O Brasil vive um ciclo favorável de investimentos em infraestrutura de transporte, sustentado por projetos mais maduros e avanços no financiamento. Para torná-lo permanente, é essencial consolidar um planejamento integrado e de longo prazo

Por Agência CNT Transporte Atual

por Felipe Borim Villen*

O Brasil vive um superciclo de investimentos em infraestrutura. Segundo a Abdib (Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base), o país deve ultrapassar os R$ 300 bilhões em 2026, um crescimento real superior a 80% frente a 2020. Ainda assim, o hiato anual de investimentos em transporte é estimado em R$ 206 bilhões.

Converter esse ciclo em trajetória duradoura depende de três pilares: capacidade de estruturar bons projetos, funding adequado e planejamento de longo prazo.

Em relação ao primeiro pilar, os últimos trinta anos de concessões construíram um legado: capacidade de produção de bons projetos. Se não é um problema inteiramente resolvido, está bem endereçado. Sucessivas rodadas de leilões em diversos setores, com projetos maturados ao longo dos anos, permitiram acumular conhecimento na preparação de estudos, na regulação e na modelagem contratual. 

Mesmo com ajustes ao longo do caminho, esse aprendizado dá segurança para atrair operadores e investidores. O setor rodoviário ilustra isso: entre 2023 e 2025, foram realizados vinte e dois leilões de rodovias federais, com uma média de quase três participantes por leilão. Trata-se, possivelmente, do maior programa de concessões rodoviárias do mundo.

O funding de longo prazo também evoluiu. O desenvolvimento do mercado de capitais, apoiado pelo BNDES nos projetos mais desafiadores, mobilizou recursos financeiros em grande escala. O mercado de debêntures incentivadas atingiu seu recorde histórico em 2025 — R$ 177 bilhões, sendo R$ 62 bilhões para o transporte. As aprovações do BNDES para concessões rodoviárias atingiram R$ 23,5 bilhões em 2024, recorde histórico, e o apoio à Via Dutra, de R$ 10,75 bilhões, resultou na maior emissão de debêntures de infraestrutura já realizada no país. 

Resta o terceiro pilar, o planejamento integrado de longo prazo, e é nele que está a fronteira atual. O PNL 2050, divulgado em agosto pelo Ministério dos Transportes, definiu 112 objetivos prioritários de atuação e um cenário-meta de 31 eixos de transporte até 2050. O Plano CNT de Transporte e Logística mapeou 2.837 projetos, que somam cerca de R$ 2 trilhões. E o Estudo Nacional de Mobilidade Urbana, elaborado pelo BNDES com o Ministério das Cidades, estruturou uma carteira de 187 projetos de transporte coletivo de média e alta capacidade nas 21 maiores regiões metropolitanas, em um horizonte de 30 anos. Embora com escopos distintos, os três se complementam.

Planejar é também coordenar. A eficiência logística depende da conexão entre rodovias, ferrovias, hidrovias, portos e aeroportos. Por exemplo, ferrovias precisam de terminais e acessos adequados. 

Compatibilizar cronogramas é tão relevante quanto definir prioridades. Planejar permite ainda comparar alternativas, considerar a manutenção dos ativos existentes e incorporar mudanças na produção, na ocupação do território e na sustentabilidade climática e social.

Coordenar, porém, exige constância. Planos só valem quando são seguidos e orientam o que vem depois: a carteira que se prioriza, o projeto que se estrutura, o leilão que entra no calendário. É nessa passagem que o plano vira infraestrutura, e é nela que a descontinuidade cobra seu preço. O Brasil aprendeu a estruturar e financiar. Se souber planejar, as prioridades definidas hoje construirão o sistema de transporte do qual o país precisará no futuro.

*Felipe Borim Villen 

Superintendente de Infraestrutura do BNDES, responsável pelo financiamento a projetos de transporte, logística, mobilidade urbana e saneamento. Economista formado pela USP e mestre em Administração Pública pela FGV

https://www.cnt.org.br/agencia-cnt/planejar-para-que-o-recorde-de-investimentos-vire-regra

Deixe um comentário

×