Novo PAC, concessões de transportes, expansão da rede elétrica, saneamento e data centers colocam o país entre os mercados mais diversificados da América Latina para a indústria da construção.

O Brasil passou a chamar a atenção do mercado internacional de construção pela dimensão e diversidade de sua carteira de investimentos em infraestrutura. Em análise publicada pela London Construction Magazine, o país aparece como um mercado com potencial para atrair empresas de engenharia, construtoras, fornecedores de equipamentos e investidores interessados em projetos de grande escala. A avaliação considera a combinação de concessões, capacidade industrial, demanda urbana, expansão energética e desenvolvimento de infraestrutura digital.

A publicação ampliou para o território brasileiro a análise iniciada com o estudo Global Construction Cities 2026, que examinou 100 mercados urbanos internacionais, incluindo São Paulo. A conclusão é que poucos países latino-americanos reúnem, simultaneamente, uma carteira tão diversificada de obras e condições para desenvolver projetos em diferentes segmentos. O desafio, segundo a leitura apresentada, é transformar os investimentos previstos em contratos, obras executadas e capacidade operacional.

Novo PAC e concessões movimentam bilhões

O Novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) prevê R$ 1,8 trilhão em investimentos em todos os estados brasileiros. Desse total, R$ 1,3 trilhão estava programado até 2026, enquanto R$ 500 bilhões estão previstos para o período posterior. A carteira abrange habitação, saneamento, mobilidade, infraestrutura social e outros projetos estruturantes.

No setor rodoviário, a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) informou, em agosto de 2026, que a carteira de concessões federais sob sua regulação reunia R$ 306 bilhões em investimentos previstos. Outros R$ 219 bilhões estavam associados a operação, manutenção e serviços, abrangendo aproximadamente 18,1 mil quilômetros de rodovias.

Para a indústria da construção, os números representam demanda potencial por obras de pavimentação, duplicação de pistas, pontes, túneis, sistemas de drenagem, recuperação de estruturas e implantação de tecnologias de monitoramento. A dimensão territorial brasileira também exige soluções logísticas capazes de conectar centros industriais, regiões produtoras e corredores de exportação.

A avaliação da publicação britânica destaca justamente a possibilidade de diferentes ciclos de investimento avançarem ao mesmo tempo, reduzindo a dependência de um único segmento econômico.

Ferrovias, portos e aeroportos ampliam a carteira logística

A infraestrutura de transportes constitui uma das principais frentes de expansão. A programação apresentada para 2026 pelo Ministério dos Transportes e pela ANTT incluiu oito leilões ferroviários e 13 rodoviários, com quase R$ 290 bilhões em investimentos previstos.

A agenda busca ampliar a capacidade de transporte e melhorar a integração entre os diferentes modais. Ferrovias, rodovias, portos e terminais logísticos são fundamentais para o escoamento da produção agroindustrial, o abastecimento dos mercados internos e a competitividade das exportações brasileiras.

Em outubro de 2026, o Ministério de Portos e Aeroportos apresentou uma carteira de aproximadamente R$ 160 bilhões em projetos para o período de 2027 a 2030. O conjunto reúne leilões, concessões, autorizações privadas e obras públicas.

A execução desses projetos pode gerar oportunidades em terminais portuários, acessos terrestres, dragagem, pátios ferroviários, estruturas marítimas, armazenagem e integração multimodal. Além das grandes construtoras, a demanda potencial alcança empresas de projetos, fabricantes de materiais, fornecedores de sistemas industriais e prestadores de serviços especializados.

Expansão da rede elétrica exige engenharia de alta complexidade

A infraestrutura de energia aparece entre os segmentos considerados estratégicos pela análise internacional. A expansão da geração renovável e a necessidade de reforçar a rede de transmissão ampliam a demanda por linhas de alta tensão, subestações, equipamentos elétricos e sistemas de controle.

O Leilão de Transmissão nº 4/2026, previsto para 30 de outubro, contempla aproximadamente R$ 8,9 bilhões em investimentos, com a construção de 1.866 quilômetros de novas linhas e a instalação de 12.694 MVA de capacidade de transformação, distribuídos por sete estados.

A agenda de expansão também alcança 2027. A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) colocou em consulta uma nova proposta de leilão para abril daquele ano, com expectativa de R$ 12,9 bilhões em investimentos. A programação inclui, pela primeira vez, um lote dedicado ao armazenamento de energia por baterias no segmento de transmissão.

Esse movimento amplia a necessidade de fundações, torres, subestações, sistemas de proteção, equipamentos de alta tensão, logística de cargas pesadas e serviços de montagem eletromecânica.

A complexidade dos projetos exige integração entre engenharia civil, elétrica e industrial. Também aumenta a importância da disponibilidade de equipamentos, do planejamento de obras e da capacidade de execução em diferentes regiões do país.

Saneamento e mobilidade urbana sustentam demanda de longo prazo

A carteira brasileira não depende apenas de grandes corredores logísticos e empreendimentos energéticos. A urbanização, a necessidade de ampliar o acesso à água tratada e ao esgotamento sanitário e a pressão sobre os sistemas de transporte também sustentam uma demanda estrutural por obras.

Segundo o Ministério das Cidades, as seleções do Novo PAC para saneamento somavam R$ 61 bilhões desde 2023. Os projetos contemplam abastecimento de água, esgotamento sanitário, drenagem urbana e gestão de resíduos.

Em 2026, novas seleções continuaram avançando em áreas como abastecimento, esgoto, prevenção de alagamentos, contenção de encostas, urbanização de favelas e mobilidade urbana.

No transporte de passageiros, a carteira inclui sistemas de ônibus de trânsito rápido (BRT), metrôs, trens urbanos, veículos leves sobre trilhos (VLTs), corredores de ônibus, terminais e tecnologias de gestão de tráfego.

A diversidade de projetos cria oportunidades para grandes empreiteiras e empresas de engenharia, mas também para fornecedores regionais, instaladores, fabricantes de materiais e prestadores de serviços técnicos. Por envolver necessidades permanentes das cidades, esse mercado pode contribuir para dar continuidade à demanda por construção ao longo dos próximos anos.

São Paulo concentra projetos de transporte e infraestrutura digital

São Paulo ocupa posição relevante na análise internacional por reunir expansão metroferroviária, concentração de atividades econômicas e desenvolvimento de infraestrutura digital.

Em setembro de 2026, o governo estadual informou que São Paulo concentrava R$ 493,7 bilhões em projetos previstos de transporte e logística, equivalentes a 23% da carteira nacional mapeada pela Confederação Nacional do Transporte (CNT).

A dimensão dessa carteira reforça o papel do estado como um dos principais polos de demanda por obras de mobilidade, integração logística e modernização da infraestrutura urbana.

A região também se beneficia da expansão de serviços digitais e de atividades intensivas em processamento de dados. Esse movimento aproxima dois mercados que tradicionalmente eram tratados de forma separada: a construção de infraestrutura física e a implantação de instalações tecnológicas de alta complexidade.

Redata abre nova frente para a construção de data centers

A infraestrutura digital representa uma frente adicional de investimentos. Em setembro de 2026, o Brasil sancionou o Redata, regime tributário destinado a estimular a instalação de data centers e o desenvolvimento de cadeias tecnológicas relacionadas à computação em nuvem, à inteligência artificial e à indústria 4.0.

Para a construção civil e industrial, esses empreendimentos exigem estruturas de alta especificação, fornecimento elétrico confiável, subestações, sistemas de refrigeração, controle ambiental, segurança e instalações críticas.

O avanço desse mercado também aumenta a necessidade de coordenação entre empresas de engenharia, fornecedores de equipamentos, operadores de tecnologia e agentes do setor elétrico.

A disponibilidade de energia e de infraestrutura de transmissão tende a ser um fator decisivo para a localização e a expansão dos centros de dados. Com isso, projetos de tecnologia podem estimular investimentos complementares em redes elétricas, sistemas de resfriamento e infraestrutura de apoio.

A combinação entre data centers, inteligência artificial e expansão energética amplia o escopo do mercado brasileiro de construção para além das obras tradicionais de transporte e infraestrutura urbana.

Londres vê potencial, mas execução será determinante

Na avaliação de Mihai Chelmus, fundador e editor da London Construction Magazine, o principal diferencial brasileiro está na combinação entre escala territorial e diversidade de projetos.

“Poucos mercados conseguem avançar ao mesmo tempo em rodovias, ferrovias, portos, energia, saneamento, mobilidade urbana e infraestrutura digital”, afirma Chelmus, ao destacar a presença de capacidade de engenharia, empresas, capital e mecanismos de concessão capazes de transformar a demanda em projetos de grande porte.

A publicação ressalta que o Global Construction Cities 2026 não estabelece um ranking de cidades. O estudo analisa fortalezas, restrições e pontos de atenção em 100 mercados urbanos. São Paulo foi incluída pela combinação de expansão do transporte metroferroviário e relevância regional em infraestrutura digital. A análise sobre o Brasil amplia essa perspectiva para o mercado nacional.

Apesar das oportunidades, a dimensão dos investimentos anunciados não garante, por si só, sua execução integral. A conversão das carteiras em obras depende de previsibilidade regulatória, licenciamento, estruturação financeira, disponibilidade de equipamentos, capacidade das redes de energia e preparação das cadeias de fornecimento.

Para investidores e empresas internacionais, o Brasil reúne condições para ocupar posição relevante no mercado latino-americano de construção e infraestrutura. A consolidação desse potencial, contudo, dependerá da capacidade de transformar projetos previstos em contratos efetivos, cronogramas consistentes e empreendimentos concluídos.

Fonte: London Construction Magazine. Leia a análise internacional Global Construction Cities 2026: https://www.constructionmagazine.uk/2026/10/global-construction-cities-2026.html

Deixe um comentário

×