Dados do Boletim de Conjuntura Econômica da Confederação mostram a evolução dos principais insumos do transporte, em um cenário de juros elevados e diferentes desempenhos entre os segmentos do setor
Por Daniel Fernandes

A alta do diesel, que voltou ao centro das discussões sobre o mercado de combustíveis após chegar a R$ 7,33 por litro no Brasil, é parte de um cenário econômico de forte pressão sobre as margens do transporte. Dados do Boletim de Conjuntura Econômica de outubro da CNT mostram que outros componentes dos custos operacionais também registraram aumentos neste ano, reforçando a importância de acompanhar a evolução dos preços dos insumos e das condições econômicas que influenciam a atividade das empresas.
Até setembro, o óleo diesel acumulou alta de 15,26%, segundo o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), calculado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), impulsionado pela alta do barril de brent ao patamar de US$ 100,00. Naquele mês, o combustível avançou 1,69%, após quatro meses consecutivos de queda, mesmo com a subvenção federal de R$ 2,12 por litro. Esse choque de custos em 2026 contrasta com o observado no mesmo período de 2025, quando a alta acumulada era de 1,57%.
O movimento inflacionário também foi acompanhado pelo aumento de outros insumos relevantes para a operação do transporte. O óleo lubrificante acumulou alta de 14,09% entre janeiro e setembro, ante 1,58% no mesmo período do ano anterior. Já o pedágio registrou aumento acumulado de 4,65%, revertendo a queda de 2,53% observada nos nove primeiros meses de 2025.
Os dados mostram que a evolução dos custos não se restringe aos combustíveis. Acompanhar o comportamento de diferentes itens permite compreender melhor o ambiente operacional das empresas e subsidiar o planejamento financeiro e a gestão dos recursos.
Além dos preços dos insumos, os indicadores de inflação e juros ajudam a contextualizar as condições econômicas em que as empresas de transporte tomam decisões. Em setembro, o IPCA acumulado em 12 meses chegou a 4,58%, acima do teto de 4,5% da meta de inflação. No mesmo período, o grupo Transportes registrou variação acumulada de 3,94%.
A taxa básica de juros, a Selic, permaneceu em 13,75% ao ano em outubro. Mesmo após cinco reduções consecutivas que totalizaram 1,25 ponto percentual desde março, o Brasil continuou apresentando a maior taxa de juros reais entre as principais economias consideradas no boletim, alcançando 8,77% ao ano.
Para as empresas de transporte, a manutenção dos juros em patamar elevado encarece significativamente o custo de capital nas decisões de financiamento, seja para capital de giro, seja para renovação de frota e aquisição de equipamentos. Nesse contexto, a evolução dos preços dos insumos e das condições de crédito compõe o conjunto de variáveis que precisam ser consideradas no planejamento empresarial.
Para a diretora executiva da CNT, Fernanda Rezende, a análise conjunta dos indicadores econômicos é fundamental para compreender as condições que influenciam a operação das empresas de transporte. “A evolução dos custos dos insumos, combinada às condições de crédito e ao comportamento da atividade econômica, reforça a importância do planejamento das empresas de transporte e do acompanhamento do cenário econômico detalhado para a tomada de decisões.”
Desempenho varia entre os segmentos
O boletim também apresenta diferenças no comportamento da atividade econômica entre os segmentos do transporte, refletindo a perda de dinamismo geral. Segundo a PMS (Pesquisa Mensal de Serviços), do IBGE, as atividades de transporte, serviços auxiliares aos transportes e correio recuaram 1,5% de janeiro a agosto de 2026, na comparação com o mesmo período de 2025. No período, o transporte terrestre cresceu 0,8%, impulsionado pelas altas de 2,6% no transporte rodoviário de passageiros e de 0,5% no de cargas.
No acumulado do ano, o transporte aquaviário recuou 0,2%, o segmento de armazenagem, serviços auxiliares e correio caiu 2,2%, e o transporte aéreo registrou a maior retração, de 13,6%. Apesar do saldo anual negativo, o mês de agosto revelou pontos de resiliência: o transporte aquaviário atingiu recorde histórico no volume de serviços, ficando 49,3% acima do nível pré-pandemia.
