveitamento da água da chuva para a limpeza dessas áreas.

Pressão sobre os recursos hídricos amplia a importância do projeto

O controle das perdas na rede e a redução do consumo nas edificações atuam em etapas diferentes do abastecimento, mas respondem ao mesmo desafio: utilizar a água disponível com maior eficiência. Enquanto o primeiro depende principalmente de políticas públicas, concessionárias e investimentos em infraestrutura, o segundo começa nas decisões tomadas por projetistas, engenheiros, construtoras e incorporadoras.

Em um país que ainda perde mais de um terço da água tratada durante a distribuição, projetar edifícios mais eficientes não substitui os investimentos necessários na rede pública. A medida, no entanto, amplia a contribuição do ambiente construído para a preservação dos recursos hídricos e ajuda a reduzir, desde a origem, a demanda de água durante a operação dos empreendimentos.

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Luana Hubner luana.hubner@liveseo.com.br

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